Saga da esperança: TRIBUNA DO NORTE esteve com o Alecrim em dia da final da 2ª divisão; confira

Publicação: 2019-11-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Anthony Medeiros
Repórter

Fundado em 1915, o Alecrim ocupa um espaço curioso no coração e memória daqueles que acompanham o futebol potiguar. Mesmo os que não são torcedores, recordam do Alviverde sete vezes campeão potiguar (sendo um deles, em 1968, de forma invicta), ou até pelo apelido de “vingador”, alcunha adquirida na década de 70 em razão das vitórias contra clubes que vinham a Natal e batiam ABC e América. Por méritos próprios, o Alviverde potiguar se colocou como o terceiro clube mais tradicional do Estado, posto que defende até hoje, mas em um ritmo que nada combina com a história vencedora que ostenta até aqui.

Equipe do Alecrim viveu um dia com sentimentos diferentes. Da alegria no início, passando pela concentração antes de a bola rolar e chegando a tristeza no fim
Equipe do Alecrim viveu um dia com sentimentos diferentes. Da alegria no início, passando pela concentração antes de a bola rolar e chegando a tristeza no fim

Por essas e outras, é no mínimo “paradoxal” que a partida mais importante do ano do “Periquito” tenha sido uma decisão de segunda divisão do Campeonato Potiguar, como a disputada no último sábado, 9, no Estádio Frasqueirão, contra o Força e Luz. Pior que isso: pela segunda temporada consecutiva, o Alecrim não teve sucesso na disputa para voltar à primeira divisão, de onde saiu em 2017 e não mais voltou. Desta vez, o fracasso veio na derrota nos pênaltis para o Força e Luz por 4 a 3 após empate no tempo normal por 1 a 1. O paradoxo segue em uma eliminação mesmo em campanha invicta (seis vitórias e um empate).

Em uma espécie de “imersão”, a reportagem da TRIBUNA DO NORTE foi autorizada pela comissão técnica e direção do Alecrim a acompanhar o dia decisivo desde o início do sábado, na concentração do clube em São Gonçalo do Amarante, até o pós-jogo. Ubirajara Cavalcanti, presidente do Alviverde desde 2018, lamentou o resultado, mas afirmou que 'o sonho não pode acabar'. “Tenho uma máxima: O nosso sonho não acabou, a luta continua, a esperança verde nunca morre. Não deu dessa vez por detalhes, mas principalmente pela sorte. O futebol é uma ciência que premia a competência, mas apenas a sorte explica a gente ter saído nas penalidades daquela forma. Vamos retornar mais fortes no próximo ano, pode ter certeza", explica o presidente, que explicou, também, o momento financeiro do Alviverde. “A parceira com ABC e América nos ajudou muito. Metade do nosso elenco foi formado com jogadores emprestados dos dois. Sem essa ajuda, ficaria bem complicada, visto que estamos sem capital após a redução de nossas dívidas. Assim vamos indo, já saímos do fundo do poço, quando estávamos com dívidas altas. Agora estamos na boca [do poço], mas ainda sem receita para reagir com mais força”.

Concentração
Em São Gonçalo do Amarante, a cerca de 30 quilômetros da capital potiguar, está localizada a residência que serviu de concentração para os atletas e comissão técnica no dia do jogo decisão. O imóvel foi também a casa de seis jogadores do atual elenco profissional até a data da eliminação, além de morada dos jogadores do elenco sub-17 que vieram de fora de Natal até a última quinta-feira, quando o Alviverde se despediu do Estadual da categoria. Espalhados pela sala e quartos, os jogadores esperaram até às 11h - após ligeiro atraso, quando foi iniciada a preleção. Desde os mais jovens, até os mais experientes, todos ouviam atentos as palavras do analista de desempenho Victor Hugo. Em uma espécie de dossiê, o profissional destrinchou as jogadas treinadas pelos atletas por toda a semana que antecedia a decisão. Em um slideshow, o analista trazia jogadas de bolas paradas ofensivas e defensivas, movimentação transição ofensiva e detalhes sobre jogadas potenciais do adversário. Tudo estava minuciosamente disposto para estar preparado para (quase) tudo na partida mais importante do ano até aqui.

