Sabedoria política

Publicação: 2020-02-18 00:00:00
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Valério Mesquita
Escritor

01) O “majó” Theodorico Bezerra planejava há três anos buscando a melhor forma de como vencer determinada eleição municipal. “Meu filho”, dizia, “uma eleição se ganha no dia. Na hora do voto. Com muita estratégia”. Lá na frente, o “majó” venceu essa eleição que seria seu último embate. Alguém comentou: “Deputado, o senhor não se acha velho para tamanha maratona que é uma campanha eleitoral?”. Mão nos quadris, como se segurasse o cinto, não se alterou: “Olhe... A gente só envelhece, quando deixa de amar, sonhar e se indignar. Não é isso mesmo?”. O interlocutor ficou mudo.

02) Na Câmara Federal, o então deputado Djalma Marinho alongou-se no seu pronunciamento e um dos seus pares, senhor de muitas terras no norte do Brasil, já se entediava. Começou a debochar baixinho, tratando Djalma de “raquítico, óculos de fundo de garrafa”, etc., etc. Sentindo o clima, Djalma deu outro rumo à fala e acentuou: “Eu conheço um colega que cabia intencionalmente nessa máxima: Ele é tão pobre, tão pobre, que a única riqueza que tem é o dinheiro demais...”. Aplausos de todos, menos um. Foi uma aula gratuita.

03) Acontecia num luxuoso hotel em São Paulo, uma recepção do alto PIB. O então deputado federal Lavoisier Maia, levava seu bom papo para uma linda moça que mais parecia um jumbo alçando voo. Já passava da meia noite. A garota não abria a guarda e ele então apelou para o golpe de misericórdia: “Meu anjo”, Lavô cochichou, “Se surgisse um homem rico, um jovem bonito e outro inteligente, falando em casamento para você, qual escolheria?”. A linda mulher, desesperançada, segurando o copo de um bom vinho, iluminou os olhos verdes: “Na maré que eu estou, até você serve”.

04) Corria o ano de 1964. Os ânimos no meio político estavam tensos. Prisões, cassações e até sumiços. Essas eram as palavras em voga. Entre líderes estudantis, deputados, pessoas formadoras de opinião, o nervosismo era grande. Corações batiam a mil. Diniz Câmara, Assis Amorim, Luiz Sobrinho – todos com passagens pela Assembleia Legislativa, viviam monitorados pelo Exército e pela Polícia. Certa feita, acontecia uma reunião pública num colégio. Muitos estudantes/companheiros se faziam presentes. A polícia cercou o prédio. A notícia se espalhou. Um jovem – hoje juiz aposentado – de repente juntou uns papeis e foi se “escorregando”. Ao dobrar a esquina, bateu de frente com o tenente Clodoaldo, delegado local. “O que você leva aí, rapaz?”, quis saber o militar. “Uns papéis e livros escolares”, foi a resposta. O tenente manuseou o livro e devolveu-o. Caminhando alguns metros, o delegado informou a um sargento do Exército: “Nada de mais! Apenas um livro de um tal de “Kero Mais”!”. O tal livro era “O Capital” de Karl Marx. Valeria talvez uns meses de prisão e depoimentos, à época, não fosse a forma casual de ler ou ocasional de interpretação da graduada autoridade.

05) Os “estrelados de Brasília” ditavam a lei. No Rio Grande do Norte, o líder maior, Aluízio Alves era cassado pelo AI-5. Mesmo assim, o velho MDB estrebuchava como podia. Radir Pereira era o nome para o senado. As conversações prometiam. O MDB sempre foi o fiel da balança. De repente, uma bomba: Jessé Freire é o nome da revolução (Arena). Em troca de apoio, Aluízio seria anistiado. Cartas circularam pelo Rio Grande do Norte. Ninguém queria acreditar mas Radir perdeu o apoio bacurau. Contadas as pedras do bisaco, ele arrumou as malas e saiu do país, antes desabafando: “MDB, Arena, revolução, políticos e seus lacaios, vão todos para os quintos dos infernos!”. Se o leitor entender melhor a política procure ler a “Divina Comédia”, de Dante.





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