Viver
Salvo pela palavra
Publicado: 00:00:00 - 13/11/2010 Atualizado: 20:45:32 - 12/11/2010
Isaac Lira - repórter

Geraldo Carneiro é um homem de várias “palavras”. Na palavra-poesia, é autor conhecido, com 13 livros lançados. Mas também no teatro, cinema, televisão, música, sempre há uma palavra de Geraldo Carneiro por aí. Em contrapartida, o poeta também faz sua defesa da linguagem. No ano passado, em parceria com o também poeta Salgado Maranhão, Geraldo Carneiro lançou o  manifesto “Desmandamentos”. Na definição dos próprios: “Este manifesto se rebela contra a banalização indiscriminada da poesia e a palavra aviltada pelos demagogos, e é dedicado aos que julgam que ela não é passatempo de diletantes, mas artigo de primeira necessidade”.

Geraldo Carneiro, em foto com o ator Flávio Bauraqui, simulando a presença de Cartola, na ocasião do lançamento de Balada do Impostor, de Geraldo CarneiroNo Festival Literário da Pipa deste ano, Geraldo Carneiro divide com o escritor e amigo João Ubaldo Ribeiro uma tenda literária com o tema “Vida de escritor”, no dia 20 de novembro, às 21h30. Nesta entrevista, o multifacetado artista fala sobre literatura, televisão e rememora o manifesto lançado no ano passado. E confessa: “A palavra já me salvou diversas vezes”.

O senhor já fez parceria com João Ubaldo Ribeiro e agora está na mesma mesa que ele. Como foi essa parceria? São amigos? Como pretende abordar o tema “vida de escritor”?

É uma alegria partilhar a mesa com o João Ubaldo, tanto na arte, quanto no Baixo Leblon. Infelizmente, só o conheço há vinte anos. Como leitor, já conhecia antes, graças aos deuses da literatura. Mas, embora só tenhamos nos conhecido ao redor dos 40 e dos 50 anos de idade, creio que nos tornamos amigos de infância. Sou escritor profissional desde sempre. Minha primeira colaboração em jornal data do final dos anos 60, ainda na adolescência. Nessa época também já fazia letras de música, com diversos parceiros. Faço traduções e textos próprios, quase sempre por encomenda, para o teatro. Também por encomenda, escrevo roteiros para cinema e TV. Publiquei uns quinze ou dezesseis livros. Portanto, acho que sempre tive vida de escritor.

Poesia, televisão, música. Como transitar por áreas tão distintas?

Com naturalidade. Gosto de todas elas e creio que há vasos comunicantes, por mais estrangeiras que as linguagens se pareçam.

E em relação aos festivais literários? Muita gente reunida para falar de poesia, literatura e arte em geral. Gosta do clima? Qual o alcance da contribuição desse tipo de evento?

Gosto muito do clima. Frequento os festivais menos do que desejaria. Talvez porque esteja sempre escrevendo. No momento, por exemplo, estou traduzindo “Romeu e Julieta”, para uma montagem que estréia em janeiro. E também escrevo um roteiro de cinema que preciso entregar até o Dia de Reis. Raramente consigo sair de minha mesa de trabalho para participar dos festivais.

O que foram Os Desmandamentos? O senhor ainda concorda com eles?

Trata-se de um manifesto, que escrevi em parceria com o poeta Salgado Maranhão. Outro dia o Salgado e eu fizemos uma palestra na Casa Fernando Pessoa, em Portugal, e me deu vontade de espinafrar Os Desmandamentos. Só que, pra minha surpresa, acabei de acordo com o que tinha escrito.

Os desmandamentos falam em nada, em pulverização. Muitos associam tudo isso com uma certa característica de nossa época e outros vão ainda mais longe e falam em pós-modernidade, o que também é um termo bastante criticado. Acredita que chegamos num ponto onde a falta de referenciais nos levou a esse nada, inclusive na poesia?

Outro dia escrevi um poemeto a respeito:

a vida é veloz.
de repente, tudo que era pré
vira pós.

Lançar um manifesto já não é algo tão usual quanto o nada que os desmandamentos criticam?

Evidente que lançar um manifesto nos dias de hoje implica numa visão humorística da discussão sobre arte. Aliás, os grandes manifestos dos anos 20 não abdicaram do humor.

Quando o manifesto coloca um desmandamento dizendo para jogar no lixo todos os outros, isso não é um modo de recorrer novamente a essa estética do nada?

Acho que é um mínimo de autocrítica. Só um narcisista completo não pensa que sua obra (olha só que palavra suspeita!) pode acabar na lata de lixo da História.

Mais de um ano depois do manifesto, perceberam alguma centelha de vitalidade na poesia provocada pelo texto? Quais as reações?

Vários amigos se manifestaram favoravelmente sobre o manifesto. Entre eles, meu amigo Millôr Fernandes. Mas, como ele é humorista, pode ter sido gozação.

Vocês falam em funcionários públicos da vanguarda. A vanguarda virou uma chatice? A vanguarda encaretou?

A coisa mais chata do mundo é o camarada que faz pose de vanguarda. Mas agora que as vanguardas saíram da moda, confesso que estou escrevendo poemas, digamos, experimentais.

Existe um preconceito contra a televisão. Você considera aquilo que escreve para a TV tão arte quanto o que escreve em livro?

Federico Fellini dizia que a TV é apenas um eletrodoméstico. Mas tanto ele sabia que não é que escreveu La Dolce Vita, tendo a TV como um de seus temas. Outro italiano, Umberto Eco, divide os críticos da cultura de massa como apocalípticos ou integrados. Nunca fui uma coisa nem outra. Adoro televisão. Se não fosse a TV, eu , preguiçoso como sou, não teria tido o privilégio de conhecer Frank Capra, nem os craques do cinema americano. Graças à Sessão da Tarde da minha adolescência. Nem conheceria os filmes do underground de hoje, a que só assisto por obra e graça do DVD. Em suma, a TV é veículo para tudo, do luxo ao lixo.

Imagino que deva existir uma diferença tão grande entre escrever um roteiro e um poema que sejam atividades incomparáveis, mas o Geraldo Carneiro tem alguma preferência?

Por incrível que pareça, não. Como já disse, só escrevo roteiros por encomenda. E adoro que as pessoas me encomendem textos. Já a poesia sopra quando quer. E eu sou apenas o cavalo de santo.

A palavra pode salvar um homem?

Já me salvou diversas vezes. Tenho imensa gratidão pela linguagem. No meu último livro há um poema que termina assim:

minhas palavras nunca foram minhas
mas foram me forjando com sua força
até que me tornasse esse não-ser
feito de arquiteturas sem lugar
senão no reino-sonho que fundei.
essas palavras sopram-me presságios,
e nelas plantarei os meus naufrágios.

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