Seca destrói bases da agropecuária no RN

Publicação: 2012-10-21 00:00:00 | Comentários: 0
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Margareth Grilo - Repórter especial

No semiárido potiguar, a seca está destruindo as bases da agropecuária. Os reservatórios estão saturados e o manancial de água disponível é insuficiente. Sem pasto, os registros de morte do gado bovino aumentaram e houve redução na oferta de emprego. Este é o cenário no sertã - ainda mais devastador do que há quatro meses quando a TRIBUNA DO NORTE publicou a série de reportagens “Caminhos da Seca”, depois de percorrer 12 municípios do RN. Nos últimos quatro meses, dirigentes, tanto da Federação da Agricultura do Rio Grande do Norte (Faern) quanto da Associação Norte-Riograndense de Criadores (Anorc) viajaram pelo sertão, ouvindo depoimentos e colhendo dados nos municípios mais afetados pela seca. Além de relatos  desoladores, localizaram cemitérios de animais; constataram a grave escassez de água e ouviram reclamações de que a lentidão das ações governamentais matam a pecuária, uma atividade econômica pioneira, que envolve diretamente mais de 120 mil pessoas. Em meio à caatinga, os criadores e agricultores reclamam de problemas na oferta de água, com colapso, inclusive, na zona urbana de alguns municípios; escassez de alimento para os rebanhos e da burocracia na liberação do crédito rural emergencial. No Estado, 138 municípios estão em estado de emergência, decretado em abril deste ano, e prorrogado por mais 180 dias, no último dia 10.
Júnior SantosEste ano, 1.600 postos de trabalho foram fechados na zona rural do RNEste ano, 1.600 postos de trabalho foram fechados na zona rural do RN


Empregos: 1.609 vagas fechadas no campo


A redução da produtividade é uma realidade em todos os municípios percorridos pela Anorc e Faern, nos últimos meses. Em setembro, os dirigentes da Anorc, por exemplo, fizeram um trajeto de Lajes a Caicó e identificaram, ouvindo as associações e pecuaristas, que a produção de leite deverá cair entre 30% e 60%, até o final do ano. Essa retração já produziu efeitos negativos no mapa do emprego, no sertão potiguar. Entre janeiro e julho deste ano, 1.609 postos de trabalho foram fechados no RN. Isso somente, na agropecuária.
Júnior SantosEm muitos municípios do Rio Grande do Norte, moradores - especialmente os da zona rural - enfrentam dificuldades para encontrar água nos reservatóriosEm muitos municípios do Rio Grande do Norte, moradores - especialmente os da zona rural - enfrentam dificuldades para encontrar água nos reservatórios

Os dados são do Caged – Cadastro Geral de Empregados e Desempregados. O mapa da evolução do emprego mostra que, na atividade agropecuária, há um grande descompasso: no ano, o setor contratou 4.357 pessoas e demitiu 5.966 – uma retração de 10,95%, em relação a dezembro de 2011. “O setor está mais pobre, está demitindo e não pode contratar no mesmo ritmo”, afirmou o presidente da Faern, José Álvares Vieira.

A produtividade da Associação dos Pequenos Agropecuaristas do Sertão de Angicos (Apasa) caiu significativamente. Dados repassados à Anorc mostram que o número de fornecedores de leite caiu de 961, em 31 de dezembro de 2011, para 350, no mês passado. Em Caicó, uma das queijeiras recebia 2.300 litros de leite em dezembro do ano passado e agora está recebendo 750 litros. Com menos produção, há redução de postos de trabalho.

Segundo a Anorc, a Apasa não chegou a apresentar um número de demissões. No Rio Grandfe do Norte, de acordo com o Censo 2010, do IBGE, existem 26 mil fazendas produtoras de leite de gado no Estado e outras 700 que produzem leite de cabra.  “A Apasa tem um trabalho muito bem feito de agregar os produtores, mas devido a ação da seca boa parte deles não produz mais”, afirmou o presidente da Anorc, José Teixeira Júnior.

Dados da Secretária Estadual de Agricultura apontam para uma queda no Produtor Interno Bruto do RN, este ano, entre R$ 2,5 a R$ 3,5 bilhões. Hoje, 70% da população rural do Estado foram atingidos pela seca. Em junho, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) divulgou o nono levantamento da safra de grãos 2011/12 apontando que a estiagem castigou a produção em geral no Brasil, com queda de 20,2% em relação à safra passada - de 3,2 milhões de toneladas de produtos, basicamente milho e feijão.