Após Victor, Hugo Chacon tomou a palavra. Aos 28 anos, esta foi a primeira oportunidade do jovem comandante como treinador de um clube profissional e o desafio de estar à frente logo de um gigante como o Alecrim não o amedrontou. “Apesar de jovem, tenho muito respeito por esse clube e pela história dele”, disse à TRIBUNA DO NORTE enquanto aguardava sua vez de almoçar. Antes disso, falou aos jogadores, de uma forma muito especial. “Foram três meses até aqui. Apesar de pequenos problemas, eu sonhei, quando assumi o Alecrim, que teria um elenco vencedor pra comandar, onde as coisas funcionavam. Hoje estamos aqui e eu vejo que tenho mais: tenho uma família. Foi muito maior que sonhei”, falou Chacon. Chamou atenção o olhar fixo de Geilson, de 36 anos, ao ver seu comandante falar.

Próximo ao almoço, foi facultada a palavra aos jogadores. Falaram, nesta ordem, o meia Ronaldo, o atacante Antônio Júnior (que o elenco chama de Toinho), o também atacante Michel (artilheiro do Alecrim no certame), o capitão Geilson e o experiente Ramon. Entre os discursos, os atletas agradeceram uns aos outros, pediram desculpas por uma ou outra situação e passaram novas orientações sobre a partida. Em seguida, a 'bóia'. Os atletas fizeram a última refeição antes da final todos reunidos. Em uma mesa grande, ao lado da sala, os jogadores se sentavam para se nutrir com a preparação da “tia”: feijão, macarrão, frango torrado, verduras e suco de goiaba.

Com já arrumado pelo roupeiro do clube, após a refeição todos embarcaram rumo ao Maria Lamas Farache. Vencendo ou perdendo, seria a última partida do plantel pela competição. Portanto, a ordem aos que residiam era levar seus pertences pessoais, o que fez com que alguns deles saíssem daquela que foi sua casa com ventiladores e mochilas com roupas do dia a dia. Em um microônibus lotado, os jogadores foram conduzidos ao Frasqueirão. Mal entraram, os jogadores já ligaram as caixas de som para ouvir músicas religiosas, de samba e pagode. Alguns falavam com familiares e amigos por whatsapp, recebendo boas vibrações daqueles que o amam. Naquele momento, tudo era válido para tirar a tensão e responsabilidade de levar o Alecrim de volta à Primeira Divisão do futebol potiguar.

Além do microônibus, outros três carros de atletas e membros da comissão técnica foram utilizados como meio de transporte até o palco da decisão. Era 13h10 quando o Alecrim chegou ao Frasqueirão. Chamou atenção que já haviam torcedores Alviverdes no entorno. Eram poucos, mas já estavam confraternizando ao ver, novamente, o clube brigando por título, mesmo que fosse de segunda divisão. O vestiário já estava pronto. Materiais dispostos, camisas alocadas só esperando os donos - pelo menos por aquela tarde - trajarem. No entanto, a primeira ação que chamou atenção foi do atacante Antônio Júnior. De pronto, pegou um banjo e começou a tocar seu samba; o meia Anthony, arrumou um tambor grande, simulando um tantan e um terceiro algum utensílio para servir de repique. Em menos de nada, o clima era de uma verdadeira festa. Os artistas eram os próprios atletas. Os que não sabiam dançar ou batucar, ajudavam na palma da mão. Energia sensacional, os jogadores nem pareciam que estavam prestes a decidirem a próxima temporada do centenário Alecrim. Após se cumprimentar e preparar para o aquecimento, uma certeza: era o momento de colocar em prática o trabalho de meses. "A gente batalhou muito pra estar aqui rapaziada. Vamos deixar (sic) tudo", Cleiton falou ao grupo, pedindo atenção e dedicação.
 
Do sorriso ao choro: O final não foi feliz pro Alviverde
A alegria dos atletas do pagode foi dando lugar à seriedade. A palavra antes do time entrar em campo foi dividida. No entanto, a que mais chamou atenção foi do capitão Geilson. Aposentado desde 2017, o defensor retornou aos gramados para, como ele bem definiu em conversa com a TRIBUNA DO NORTE, 'ajudar o Alecrim' no certame. O atleta afirmou que o sentimento de jogar no Alviverde é diferente. Algo que construiu desde as categorias de base, já que foi formado como atleta profissional no próprio clube natatense. Aos atletas, em uma vibração contagiante, esbravejou. “Quando somos pequenos, pedem que a gente se divirta jogando bola. Quando viramos adolescentes, falam em competir, que o importante é competir. Já quando somos adultos, nos dizem que o importante é ganhar. Hoje quero as três coisas. Quero que a gente vá lá pra dentro e se divirta, façamos um grande jogo e ganhemos. Vamos deixar tudo e sair com a vitória”. Na roda, espaço também para o presidente, que correu para abraçar o zagueiro após o que falou. Após os dizeres, oração. Toda força é bem vinda.

