Sangue e tensão familiar em Clarisse

Publicação: 2017-02-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Em meio a filmes que concorrem ao Oscar, blockbusters e comédia nacionais midiáticas, um filme cearense mostra a resistência da produção autoral nordestina na programação de cinema de Natal. “Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois”, do diretor Petrus Cariry, entrou em cartaz no circuito comercial no dia 2 de fevereiro, mas somente ontem (16) estreou na capital potiguar. As dificuldades para um filme como esse se fazer presente nos cinemas é um reflexo do quão espremido é o mercado exibidor para produções de perfil alternativo e de baixo orçamento no Brasil.
DivulgaçãoFilme do cearense Petrus Cariry tem lugar na concorrida programação de verão nos cinemas de NatalFilme do cearense Petrus Cariry tem lugar na concorrida programação de verão nos cinemas de Natal

Para driblar a acirrada concorrência e chegar ao público, os realizadores precisam ir a campo, articulando em parcerias com os distribuidores estratégias para entrar em cartaz na maior quantidade de salas que for possível. E assim fez Petrus com “Clarisse”. O diretor fechou parceria com a jovem distribuidora cearense Celeste e juntos tem negociado diretamente com os cinemas de todo o Brasil as condições para exibição do filme – como foi feito em Natal, com o Moviecom.

Terceiro longa-metragem de Petrus, “Clarisse” encerra sua trilogia sobre a morte, iniciada com “O Grão” (2007) e “Mãe e Filha” (2011). Nessa nova produção, o diretor traça a relação de uma filha com seu pai doente, ao mesmo tempo em que a protagonista lida com lembranças do passado. Categorizado como terror, o cearense prefere não fechar seu filme em definições. “É um drama que flerta com horror psicológico. É um filme sensorial, de tensões”, diz em entrevista ao VIVER.
Rodado no município de Maranguape, região serrana do Ceará, o filme foi viabilizado com recursos do edital do Ministério da Cultura para longas de baixo orçamento e conta com equipe 80% formada por profissionais do estado. Em 2015 o longa entrou no circuito de festivais acumulando elogios e prêmios. Em 2017 é a vez de chegar ao grande público. E eis ai a árdua missão. “O cinema se completa no espectador. Não é só fazer o filme. Ainda tem a etapa da exibição, que é muito complicada e também consome muito a gente”, conta. “É uma luta de Davi contra Golias. E estamos lutando”.

Formado em análise de sistema e multimídia digital, Petrus se encontrou profissionalmente foi com o cinema. Filho do cineasta Rosemberg Cariry, o interesse pela sétima arte veio de casa, assim como a formação. Foi acompanhando o pai nos sets de filmagem, nos debates de montagem, nos lançamentos e lendo e assistindo muitos filmes que ele se formou. Hoje, aos 38 anos, três longas e vários curtas no currículo, ele mora e faz cinema no Ceará. O cineasta conversou com VIVER sobre seu filme, a dificuldade de exibi-los nos cinemas, a cena cearense de cinema, novos projetos, dentre outros assuntos.
DivulgaçãoFilme do cearense Petrus Cariry tem lugar na concorrida programação de verão nos cinemas de NatalFilme do cearense Petrus Cariry tem lugar na concorrida programação de verão nos cinemas de Natal

Clarisse fecha uma trilogia sobre a morte. De que maneira o tema é tratado no filme?
A trilogia começou com “O Grão”, onde falei da relação de um neto com a avó, que estava morrendo e lhe tentava contar uma história para que ele entendesse o fim da vida. Em “Mãe e Filha”, inverti os papéis. Falei de uma avó que recebe o neto morto para enterrar, e ela tem dificuldade de aceitação.
No caso de “Clarisse”, a morte é tratada de uma maneira mais global, é um fantasma do passado que ronda a filha que vai a procura do pai. Ela precisa lidar com a morte de um irmão na época da infância, ela tem que exorcizar esses demônios. O filme também toca em outros temas, como a relação entre pai e filha, o patriarcado do nordeste, uma filha querendo romper o machismo. É uma história mais ampla.

