Seca reduz produção de queijos

Publicação: 2013-01-17 00:00:00
Andrielle Mendes - Repórter

A queda na produção de leite está provocando um efeito cascata no Rio Grande do Norte. Várias queijarias já reduziram a produção por falta de matéria-prima. Em alguns casos, a queda chega a quase 80%, comprometendo o faturamento das empresas e ameaçando as finanças. Com a redução da oferta, o preço do leite in natura também subiu em torno de 40%, passando de R$ 0,85 para R$ 1,20. Em alguns casos, é preciso pagar R$ 1,40 por um litro de leite in natura na porteira. Em decorrência disso, os queijos já estão custando 30% a mais nas prateleiras.
Região Seridó concentra quase 90 por cento das queijarias que operam no RN e empregam 2.500 pessoas
 Para evitar demissões de trabalhadores, algumas queijarias estão concedendo férias a parte dos funcionários ou reduzido o horário de expediente. Esta foi a alternativa encontrada por Alane Kaline Fernandes de Araújo, uma das diretoras da Queijaria Dona Gertrudes, há 30 anos no mercado, para não demitir os funcionários, em Caicó. Em poucos meses, ela viu a produção cair 56,6%, passando de 300 quilos para 130 quilos por dia.

 A redução na queijaria de José Henrique Bezerra, mais conhecido como Zé do Queijo, no município de Bom Jesus, interior do estado, foi ainda maior. “Antes produzíamos cerca de 200 quilos de queijo por dia. Hoje produzimos 45 quilos. Deixamos até de revender”, afirma. A redução no caso dele chega a 77,5%. “O volume de leite comprado está caindo. Antes comprávamos 2,5 mil litros de leite por dia. Hoje só conseguimos 500 litros”, compara o produtor.

Por falta de fornecedor, Francyjose Bezerra Moura teve de fechar a ‘Casa do Queijo’, no centro de Parnamirim. Mesmo vendendo outros produtos como bolo, pão e bolachas, a empresária decidiu fechar as portas. Outras razões também pesaram na decisão, mas a falta de matéria-prima que dá nome ao negócio foi a principal delas. O negócio mal completou três meses. Francyjose justifica: “a fábrica deixou de revender para gente. Não recebemos queijo há quase 20 dias”.

 Segundo estimativa da Agência de Desenvolvimento Sustentável do Seridó (Adese), o RN possui aproximadamente 400 queijarias, boa parte delas no Seridó. Juntas, elas geram em média 2,5 mil empregos diretos. Para Acácio Brito, gestor do projeto de Leite e Derivados do Sebrae no estado, o problema é generalizado.

A indústria de derivados de leite também sofre. Na falta de leite in natura, boa parte delas tem recorrido ao leite em pó para produzir desde iogurtes a coalhadas, onerando o produto final, afirma Francisco Belarmino, vice-presidente do Sindicato das Indústrias de Laticínios do RN (SindiLeite). “Comprar leite em pó só compensa porque o preço do leite in natura subiu muito”, afirma.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), o RN industrializou 15,2 milhões de litros de leite entre janeiro e setembro de 2012. O IBGE ainda não divulgou os dados referentes ao último trimestre de 2012. O volume industrializado foi o menor dos últimos cinco anos para o período. A queda no volume industrializado no estado com relação ao mesmo período do ano passado chega a 14,4%. O Brasil também sofre com a seca, mas conseguiu pelo menos manter a industrialização de leite estável no último ano.

A queda na produção também tem afetado o Programa do Leite, que deveria distribuir leite in natura para 115 mil famílias só no Rio Grande do Norte. Segundo cálculos da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), que cuida do pagamento dos produtores, o volume distribuído caiu 25,17%. A meta era entregar 155.646 litros por dia, mas o Estado só tem conseguido distribuir 115.977. Segundo alguns produtores, o volume distribuído seria ainda menor que o oficial. 

“Algumas indústrias de laticínios interromperam, parcialmente, a entrega do produto em alguns municípios, mesmo após o preço do litro do leite pago ter passado de R$ 1,32 para 1,53 para o bovino, e de R$ 1,82 para R$ 2,10, para o produto caprino, aumento concedido pelo governo do estado no mês de agosto, retroativo a maio de 2012”, justificou um técnico da Emater no RN.

