O presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo, afirma que se o prefeito de Natal, Álvaro Dias, decidir concorrer ao Governo do Estado no próximo ano, estará entre as prioridades do partido. “Se Álvaro vier a tomar essa decisão na construção do ambiente local, no diálogo com os parceiros de outras lutas eleitorais no Rio Grande do Norte, será prioridade nacional do PSDB”, destacou.
Presidente Nacional do PSDB, Bruno Araújo
Bruno Araújo, que foi deputado federal por três mandatos e ministro das Cidades no governo Michel Temer, está confiante de que o escolhido nas prévias de novembro do PSDB para se candidatar a presidente vai ao segundo turno.
Qual a análise do senhor sobre a reportagem do jornal O Estado de SP, que apontou uma suposta ameaça do ministro da Defesa com relação às eleições?
Só o fato de especular sobre o tema, não faz bem à democracia brasileira. Mas a democracia no Brasil está amadurecida o suficiente para passar muito longe de qualquer ruptura. Prefiro ficar, no momento, com os desmentidos do ministro da Defesa e do presidente da Câmara. Mas, sempre e extremamente, vigilante. A democracia do país não admite nem especulação sobre o tema.
Se houvesse seria muito grave...
Poucas vezes amanheci tão preocupado, quanto fiquei com a manchete trazida na quinta-feira (23) pelo jornal O Estado de SP. Chegamos a ficar perto de um lançamento de uma nota, até haver o primeiro desmentido do ministro da Defesa e do presidente da Câmara. Só estarmos sujeitos a passarmos um dia com uma especulação como essa faz com que estejamos em vigilância constante. Algo é certo: O PSDB e todas as instituições brasileiras estarão no firme propósito de garantir a posse do próximo presidente da República, eleito em um processo legal e limpo, como acreditamos que são as eleições brasileiras desde a redemocratização.
O ministro da Defesa negou. O jornal manteve. O senhor, presidente de um partido que tem uma presença na vida política nacional, tem informação sobre o que realmente aconteceu?
Essa é a pergunta de um milhão de dólares. A especulação passa sempre por “alguém ouvindo dizer de alguém”. É preciso manter a vigilância, mas não há sobressalto em relação à força das instituições brasileiras. A própria liberdade de imprensa está em vigor e isso garante uma proteção contra qualquer risco de ruptura.
A suposta ameaça teria envolvido a defesa da proposta para impressão do voto. Como o senhor vê essa proposta? O PSDB já pediu auditoria de uma eleição, em 2014, quando Aécio Neves perdeu para Dilma Rousseff...
Naquele momento, o PSDB solicitou uma auditoria, que foi autorizada pelo Tribunal Superior Eleitoral. O PSDB contratou uma empresa, que apresentou um relatório. O TSE publicou, desde então, uma série de resoluções e disciplinamentos que atenderam as preocupações do PSDB. O relatório contribuiu para o Tribunal Superior Eleitoral sanar possíveis dúvidas técnicas. E o PSDB ficou satisfeito com os procedimentos adotados. Isso dá segurança no atual modelo. Nada impede que o Tribunal e a sociedade estejam sempre em busca de atualização e aperfeiçoamento. Não pode, não é salutar, nem podemos compactuar com a seguinte afirmação: “Vamos pensar em outro modelo, porque as eleições foram fraudadas”. A premissa trazida pelo presidente no sentido de querer novo elemento no processo de votação não permite dar sequência à discussão. Precisa haver um reconhecimento coletivo dos resultados eleitorais. Isso faz bem à democracia. Sempre precisa buscar o aprimoramento. Mas o Brasil talvez seja a única grande democracia do mundo na qual o vitorioso contesta o resultado. Isso torna o país com peculiaridades. O PSDB pode participar de qualquer processo que possa inovar e garantir mais segurança ao processo eleitoral, mas não se houver a premissa estabelecida pelo presidente da República de que precisa avançar, porque o processo eleitoral foi fraudado. Mas vamos aguardar, porque o presidente prometeu provar que as eleições foram fraudadas. Ou o presidente será desmoralizado e ficará passível de ser responsabilizado por suas afirmações, ou demonstrará que há falhas e geraria uma crise grave. Então, o país espera as cenas dos próximos capítulos.
Mas qual a posição do PSDB sobre o voto impresso?
O voto é auditável. Nós compramos nos cartões de crédito e débito. Ninguém precisa pedir a impressão da máquina para que seja auditável. A impressão não garante ser auditável. Se o voto estiver fraudado, a impressão vai ser fraudada. O PSDB não tem problema em discutir aperfeiçoamento. Não vai votar agora favorável ao voto impresso pelo motivo de que a premissa está errada e de que a solução tecnológica, como mostraram testes quando foi utilizado, é eficaz.
O presidente Jair Bolsonaro anunciou mudanças no ministério, com o senador Ciro Nogueira (PP) assumindo a Casa Civil. Com avalia as alterações?
É um governo que “morre pela boca”. Quem assistiu à convenção de Jair Bolsonaro viu o que o general Heleno afirmava do Centrão. Mas o governo foi capturado pela realidade da coalizão. Não houve, no processo eleitoral de forma clara, a afirmação de que, sem uma reforma política, não se consegue governar sem construir uma coalizão. Vendeu-se como algo que jamais o governo faria. Mas agora esses episódios complementam que o presidente Bolsonaro pratica o movimento clássico que o eleitor brasileiro critica. Pratica algo completamente diferente do discurso.
Entrevistamos recentemente o governador Eduardo Leite (Rio Grande do Sul),que afirmou haver elementos para abrir um processo de impeachment contra o presidente. Como o senhor vê essa questão?
Os elementos para um processo de impeachment... Tivemos dois no país em trinta anos. Fui protagonista de um.
O senhor deu o voto decisivo para o impeachment de Dilma Rousseff...
Além do voto decisivo... O livro de Eduardo Cunho abre inclusive narrando a nossa participação. Fomos um dos protagonistas da articulação política. E de forma legítima como um dos deputados que sempre fez oposição ao PT. Com autoridade de quem acompanhou de perto, nos bastidores, com articulações [o processo de impeachment de Dilma], podemos analisar que isso não se dá apenas com o crime de responsabilidade. Precisa ter elementos políticos. O primeiro é a falta de apoio no Congresso Nacional do presidente da República. E o presidente Bolsonaro tem apoio no Congresso Nacional que não permite que caminhe qualquer tipo de pedido de impeachment de forma mais eficiente. Outro elemento é povo na rua. E não há, por motivos da pandemia e porque uma parte da população não tem o menor apetite político de se juntar com o PT e com partidos mais à esquerda que estão neste movimento. O presidenta da República, apesar das críticas que a sociedade faz, mantém uma base de apoio no Congresso Nacional. Em tese, aguarda-se um relatório de uma CPI que pode ir até setembro, outubro ou novembro. Logo depois, vem o recesso parlamentar. Eventual processo de impeachment, se for aberto, ainda que sem povo na rua, levaria seis a sete meses. Ainda valeria a pena tirar o presidente da República a sessenta dias da eleição? Isso faria bem à democracia? Ajudaria a tirar o país da crise provocada pela pandemia? Contribuiria no combate à desigualdade social, para a volta dos empregos? Então, o PSDB não é contra o impeachment, mas os elementos necessários para isso se processar de forma efetiva, que não seja só discurso para a plateia, estão longe da realidade.