Segurança para o bolso potiguar

Publicação: 2010-04-04 00:00:00 | Comentários: 1
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Sílvia Ribeiro Dantas Repórter

A estabilidade econômica com a implantação do Plano Real, em 1994, fez com que uma nova mentalidade surgisse e o hábito de poupar passasse a fazer parte da vida de muitos brasileiros. Sem precisar mais conviver com uma inflação altíssima e a ciranda financeira que podia chegar a “levar” mais de 80% do salário do trabalhador, as pessoas começaram a planejar suas compras, aplicando cada vez mais parte dos seus rendimentos na caderneta de poupança. O Rio Grande do Norte seguiu essa tendência, com sua população se mostrando mais interessada em aplicar parte de seu dinheiro, fugindo do consumo imediato e criando expectativa em torno de uma compra futura ou, simplesmente, no intuito de dispor de uma reserva para o futuro.

Essas foram algumas das conclusões que o professor de Políticas e Tendências Econômicas da Faculdade de Natal (FAL) Otomar Lopes Cardoso Junior chegou em uma pesquisa intitulada O hábito de poupar no Rio Grande do Norte, avaliando o desempenho das aplicações em poupança no estado, em comparação com seus vizinhos do Nordeste, considerando o impacto provocado pela mais recente crise financeira internacional.

De acordo com o autor do estudo, havia cerca de  R$ 2,64 bilhões depositados em instituições bancárias do RN no final do ano passado, o que deixava o estado na 3ª colocação entre os nordestinos. “Esta condição foi alcançada em função do crescimento econômico dos últimos anos, impulsionado pelos investimentos estrangeiros e pelo turismo internacional, com aporte de novo capital e uma maior circulação de riqueza em todos os setores da nossa economia”, explica.

Na avaliação de Otomar Cardoso, o considerável volume aplicado em poupança pelos potiguares  demonstra o aumento na renda média da população do estado. Isso ocorre porque só é possível poupar quando os rendimentos da família são suficientes para suprir as necessidades básicas, pagar as contas mensais fixas ainda permite uma folga. “Essa ‘sobra’ é o que vai ser aplicado na poupança”, completa.

Para o professor de políticas e tendências econômicas, o país passa por um período de transição em relação à forma de aplicar o seu dinheiro. Essa mudança ocorreu após a estabilização da economia do país, que permitiu planejar a compra de um bem ou a quantia a ser gasta em uma viagem, por exemplo. “A maior parte da poupança dos brasileiros é feita pensando em algo específico e, provavelmente, isso é reflexo dos anos de inflação alta, ciranda financeira e dificuldade em conseguir crédito. Hoje é simples comprar um eletrodoméstico e pagar em 10 vezes, mas antes do Plano Real, a realidade era outra”, analisa.

Na visão de Otomar, a tendência é que daqui há alguns anos, a poupança passará a ser bastante utilizada por pessoas que pensam na aposentadoria ou na educação dos filhos. Dessa forma, ao contrário do que se vê hoje, os brasileiros passarão a aplicar seus rendimentos planejando aplicações em cinco ou dez anos.

Como aplicar

O gerente regional de negócios na superintendência RN da Caixa Econômica Federal (CEF), Roberto Sérgio Linhares, confirma a percepção de Otomar Cardoso e diz ver cada vez mais pessoas procurarem a instituição para aplicar na poupança. Ele revela que o atual saldo em poupança na CEF é de R$ 1,28 bilhões no estado.

Apesar de comemorar o maior interesse em investir na poupança, o gerente regional deixa claro que essa nem sempre é a melhor opção, sendo necessário considerar aspectos como a quantia disponível e por quanto tempo ela poderá ficar aplicada, antes de optar pela forma de investir o dinheiro.

Linhares explica que para valores utilizados em até 29 dias, o ideal é depositar em uma conta corrente. Já, a partir de 30 dias, para quem tem até R$ 50 mil disponível, o investimento mais indicado é a caderneta de poupança e se a quantia for superior a esse montante, além de não haver urgência na retirada, o cliente deve considerar investir nas Letras de Crédito Imobiliário (LCI), que chega a render 111% anualmente.

Poupança é opção para os jovens

Utilizada com os mais diversos fins, a poupança vem sendo a opção de um número cada vez maior de jovens, como o funcionário público Ricky Damasceno Rodrigues, a jornalista Renata Medeiros e o técnico em geologia e mineração Pablo Moreira. Todos com idades entre 23 e 27 anos.