Eles nem sabiam, mas o clima do vestiário era uma espécie de extensão do que a torcida havia preparado. A maioria dos mais de 900 torcedores no Frasqueirão era alecrinense e não parava de batucar seus instrumentos. A turma mais experiente dava o tom da torcida. Mesmo ao lado dos torcedores rivais, provocações leves e clima de decisão. Com o apito inicial, aí aí que o barulho aumentou... E se engana quem só associa a torcida Verde e Branco à população mais velha. Muitos jovens engrossavam o coro e empurravam os jogadores para o título que não veio. Nem o primeiro gol, de Victor Souza, para o Força e Luz calou o batuque, mas fez com que a torcida do Clube Elétrico dividisse a predominância do coro.

Foi aí que Ronaldo apareceu. Após um excelente primeiro tempo, coube ao meia marcar, de pênalti, o gol que levou a partida para a marca da cal após os 90 minutos. No entanto, foi justamente o meia o único alecrinense a chorar antes do apito final. Aos 42 minutos, após um impedimento assinalado pelo assistente da arbitragem, Ronaldo reclamou (novamente). Pablo Ramon assinalou o segundo amarelo ao atleta, que marcou sua expulso. Aos prantos, já após o apito final, o atleta pediu a palavra na roda dos jogadores e bradou. “Por mim, moçada... vamos ganhar”, era o pedido daquele que sabia que podia contribuir.

Inconformado, Rafael não aceita ter levado o gol de Ronaldo, que levou decisão para as penalidades
Inconformado, Rafael não aceita ter levado o gol de Ronaldo, que levou decisão para as penalidades

Em roda, os dois elencos oraram por uma melhor sorte na hora das cobranças. Do lado do Alecrim, Mizael, goleiro de 19 anos, estava no centro da roda. A comissão técnica preparou qual era o lado preferido da cobrança dos principais jogadores do rival. Colinha no papel? Que nada! O braço direito do arqueiro foi utilizado como guia para os cinco saltos que daria dentro de poucos minutos. Com uma caneta esferográfica, a comissão usava o antebraço dele como um papel. A esperança é que fosse a anunciação do título tão sonhado. Daria certo? Contra Xilú sim.

O ex-jogador do Alecrim foi para a segunda penalidade do Força e Luz. Lentamente, caminhou e partiu. Foi brilhantemente impedido de comemorar pelo jovem goleiro do "Periquito". Saltou pra onde foi instrucionado. Trabalho de quatro mãos. Mizael ainda se aproximou de defender os pênaltis de Victor Souza e Capacete, mas escaparam justamente pelo capricho de seus cobradores, que colocaram divinamente a bola longe das mãos (ou luvas) do arqueiro Alviverde. Após o revés, o grito: Mizael, no gramado, não se conformava. A tristeza prevalecia. Compreensível.

Mizael saltou certo, mas Capacete caprichou mais ainda: título do Força e Luz e mais um ano na 2ª divisão para o Alecrim
Mizael saltou certo, mas Capacete caprichou mais ainda: título do Força e Luz e mais um ano na 2ª divisão para o Alecrim

Ele não era o único. Os pênaltis perdidos foram justamente pelos experientes Ramon, de malas prontas para o Sampaio Correa, e Anderson, melhor do jogo naquela tarde. Em suas últimas palavras à frente do gigante Verde e Branco, Chacon ordenou que seus comandados levantassem a cabeça. “Não quero ninguém cabisbaixo, achando que não deu o máximo. Todo mundo deu! Estou orgulhoso do que fizemos. Deus sabe de todas as coisas, não vamos desanimar”, gritou, ainda no gramado.  Não desanime, Alecrim! Um gigante não pode dormir por tanto tempo... Retornem mais fortes. Retornem mais firmes... mas retornem!


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