No semiárido, a forte estiagem registrada causou perdas expressivas na pecuária e na agricultura, em torno de 80%. As culturas de feijão e de milho se estão mais presentes nas mesorregiões Litoral Leste e Agreste do Estado. No RN, a redução ficou em 89,6% para o feijão e 91,9% para o milho. No Ceará, houve queda de 84,7% e de 87%, respectivamente.

Prognósticos para 2013 são precipitados

Os meteorologistas da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte (Emparn) ainda estão cautelosos em emitir prognósticos climáticos para 2013. Por enquanto, segundo o Gerente de Meteorologia da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte (EMPARN), Gilmar Bristot, não se pode dizer se o próximo ano, no semiárido potiguar, vai ser seco ou chuvoso.
Júnior SantosNo semiárido, a forte estiagem registrada causou perdas expressivas na pecuária e na agricultura, em torno de 80%No semiárido, a forte estiagem registrada causou perdas expressivas na pecuária e na agricultura, em torno de 80%

A maior parte dos projetos é focado na estrutura hídrica.  “O que se quer é dar uma garantia futura de sustentabilidade e amenizar os efeitos da estiagem”, afirmou Ivanaldo Pessoa. O teto de crédito, por produtor, é de R$ 12 mil. O coordenador de Crédito Rural adiantou que esta semana  equipes da Emater farão visitas às agências do BNB em Assu, Angicos e Mossoró para checar o andamento e a operacionalização do crédito. Esse crédito é dirigido aos pronafianos.

A expectativa da Emater era a demora entre a elaboração do projeto até a liberação do crédito fosse de, no máximo, 20 dias. Mas,  algumas propostas estão demorando até dois meses para a liberação. Segundo ele, as visitar vão ajudar a levantar o número de propostas aprovados e com crédito liberado, ou prestes a liberar. Este ano, já houve ampliação na estrutura hídrica das propriedades, com a construção de 482 barragens subterrâneas.

A projeção da Emater e Secretaria Estadual de Recursos Hídricos (Semarh) é de construir outras 2 mil no semiárido. O titular da Semarh, Gilberto Jales, disse que as ações estão avançando, mas que “por outro lado, a gravidade da seca também tem aumentado”. Ele disse que, nessa questão hídrica, o governo tem trabalho em duas frentes – a conclusão das adutoras (Alto Oeste, Brejinho e Carnaúba dos Dantas) e a instalação de poços.

Este ano, foram colocados em operação 50 poços e a previsão é de que mais 180 sejam instalados.  No caso da Adutora Alto Oeste, 80% das obras estão concluídas. “Em alguns pontos falta o serviço especializado de automação e na hora em que ficar pronto nós interligamos os municípios”, disse Jales. A previsão é de que o primeiro trecho comece a operar em  45 dias, beneficiando, Luís Gomes, e o segundo em 60 dias. Com 300 km de extensão, a adutora atenderá 23 municípios.

Governo anuncia distribuição de volumoso

Segundo o diretor geral da Emater, Ronaldo Cruz, ainda esta semana, o governo quer iniciar a distribuição gratuita de volumoso para pequenos criadores. Ronaldo Cruz adiantou que o processo de aquisição  já está pronto. “O extrato do contrato deve ser publicado nesse início de semana e a partir dai o produto começa a ser distribuído”, prometeu o dirigente.

No semiárido potiguar, o volume será distribuído para  3.294 criadores, dos 139 municípios em estado de emergência, a partir de 18 pontos de armazenamento. Segundo Cruz, a logística de distribuição está sendo montada de forma que o criador não se desloque mais de 50 quilômetros da sede do município onde reside.

Ele explicou que o beneficiado o criado de até dez cabeças. Se houver sobra o benefício será estendido aos que têm até 35 cabelas, incluindo caprinos e ovinos. Foram adquiridas 7,8 mil toneladas. Os recursos para a compra, da ordem de R$ 2,6 milhões, são do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Em meio à grave estiagem, o Idiarn (Instituto de Defesa Agropecuária do RN) começa o inquérito soroepidemiológico, pesquisa que pode elevar o Estado ao status de ‘zona livre de aftosa, com vacinação’. O inquérito termina em março/2013 e o resultado deve sair até junho. No RN, segundo a diretora geral do Idiarn, Fabiana Lo Tierzo, 165 propriedades foram selecionadas, entre médios e grandes produtores e assentamentos.

