Santuário de lembranças

Publicação: 2020-05-12 00:00:00
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Valério Mesquita
Escritor

01) Macaíba é rica em figuras folclóricas. Já fiz desfilar na galeria infinda inúmeras personagens. O “gango”, por exemplo, era o famoso cabaré macaibense onde pontificou um plantel digno de fazer inveja ao técnico Tite, da atual seleção brasileira de futebol. E de lá emerge Pirôba, rapariga de longo curso e discurso intermináveis nas campanhas políticas pelas ruas e bares da vida. Nos idos de oitenta, Pirôba não perdia uma carreata. Era “valerista” de carteirinha. Numa peregrinação política motorizada (ônibus, caminhões, automóveis, etc.) Pirôba foi advertida que deveria se retirar do ônibus, pois estava reservado somente às mulheres casadas. Discriminação intolerável que Pirôba reagiu matando a pau: “E mulher casada não f... não?”. E ficou.

02) Lúcia Araújo era uma funcionária da Prefeitura de Macaíba. Amiga de infância, Lúcia, tornou-se popular na cidade por ser muito prestativa nas “outras atividades” ligadas a igreja católica, ao cartório localizado na parte baixa da cidade e a delegacia de polícia local que ficava no alto do Conjunto Alfredo Mesquita. Gostava de “advogar” problemas e queixas junto a delegacia onde desfrutava de prestigio incomum. Portava uma pasta com papeladas difusas e profusas sobre as questões da periferia macaibense. Assisti, em várias ocasiões o atendimento a sua clientela na minha casa com aquele fraseado cartorial: “O seu processo sobe hoje para a delegacia e amanhã desce para o cartório!!”, sentenciava Lúcia didaticamente. De pequena estatura, voz rouca proveniente do vício de fumar, ela tinha um apelido que detestava ouvir: “Lúcia Pitôco”. Mantinha com o desportista José Felix Barbosa uma rusga antiga e nunca curada. Um dia, foi designada a servir na secretaria de esportes, onde reinava Felix. Este ao vê-la entrar na repartição, exigiu: “Dona Lúcia, aqui está o livro de ponto”. A funcionária encrespou-se, pegou a sua pasta indefectível e arrematou à queima roupa:  “Não assino ponto que não sou de xangô, nem tenho chefe que não sou índia”. Escafedeu-se e nunca mais voltou. Lúcia politicamente sempre foi minha correligionária, a começar dos seus pais Luiz Cassimiro de Araújo e Luzanira Lima de Araújo que residiam à rua do Pernambuquinho. Criou os seus filhos e educou-os. 

Será lembrada pela maneira extrovertida de ser, fiel às amizades e as inimizades também. Um tipo popular inesquecível.

03) Maria Cabral era morena, magra, cabelos longos, vestia-se de preto em sinal de protesto pelas coisas ao seu redor que sempre reprovava. Fazia discursos intermináveis praguejando contra a ordem constitucional dos seres e costumes. Com uma rosa vermelha presa aos cabelos, caminhando sempre pelo meio da rua, dava-nos a impressão de uma “Diana” perdida ou bêbada de um pastoril imaginário. Ai de quem dissesse: “Vai trabalhar Maria Cabral”. Despachava uma verdadeira cascata de impropérios que atingia até a 3ª geração do xingador. Morreu há cerca de 50 anos e com ela os seus mistérios, pois não se vê mais dessas Marias como antigamente. 

04) Manoel Guedes da Fonseca Filho foi farmacêutico. Filho de São Paulo do Potengi, estabeleceu-se em Macaíba elegendo-se vereador várias vezes pelo seu espírito solidário e prestativo principalmente em relação aos mais pobres. “Guedinho”, como o chamavam na cidade, era dotado de permanente bom humor, brincalhão e se realizava quando o convocavam para atender um doente pobre da periferia da cidade. Como comerciante vivia em dificuldades financeiras porque não recebia dinheiro de quem não pudesse pagar o remédio. Faleceu de repente, numa manhã clara em plena farmácia, assistido pelos familiares e amigos. Guedes deixou uma imensa saudade e inúmeras histórias bem humoradas, entre elas, destaca-se a de Zé Buchudo, antológica, que vale a pena contar de novo. Zé Buchudo era um comerciante, proprietário de um pequeno açougue, nos fundos do mercado. Certa feita, numa dessas manhãs chatas da cidade, foi convidado pelo farmacêutico Manoel Guedes e patota, a empreenderem uma viagem de circunavegação pelos bares da cidade. Guedes, capitão de longo curso, dirigiu logo a nau dos insensatos à cidade de Parnamirim onde ancoraram no famoso cabaré de Tibinha. 

Desnecessário dizer das abluções profundas e repetidas ate a hora vespertina, quando pressentiram que o náufrago Zé Buchudo havia mergulhado a estibordo, em abismal sono etílico. Retornaram a Macaíba e entregaram a domicilio, em pré-coma, o que restou do nosso herói. Estirado no sofá da sala, Zé Buchudo sobreviveu a todos os exercícios de ressurreição ministrados pela esposa e filhos. Findos alguns minutos, ai então, veio a cena patética: Zé Buchudo abriu os olhos, viu de plano, a esposa inclinada sobre si, soltou a catastrófica exclamação denunciadora: “Mas, fia que é que você está fazendo aqui no Cabaré de Tibinha?” Depois dessa, Zé Buchudo era a imagem do próprio cristão trucidado.