Seca e desabastecimento

Publicação: 2014-02-23 00:00:00 | Comentários: 0
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ponto contraponto

Em reunião ocorrida na última sexta-feira em Natal, meteorologistas do Nordeste confirmaram que as chuvas dos próximos três meses serão normais para o período. A previsão anima, mas não afasta a preocupação com o desabastecimento de água que, não só vem comprometendo toda a agroindústria e agricultura familiar do RN, mas a qualidade de vida da população (já são 20 municípios com colapso no abastecimento e outros oito na iminência). A TRIBUNA DO NORTE convidou Leonardo Rego (Secretário de Recursos Hídricos do RN) e José Vieira (Presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do RN) para argumentarem sobre os problemas e perspectivas do cenário da atual estiagem que tem como principal agravante a diminuição das reservas de água no Estado. “O empobrecimento das cidades e a falta de perspectivas, aliadas à falta de planejamento e de uma política verdadeira de convivência com esse fenômeno, projeta para a economia do RN um futuro incerto”, analisa José Vieira. Já o secretário Leonardo Rego lembra: “O Governo do Estado está fazendo a sua parte”, e conclui: “Entendendo que dentro do ciclo hidrológico, há um momento em que nada substitui a chuva”. Eis os artigos na íntegra:

É triste. Mas é real e verdadeiro
José Vieira
Presidente da FAERN - Federação da Agricultura e Pecuária do RN
Rodrigo Sena/Arquivo TNO RN, infelizmente, não mostrou até agora caminhos concretos para a convivência produtiva com a seca. Precisamos de obras estruturantes que atendam, de forma emergencial e permanente, esse grave problemaO RN, infelizmente, não mostrou até agora caminhos concretos para a convivência produtiva com a seca. Precisamos de obras estruturantes que atendam, de forma emergencial e permanente, esse grave problema

A falta de chuvas nos últimos dois anos tem provocado uma situação insustentável para o homem do campo com consequências trágicas para as atividades do  agronegócio, como a pecuária, a agricultura e a agricultura familiar.

O empobrecimento das cidades e a falta de perspectivas, aliadas a falta de planejamento e de uma política verdadeira de convivência com esse fenômeno, projeta para a economia do Rio Grande do Norte um futuro incerto.

Não se trata de traçar um quadro alarmista nem muito menos negativista. Mas, infelizmente, essa é a realidade que não se pode esconder nem dá mais para dela fugir. Vimos alertando os governos estadual e federal sobre esse problema já há algum tempo.

Hoje, vemos esse quadro se agravar com a redução significativa dos volumes de água em praticamente todas as nossas bacias hídricas. Uma situação lamentável, pois mesmo com chuvas que caiam esse ano, não veremos resolvidos os problemas dos produtores rurais; e ainda temos o agravante de desabastecimento de água para o consumo humano.

O Rio Grande do Norte possui 6 bacias  hídricas com 46 reservatórios que comportam mais de 5.000.000 m³. Juntas, somam 4.411.787.259 m³ de capacidade de armazenamento. Atualmente, segundo dados da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do último dia 19, o volume total existente nesses reservatórios é de 1.447.854.695 m³. O equivalente, em termos percentuais a 32,82% do volume total de água existente. A barragem de Pau dos Ferros tem apenas 5% de água acumulada. Uma realidade que expõe o risco iminente de colapso que poderemos enfrentar no estado.  Situação alarmante que exige mais ações concretas e menos discursos.

Uma redenção seria a transposição do São Francisco que muitos reclamam do atraso nas obras. Mas é preciso ressaltar que aqui, até o momento, nada foi feito para tornar realidade à chegada dessas abençoadas águas. O Ceará, por exemplo, já licitou o anel das águas. Um conjunto de obras que fará a interligação das bacias hídricas permitindo a perenização dos rios e o abastecimento das comunidades daquele estado.

Se as águas da transposição chegassem hoje ao RN, elas apenas abasteceriam as bacias previstas e seriam jogadas ao mar. Faltam os projetos para interligar as nossas bacias. Isto é, nos falta a transposição estadual dessas águas. Essa é outra triste e dura realidade.

O RN, infelizmente, não mostrou até agora caminhos concretos para a convivência produtiva com a seca. Precisamos de obras estruturantes que atendam, de forma emergencial e permanente, esse grave problema. O governo precisa priorizar a instalação dos poços profundos que já estão perfurados. Recursos para isso existem.

 É preciso estabelecer pleitos estratégicos e não políticos. Ao falar em pleitos estratégicos, me refiro a necessidade de colocar em funcionamento poços que atendam a população das regiões mais afetadas otimizando a operação carro pipa por exemplo. Reduzir cada vez mais a distancia da origem da água para as cidades.

Se as chuvas em 2014 forem abaixo da média histórica, lamentavelmente assistiremos a um colapso do agronegócio potiguar. E o pior, enfrentaremos riscos concretos de assistir ao aumento dos índices alarmantes da violência e do desequilíbrio social.

Essa é uma realidade que me dói profundamente relatar nesse artigo. Precisamos manter acesa a nossa fé em Deus, mas precisamos também acreditar na sensibilidade e no compromisso dos nossos homens públicos. O flagelo da seca não pode mais ser tratado apenas com discursos, mas sim com AÇÃO. É isso que esperamos. É nisso que acreditamos.

