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Rubens Lemos Filho
Scala e João Saldanha
Publicado: 00:00:00 - 15/05/2022 Atualizado: 12:10:32 - 14/05/2022
Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Rio de Janeiro, 5 de fevereiro de 1969. Os 22 convocados pelo improvável técnico da seleção brasileira, jornalista João Jobim Saldanha, se apresentam na Confederação Brasileira de Desportos (CBD). Entre eles, um zagueiro esguio, porte majestoso, elegante, vindo dos pampas gaúchos. Luiz Carlos Scala Loureiro, do Internacional de Porto Alegre (RS).
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Scala, uma das Feras do Saldanha, como ficaram conhecidos os craques das Eliminatórias para a Copa do México, o brinde para a consagração do tricampeonato no México no ano seguinte. Foram 5 vitórias em 5 jogos fantásticos. Gols marcados: 23. Sofridos: dois.

O Brasil reencontrava a arte conjugada à autoestima. Recuperava o orgulho perdido no fracasso da Copa da Inglaterra em 1966, eliminado na primeira fase em vergonhosa campanha. 

“O homem é a maior fera que existe dentro de si mesmo. Provocado, transforma-se, multiplica-se. Não terei um time de damas, terei feras jogando o verdadeiro futebol brasileiro.” Depoimento de João Saldanha tão logo aceitou o improvável convite, ele comunista autêntico, atuante e inimigo do regime vigente e furioso. 

Discutia táticas, conversava com seus jogadores, conhecia o futebol nos subterrâneos, na alma das expressões dos torcedores de rádio ao pé do ouvido, escutando seus comentários geniais.

Contra a Venezuela, num dos jogos das Eliminatórias, impediu o time de voltar ao vestiário para o segundo tempo. Seu líder, o meia Gerson, costuma explicar em entrevistas, soltando gargalhadas:

- Ele estava na porta do vestiário e nós vínhamos imundos, campo cheio de lama. Ele berrou com a gente. Voltem para o campo seus rebolados. O que é que eu vou dizer no Brasil se vocês empatarem contra um time formado por carteiros, padeiros, pobres amadores. Voltem ao campo e tragam a vitória.

Segundo Gerson, Saldanha arremessou fora a chave do vestiário.  O Brasil voltou, deu um show, fez 5x0 e os jogadores o encontraram sozinho, como de costume:

- E aí chefe? Tudo certo?
- Tudo certo. Na próxima, corto todos, menos o Crioulo(Pelé), que é fora de concurso  e mando de volta de ônibus.
E disparou na gargalhada.

Saldanha conseguiu democratizar o ambiente e se tornar na figura mais respeitada do futebol depois de Pelé. Uma pesquisa de credibilidade o colocou com 89% de aceitação popular e ele foi convidado para fazer comercial da loteria esportiva.

- Não vou. Isto cheira a trapaça. O Governo arrecada um prêmio enorme e o ganhador uma ninharia diante do volume das apostas. Para onde vai a grana? Muito estranho. João  Saldanha enxergava longe e falava alto. 

Tiraram João Saldanha da seleção brasileira. Ele estava incomodando. O presidente-ditador Médici mandou convocar o desengonçado centroavante Dario, do Atlético Mineiro:?João Sem-Medo devolveu:

O presidente escala o ministério e eu escalo a seleção.
Sufocado por uma teia de mentiras e conspirações, João Saldanha caiu.

Caiu atirando. Um dos motivos foi o corte de Scala, pelo médico Lídio Toledo, por alegada contusão no joelho. João Saldanha morreu sem acreditar em Lídio Toledo, que cortou também Toninho Guerreiro e abriu a conveniente brecha para Zagallo obediente substituto de Saldanha, chamar Dario.

Scala ainda jogaria no Inter, no Botafogo(RJ) com Marinho Chagas, orgulho maior do berçário potiguar em quatro linhas,  e selaria seu destino noutro Rio Grande extremo.?Veio para o América de Natal em 1973 para o Campeonato Brasileiro, ergueu a Taça Almir pela melhor campanha entre os clubes do Norte e Nordeste.Foi campeão potiguar em 1974, técnico de futebol e comentarista esportivo.?Morreu em Natal a 5 de setembro de 2007 de pneumonia em consequência do Alzheimer. 

PS. Os convocados por Saldanha: Goleiros: Félix(Fluminense) e Cláudio(Santos);Laterais: Carlos Alberto Torres( Santos), Zé Maria( Portuguesa), Rildo( Santos) e Everaldo(Grêmio);Zagueiros: Djalma Dias( Atlético/MG), Scala(Internacional/RS), Brito(Vasco)e Joel Camargo(Santos);Volantes: Piazza(Cruzeiro) e Clodoaldo( Santos);Meias: Gerson(Botafogo), Rivelino(Corinthians), Pelé(Santos) e Dirceu Lopes(Cruzeiro); Pontas: Jairzinho(Botafogo) e Paulo Borges(Corinthians) pela direita; Edu(Santos) e Paulo César Caju( Botafogo) pela esquerda; Centroavantes: Tostão(Cruzeiro) e Toninho Guerreiro(Santos). 

Reação 
O domingo deve ser encarado como o Dia da Reação para o América. Inegociável uma vitória convincente sobre o Globo em Ceará-Mirim. O Globo é um dos lanternas. Está aos pedaços. O América pode arrebentar para decolar na Série D. 

Hoje 
Com seis pontos, no mínimo o América não perde a sexta colocação em oito participantes. Ganhando, o América retoma a briga entre os cabeças. 

Dica 
Aproximar meio-campo do ataque do América. 

Há 50 anos 
Pelo estadual de 1972, o ABC goleava o Riachuelo por 3x0 no Estádio Juvenal Lamartine com 2.977 torcedores. Gols de Alberi, Jailson e Josenildo. Arbitragem de Nelson Luzia, Guaracy Picado e José Ubirajara nas bandeirinhas. 

Times 
O ABC do técnico Wallace Costa: Erivan; Preta, Edson, Josemar e Anchieta; William e Odisser; Zé Maria(Soares), Jailson, Alberi e Josenildo. O Riachuelo do técnico Pedrinho Teixeira, o Pedrinho de 40, formou com Floriano; Dandão, Lolô, Ivan Matos e Cidão; Arandir(Humberto) e Pompila(Moacir); Hélio, Adeíldo, Galdino e Marconi.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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