Ricky afirma que a poupança foi essencial para conseguir casar, no ano passado, com menos dívidas e mais folga no bolso. Ele usou o dinheiro aplicado para comprar utensílios como TV e a geladeira à vista, pagar as custas do cartório, relativas ao apartamento financiado - sua “nova casa”, onde mora com a esposa - e para dar o valor de entrada do primeiro carro do casal. “Tive algumas despesas extras e precisei gastar as reservas que tinha, mas os planos são de continuar poupando, para ter sempre dinheiro garantido para emergências e também para adiantar parcelas dos financiamentos. A poupança é sempre uma segurança”, diz.

Já para a jornalista, a decisão em abrir uma poupança ocorreu para que ela realizasse o desejo de morar em Honduras. A conta foi iniciada há cerca de quatro anos e ao longo de metade desse tempo, Renata depositou cerca de R$ 500 por mês, permitindo que ela pudesse ir para o país da América Central e se mantivesse por nove meses em Tegucigalpa, capital do país.

De volta ao Brasil há um ano, Renata Medeiros mantém o hábito de destinar parte dos seus rendimentos à poupança e conta que, atualmente, planeja comprar um carro com o dinheiro investido. “Não sei quando vou poder fazer isso, pois preciso ter o suficiente para dar uma entrada razoável”, declara.

No caso do técnico em geologia e mineração, que há cinco anos destina 60% dos seus rendimentos mensais para a aplicação, a poupança não foi aberta com um fim específico. Pablo Moreira diz que inicialmente, o intuito era ter uma quantia disponível para uma eventualidade, mas hoje ele pensa em utilizar os rendimentos para dar entrada em um imóvel ou abrir um negócio. “Ainda não decidi que investimento será esse, mas penso em um apartamento ou empreendimento voltado para a geologia ou tecnologia”, planeja.

De acordo com Pablo, o hábito de manter uma poupança deveria ser mais frequente entre os brasileiros, por ser uma forma de fazer render um dinheiro que ficaria parado, evitando também que a pessoa se sinta tentada a gastá-lo desnecessariamente. “Optei por dividir o que ganho por pensar no futuro. Boa parte dos 40% que fica comigo é gasta com diversão e assim, a maior parte fica resguardada”, conclui.

Bate-papo
Rafael Seabra  Consultor financeiro

O brasileiro tem o hábito de investir na poupança?
Sim, e o número de poupadores tem aumentado cada vez mais. O hábito de poupar é muito saudável para a saúde financeira de cada um, independente de onde a pessoa optar por investir o dinheiro. A ressalva que faço é quanto ao motivo para se aplicar na poupança: o investidor avaliou as demais modalidades de investimento e escolheu a poupança ou optou por ela pelo simples fato de ser cômodo e não conhecer as demais opções? As pessoas não podem ser acomodadas no momento de escolher onde investir seu dinheiro.

A poupança é indicada para todas as pessoas?
Acredito que sim, mas nunca como única opção de investimento. Todos nós devemos ter um fundo de emergência, que seria um montante para nos resguardar de imprevistos, ao invés de recorrer ao cheque especial ou atrasar o pagamento da fatura do cartão de crédito, por exemplo. Para esse caso, a poupança é o ideal.

Quais as outras opções de investimento, para fazer o dinheiro render?
Para os conservadores, existem, além da poupança, o tesouro direto, fundos de renda fixa e DI, previdência privada. Todos são muito seguros e com garantia de saldo até R$ 60 mil por CPF. Já para os que estiverem interessados em correr riscos em busca de rentabilidades maiores, existem os fundos multimercados, fundos de ações ou investir diretamente em ações. Tudo depende do perfil e dos objetivos financeiros de cada um.

Como descobrir  a melhor forma de aplicar o seu dinheiro?
É relativamente fácil. Para isso, você precisa saber qual o seu perfil de investimento e o objetivo financeiro a ser alcançado. Por conta disso não existe o melhor investimento, e sim o melhor para uma determinada situação. Se a intenção é criar um fundo de emergência ou manter um montante a ser utilizado em menos de seis meses, a poupança é a melhor opção. Já para objetivos de longo prazo, outras opções são mais interessantes, por possuírem rentabilidade maior, mesmo com a incidência de imposto de renda e taxas de administração.

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Comentários

  • tacianajales

    Tem certeza que isso foi depois do Plano Real e se manteve do mesmo jeito sempre? E que tal a crise de 1998, por exemplo? E a situação de 2002? Não seria melhor dividir o período em fatias mais finas?