Saudade de Deus

Publicação: 2020-02-15 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br


Créditos: DivulgaçãoCéuCéu


Há por aqui - diante da vária e feroz miséria humana - bons dizeres sobre a estupidez. Não duvido que possam existir outros, mas, os daqui, já dão paro o gasto. São temíveis os estúpidos, mas não pelo mal que possam causar com as suas riquezas - a quem Deus fez sem inveja - mas pelo desprezo que destinam aos simples. O neoliberalismo não é civilizatório, advertiu há meses Delfim Neto, e olhe que o ex-ministro nunca foi um comunista ou petista.

O mais antigo deles é ‘Ciência Natural da Estupidez’, de Paul Tabor, nascido em Budapeste, originalmente publicado em inglês e traduzido em Portugal ainda em 1963. Chega ao último instante do longo texto numa advertência: “Fim. Mas, a estupidez humana não tem fim”. Já o psicólogo norte-americano Walter Pitkin teve o cuidado de acrescentar ‘Breve introdução’ antes da “História da Estupidez Humana”, edição Prometeu, SP, 1959.

Só acrescentaria o cuidado do psicólogo da Universidade de Columbia que depois de descrever os sintomas ao longo de quatrocentas páginas, avisa, ao fechar a sua narrativa: “Podemos começar agora a história da estupidez humana”. Sem falar na contribuição da “Enciclopédia de La Estupidez”, de Matthijs van Boxsel, historiador holandês que avisou ao mundo: “Ninguém é suficientemente inteligente para compreender a sua própria estupidez”.

Em se tratando de tal infortúnio, e diante da estupidez do ministro Paulo Guedes, o que há de mais recente e melhor no campo editorial brasileiro é o lançamento, em 2016, da tradução no Brasil de um pequeno ensaio de Roberto Musil - “Sobre a Estupidez”. Ele o autor do grandioso estudo “O Homem sem Qualidades”.  Musil fez essa conferência na Áustria, em 1937. Para ele, a estupidez é um monstro, capaz de um “domínio violento e vergonhoso”. 

Há, ainda, nos alfarrábios deste pequeno claustro de livros velhos, um texto pequeno de Giancarlo Livraghi - “O Poder da Estupidez”.  O escritor italiano afirma assim, sem subterfúgios: “Uma pessoa estúpida é alguém que ocasiona dano a outra pessoa ou a outro grupo de pessoas, sem conseguir vantagem para si, ou mesmo com prejuízo”. E depois, bem no alvo, e sem negar a inteligência: “A pessoa mais perigosa que pode existir é a estúpida”.

Tudo isto tem uma só serventia, se bolsonaristas deixarem e os poderosos permitirem: chegar à reflexão de Leonardo Boff ao defender os pobres diante da prepotência humana. No seu novo livro, ‘A Saudade de Deus’, da Vozes, Petrópolis, 2020: “Procuro sempre, quase instintivamente, chegar ao coração das pessoas, para que tenham saudade de Deus”. Menos para o sr. Paulo Guedes, no qual a matéria vence o espírito no seu coração blindado a níquel.

TOQUE - Pio Morquecho quebra a mesmice do cardápio do Nemésio e mantém, às quintas-feiras, carapebas fritas, num verdadeiro toque de mestre. De velha e boa tradição doméstica.

AVISO - Um leitor lembra ao colunista: em 2020 apenas uma vaga de senador vai ser aberta. Não será fácil.  Foi da hoje governadora Fátima Bezerra e está ocupada por Jean-Paul Prates. 

CAMINHO - Na visão do leitor, é a alternativa natural para o ministro Rogério Marinho se não colidir com deputado Ezequiel Ferreira. “Ora, - diz ele - dois tucanos nunca se bicam”.

JOÃO - A Companhia Editora de Pernambuco lança até final de abril a grande fotobiografia do poeta João Cabral de Melo Neto. Nas comemorações oficiais dos 100 anos (1920-2020).

EXPO - A exposição Vida e Obra de Câmara Cascudo que pegou fogo no incêndio do Museu da Língua Portuguesa, lá São Paulo, será remontada permanentemente no memorial de LCC.  

PERFIL - A Câmara Federal solicitou de Diógenes da Cunha Lima uma atualização, se julgar necessária, do perfil que escreveu sobre Djalma Marinho e esgotado na sua segunda edição.

REVISÃO - O poeta de Nova Cruz já trabalha na atualização do texto da terceira, e manterá o prefácio de Afonso Arinos. Quer contar novas histórias na edição que, agora, será definitiva.

LUTA - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, com os olhos pousados na beleza sensual de uma amiga apaixonada pelo jovem namorado: “Sua fidelidade proíbe os desejos”.

ACERVO - Um programa editorial em regime de coedição unindo a Assembleia Legislativa e a Fundação José Augusto vai devolver aos olhos dos leitores quinze títulos considerados clássicos na bibliografia norte-rio-grandense. Raros e esgotados, de autores desaparecidos.

CINQUENTA - Crispiniano Neto, presidente da Fundação José Augusto, na luta para poder reabrir a Biblioteca Câmara Cascudo, neste 2020, nos cinquenta anos de sua inauguração. O que acaba sendo uma homenagem, também a Zila Mamede que foi sua grande ex-diretora.

GÁLIA - Os gauleses, num preito de saudade, vão sair no final da tarde de hoje, da calçada do 294, na Deodoro, no rumo do largo do Atheneu, em plena tarde. No passo do frevo e sem medo que o sol caia sobre eles. E pedem se podem pedir: cada um deixe sua tristeza em casa.







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