Produção vem recuando no RN, independente de seca

Estudo divulgado pelo Sebrae/RN ainda em 2012 já apontava alguns dos problemas enfrentados pelos produtores de leite e agravados pela seca. Segundo o levantamento, a produção de leite havia recuado 36% no Rio Grande do Norte entre 2002 e 2010, passando de 628.645 litros diários para menos de 400 mil litros diários. Entre as causas para a queda, entidades como  a Federação da Agricultura e Pecuária no Rio Grande do Norte (Faern) e a Associação Norte-Riograndense de criadores (Anorc) apontavam a estiagem, a alta dos insumos, a defasagem dos preços, e os atrasos no pagamento do Programa do Leite.

Para avaliar o real impacto do Programa do Leite na estrutura produtiva das usinas de beneficiamento e na renda dos produtores rurais, o Ministério do Desenvolvimento Social e de Combate à Fome (MDS) percorreu dez estados em 2009 e constatou que a renda do pequeno produtor, no Rio Grande do Norte, cairia pela metade, se o programa fosse suspenso. Se realizada em 2012, a pesquisa, que ainda não foi atualizada, chegaria a um percentual ainda maior, assegurou o diretor financeiro do Sindicato dos Produtores de Leite do RN (Sinproleite), Lirani Dantas, em entrevista concedida à TRIBUNA DO NORTE em 1º de julho de 2012.

A combinação entre estiagem, alta dos insumos e atrasos no pagamento do programa havia reduzido a distribuição de leite dentro do programa em quase 60% no Estado, ainda no ano passado. Falhas no programa - implantado na década de 1990 e levado para outros nove estados em 2003 - também reduziram a renda dos pequenos produtores  até 80% no RN, como no caso de João Francisco Nascimento, 42, agricultor familiar, cuja renda mensal caiu de R$ 950 para R$ 200 nos últimos oito anos, também entrevistado em julho do ano passado pela TN.

O nível de dependência  dos produtores e das usinas em relação ao programa já era alto no RN em 2012. Cerca de 77% do leite beneficiado diariamente pelas usinas era destinado ao programa, que também absorvia 25% de todo o leite produzido, segundo dados do IBGE. Em Pernambuco, onde o mesmo programa é desenvolvido, o percentual de leite adquirido pelo governo não ultrapassava 5%, de acordo com o Sinproleite.

"O produtor de leite que depende do programa se encontra hoje numa situação de muita vulnerabilidade. Se esse programa for extinto, a crise se estabelece tanto entre os produtores rurais quanto entre as usinas", alertou Francisco Fransualdo Azevedo, professor adjunto do curso de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que pesquisa a pecuária leiteira no Seridó, em entrevista à TN no ano passado.

No último ano, segundo o Sindicato dos Produtores de Leite (Sinproleite),  quatro usinas de processamento e beneficiamento de leite e derivados fecharam as portas em decorrência da crise envolvendo a cadeia do leite. “Toda a cadeia está sendo afetada com a seca. É um processo inter-relacionado. Se a produção cai, todos sofrem”, afirma Acácio Brito, gestor do projeto de Leite e Derivados do Sebrae no estado. A única esperança é a chuva, que faz crescer o volumoso para alimentar o gado. “Enquanto não começa a chover, o produtor se agarra a última gota de oxigênio”.

Governo do Estado admite autorizar importação

O governo do estado  não descarta a possibilidade de importar leite em pó para compensar a queda na produção no interior do Estado e industrialização e garantir a continuidade do Programa do Leite. A ideia foi apresentada em junho do ano passado e causou polêmica sobretudo entre os produtores potiguares. O governo decidiu reajustar o preço do leite pago ao produtor e engavetar o projeto, temporariamente.

 “Mas fica evidenciado que, mesmo com o ajuste concedido pelo governo do estado e os esforços dispensados pelos laticínios para a captação do leite, a necessidade de aquisição do leite em pó de forma emergencial e transitória”, informou a Emater. Até o ano passado, 2.064 produtores forneciam leite para o governo no RN. Segundo a Emater, parte deles teria interrompido o fornecimento com o agravamento da seca.

O leite em pó, segundo informou o governo na época, viria de países como a Austrália e a Nova Zelândia, com excedente na produção, e iria para mesa de cerca de 115 mil famílias potiguares, inscritas no programa. “Primeiro reajustamos os preços para verificar se a produção subiria. Reajustamos os preços, mas a produção não subiu. Fica patente que vai ser necessário importar leite em pó”, afirmou Ronaldo Cruz, diretor geral da Emater no RN, sem dar mais detalhes.

A produção foi reduzida em consequência da seca, que dizimou a pastagem e elevou os custos de alimentação dos animais. A falta de água também foi um dos fatores para o criador se desfazer do rebanho.


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