Trabalho focado no enfrentamento e convivência com a Seca
Leonardo Rego
Secretário da SEMARH
Magnus Nascimento“O Governo do Estado está fazendo a sua parte. Entendendo que dentro do ciclo hidrológico, há um momento em que nada substitui a chuva”“O Governo do Estado está fazendo a sua parte. Entendendo que dentro do ciclo hidrológico, há um momento em que nada substitui a chuva”

A relação do homem com a seca é secular, comove e faz com que qualquer pessoa de bom coração entenda e se sensibilize com o sofrimento do povo do semiárido. Vivenciar a maior seca dos últimos cem anos, observar cenas tristes e escutar diversas histórias daqueles que lutam para viver e sobreviver com as graves consequências da seca, nos faz reunir forças para trabalhar por melhores condições para a convivência com as adversidades da falta de água. Durante oito anos estive como prefeito de Pau dos Ferros, onde adquiri experiência na Gestão Pública. Hoje na Semarh, eu e minha equipe, lutamos para reverter os efeitos da seca, contribuindo com as ações do Governo estadual em conjunto com os municípios atingidos e demais entes governamentais. Assumir a Semarh, em março do ano passado, foi um grande desafio. Estávamos diante do segundo decreto de situação de emergência em 144 municípios. Era necessário, naquele momento, muito foco e tomada de decisões enérgicas para tentar amenizar um pouco os efeitos da falta de água nas regiões castigadas. O Governo Rosalba está sendo exercido, praticamente todo ele, neste cenário. Vale ressaltar, também por dever de justiça, que a intenção da governadora é e sempre foi dotar o RN de obras estruturantes e perenes capazes de melhorar a convivência com esta seca e com outras que por certo virão. Uma das primeiras iniciativas no novo cargo foi formalizar termos de cooperação técnica entre a Semarh e entidades representativas das prefeituras das regiões do Seridó, Oeste e Agreste ou individualmente com Prefeituras que nos solicitaram perfurações de poços. Parceria e responsabilidade solidária: foi sempre esse o caminho buscado. Desde então,  foram perfurados em torno de 290 novos poços, estando alguns ainda em execução. Esta é uma medida eficiente para amenizar os efeitos da estiagem de uma forma imediata. Paralelamente, as máquinas perfuratrizes da Secretaria continuam a cavar poços em diversas comunidades difusas e com difícil acesso à água. Só em 2013, foram perfurados 339 poços e instalados mais 118. Foram recuperados completamente 70 dessalinizadores em comunidades, que agora já não mais dependem do carro pipa para ter água de qualidade garantida para saciar a sua sede. Neste ano serão instalados mais 68 novos sistemas iguais, através do Programa Água Doce. Dentro da política macro de convivência com as secas, duas obras estão praticamente concluídas e esperam que as chuvas apareçam para poder ter serventia: a adutora do Alto Oeste, que está 95% executada e em fase de testes e o sistema adutor Parelhas-Carnaúba dos Dantas, que foi realizado com recursos exclusivamente do tesouro estadual, tendo 98% de execução. Vale lembrar que essa primeira citada tem 320 quilômetros, vai atender 26 municípios e beneficiar 200 mil pessoas. A adutora do Alto Oeste vai transformar o cenário da região, ofertando água de qualidade para municípios como Luis Gomes que se situam no alto da serra e é um dos mais afetados pela seca. Ainda sobre ações estruturantes, vários outros sistemas adutores já foram ou estão em implantação no Estado. A ampliação do sistema adutor Monsenhor Expedito está em fase de testes e atende a 240 mil pessoas em 30 municípios do Agreste. A construção da Barragem de Oiticica, sonhada há 100 anos pelo povo do Seridó, agora é realidade, está em andamento e será o terceiro maior reservatório do RN, beneficiando diretamente e indiretamente mais de 850 mil habitantes em 17 municípios do Seridó, Vale do Açu e região Central. Na próxima semana, as obras da adutora de engate rápido de Pau dos Ferros, estarão sendo iniciadas através da CAERN, empresa que tem sido uma grande parceira nessa luta. Além disso, a Semarh está trabalhando em novos processos licitatórios para construção de obras que permitirão mais segurança hídrica para outras regiões do Estado: a barragem de Umarizeira, no município de Umarizal, o sistema adutor Umari-Campo Grande, uma adutora que beneficiará 22 comunidades rurais no município de Apodi e a construção de barreiros e de sistemas Simplificados de abastecimento de água em comunidades de 50 municípios. Com a concretização dessas obras teremos um Estado com outro perfil, sendo capaz enfrentar, com menos danos, essa catástrofe natural inerente ao nosso clima. A convivência com a seca tem que ser pensada de forma ampla, com elaboração de políticas públicas que envolvam os estados, municípios e União. Somos conscientes das dificuldades e do quanto o potiguar sofre com a estiagem.  Não está sendo fácil, nem pequena, a nossa luta para minimizar os efeitos desse sofrimento. O que afirmamos é que o Governo do Estado está fazendo a sua parte; abrindo os caminhos, buscando parcerias e soluções a partir dessas obras ou de outras iniciativas junto ao seu povo, entendendo que dentro do ciclo hidrológico, há um momento em que nada substitui a chuva.

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