Como você define o filme? é terror, drama?
É um drama que flerta com horror psicológico. O horror, o suspense, são gêneros que eu acho interessante, mas não são meus preferidos. São gêneros cheios de códigos de conduta para dar certo. Então em alguns momentos da história eu os subverto. Gero espectativas e desconstruo lá na frente. É um filme de tensões. Quem embarcar na proposta sensorial do filme, entrará em suspensão sem saber o que acontecerá. O filme caminha mais por essa via.

Tem-se elogiado muito o trabalho de som do filme. Como foi feito?
É um filme sensorial via som. Fora a atuação, eu acho o trabalho de som e de fotografia fundamentais. Foram dois meses de mixagem, experimentando e criando, para gerar a atmosfera sombria que eu queria. E o som do filme busca de alguma forma contar a história. Trabalhamos com a proposta do filme ser captado pelo telespectador mesmo que ele esteja de olhos fechados, apenas ouvindo. A fotografia ficou sob meus cuidados. Gosto de ter esse controle estético. Foi uma busca incessante pela sensorialidade no filme.

Como fazer para que os filmes fora do perfil de Blockbusters e com pouco orçamento entrem em cartaz nos cinemas?
Tem muito filmes que concorrem no Oscar em cartaz, tem o carnaval, os blockbusters. O realizador fica meio que achatado no meio de tanta concorrência. É uma complicação. Esse é o meu maior lançamento. Fiz uma parceria com uma pequena distribuidora do Ceará, a Celeste. Tenho debatido e acompanhado o andamento do filme. No Rio de Janeiro tem ido bem, vai para a terceira semana. Não conheço o público cinéfilo de Natal. Estamos na expectativa de como o filme vai se desenvolver ai na cidade. Não dispomos de orçamento de marketing como os grandes filmes. É uma luta de Davi contra Golias e estamos lutando para fazer o filme chegar ao máximo possível de capitais.

Como está a produção cinematográfica no Ceará?
O cinema cearense vai bem. Há várias correntes. Tem um cinema mais autoral, que já está funcionando bem nos festivais e conseguindo reconhecimento crítico. E tem as produções mais populares, que tem se dado super bem no diálogo com o público.
A partir do investimentos da Ancine nos editais públicos, a produção no estado tem aumentado muito. A tendência é crescer mais e quem sabe se tornar um pólo como Pernambuco. O tempo vai dizer. [Em 2016 a Secretaria de Cultura do Ceará investiu R$10 milhões na cadeia audiovisual do estado. Em 2017 são R$17 milhões, sendo R$7 milhões do Secult e R$10 milhões da Ancine].

E o público, tem demonstrado mais interesse pela produção local?
O público é uma questão complexa. Os filmes dessa leva autoral estão começando a entrar em cartaz para exibição comercial agora. Então não dá ainda para ter uma leitura de como o espectador cearense reage. Os filmes de comédia estão com um público maravilhoso. Os filmes do Halder (Gomes) por exemplo, como o Shaolin do Sertão. Ele tem um público fantástico. Para você ter uma ideia, meu filme estava em duas salas, com dois horários cada, aqui em Fortaleza. O Shaolin do Sertão saiu com 20 salas em todos os horários. Cada filme tem o seu tamanho de lançamento.

Você está trabalhando em algum projeto novo?
Estou montando meu quarto filme, chamado “O Barco”. É um filme mais solar, rodado na praia. É baseado num conto do Carlos Emílio Correia Lima. Devo finalizá-lo até o final desse ano. Tenho um outro projeto, um roadie movie de ficção, “Mais Pesado Que o Céu”. O roteiro está feito e estou querendo viabilizar tentando editais. Deve sair algo diferente do que eu normalmente faço.

Serviço
Filme:
Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois
Exibições: Moviecom Praia Shopping - Sessões 15h50 e 19h50
Sinopse: Clarisse (Sabrina Greve) mora em Fortaleza , longe do pai, mas decide ir até sua casa para visitá-lo. Em contato com o pai moribundo,  ela descobre segredos da sua infância que envolve um irmão que morreu. Em um clima tenso e claustrofóbico, ela mergulha em um turbilhão emocional. (Censura 16 anos).


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