Segundo ela, nos assentamentos que estiverem na rota da seca, os criadores terão um incentivo na ração animal – serão incluídos no programa de doação de volumoso. Amanhã, 22, as equipes do Idiarn começaram a notificar os criadores – trabalho que vai até 31 de outubro. Serão acompanhados os animais na faixa etária de 6 a 24 meses. No dia 1º de novembro a segunda etapa da campanha de vacinação contra a febre aftosa.

Segundo o Idiarn o rebanho bovino do RN é de 1,092 milhão de cabeças. Fabiana disse que, somente ao final da segunda etapa da vacinação, será possível apontar a redução do rebanho, em virtude da seca.

Rebanho potiguar está comprometido

No sertão potiguar, os cemitérios de animais e os currais de bezerros órfãos é cena comum. Em algumas das fazendas visitadas, de Lajes à Caicó, segundo o presidente da Anorc, Júnior Teixeira, os relatos eram de que a sustentação do gado está, cada dia, mais difícil. “Em regiões que tradicionalmente chove muito, esse ano, tem propriedades que choveu em torno de 100 mm, então a capacidade para segurar o gado é muito difícil”, disse ele.
Júnior SantosO rebanho está sendo duramente atingido pelos efeitos da secaO rebanho está sendo duramente atingido pelos efeitos da seca

Segundo relato do 2º diretor técnico da Anorc, o agropecuarista Roosevelt José Meira Garcia, a situação é desoladora. “Numa fazenda, encontramos anotação de 200 animais mortos”, relatou o diretor da Anorc. Há, segundo ele, uma destruição do patrimônio rural, e “não se tem solução para amenizar os efeitos da seca”. Roosevelt Garcia critica o fato de a seca não está na pauta do governo federal, nem ser uma preocupação da classe política.

“A seca e a morte do rebanho não faziam parte do discurso dos candidatos à prefeitos nestas eleições. A classe política andou pela seca, durante a campanha, subiu e desceu os palanques e não viu a destruição desse patrimônio, que envolve tantas pessoas”, afirmou o pecuarista. Com base em dados apurados até agora pela entidade, Roosevelt Garcia disse que  a atividade leiteira no Estado deve estar reduzida a dois terços.

“O crédito não chega, a água não chega, o milho não chega. Como isso não chega, o gado morre. Os rebanhos vivos estão magérrimos, porque o volumoso é o xiquexique”, afirmou Roosevelt. A expectativa dos pecuaristas é de que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) regularize  a oferta de milho para uso de alimentação animal. Até a quinta-feira, 25, o estoque da Conab era de 2.160 toneladas (6,3% da capacidade total de armazenamento da Conab).

Em Lajes, região das mais afetadas pela seca e onde o xiquexique é volumoso oferecido ao gado, o armazém tem o mais baixo estoque, entre as nove unidade. Lá estão estocados apenas 3.141 quilos de milho.  Em entrevista  à TRIBUNA DO NORTE, o superintendente regional da Conab/RN, João Lúcio da Silva, garantiu que, até dezembro, o Estado receberá 64 mil toneladas de milho para abastecer os nove armazéns da Companhia. Esse volume, seguindo João Lúcio, será suficiente até março de 2013.
João  Lúcio explicou que das 64 mil toneladas previstas para o RN até dezembro, 24 mil toneladas já começaram a ser embarcadas no último dia 16/10 e a previsão é de cheguem à Conab no início desta semana. “Com a chegada desse milho regularizamos a venda em meados de novembro”, garantiu. Ele disse que as filas, que estavam sendo constantes nos armazéns, já foram reduzidas com a venda por agendamento.

O superintendente adiantou que o leilão de frete para transporte das outras 40 mil toneladas ainda seriam leiloadas, o maior deles – para mais de 30 mil toneladas -  estava previsto para acontecer na sexta-feira, 19. Um outro leilão de frete está previsto para dezembro. Devido à escassez do milho, a venda está limitada a 50% da cota a que cada produtor tem direito, com um teto de 3 mil quilos, por criador.

Em condições normais, a Conab chega a vender até 10 mil toneladas por mês em todo o Estado. De acordo com a portaria 601 os preços foram reduzidos. Para os que adquirem de 60 a 3 mil quilos, o quilo custa R$ 18,13%. De 3.001 a 7.000 quilos, R$ 21,00 e de 7.001 quilos a 14.000 quilos, R$ 24,60.



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