Sem heróis

Publicação: 2019-12-03 00:00:00 | Comentários: 0
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Sem heróis
E como se já não fosse humilhante um povo sem heróis, o destino nos fez também sem líderes, sem rebeldes e sem causas. Miguelinho, único herói da nossa história, é um pobre esquecido. A oligarquia Maranhão cuidou bem de imortalizar a eles mesmos no azinhavre do bronze solene - Pedro, Alberto e Severo, negando uma estátua àquele que lutou pela liberdade na Revolução de 1817, morto outra vez e agora no esquecimento dos duzentos anos, em 2017.

Os outros cuidam bem dos seus santos. Como Irmã Dulce dos Pobres que os baianos a canonizaram e o Vaticano apenas consagrou. E o Padre Donizetti que os bons mineiros santificaram como milagroso. Aqui, o nosso João Maria, o santo dos natalenses, padece numa praça velha, feia e suja, mantido pela chama votiva das velas que ardem, mas acesas pela fé do seu povo, posto que o abandono é a sua triste forma de continuar vivo pelo bem de todos.

Outro dia, num rasgo de jejuna inconsciência, não foi a Miguelinho, herói da liberdade arcabuzado por não negar o nome e o ideal, que levaram ao livro dos heróis, em Brasília, mas a Nísia Floresta, que pode ser um ícone de pioneirismo, mas nada teve de heroico naquela sua vida na Paris bela, pecadora e profana. É de políticos que damos os nomes às ruas, avenidas e praças, e tão imerecidos dos preitos que alguns deles dormem, anônimos, nas placas oficiais.

Henrique Castriciano, depois da longa enfermidade que lhe roubou a vida num quarto humilde de hospital, e de nutrir a vaidade e a ambição de tantos há mais de cem anos, morre de novo pelo desprezo que lhe dedicam os que hoje dirigem as instituições nascidas da Liga de Ensino que ele criou. Varela Santiago, o grande benemérito, mereceu um livro-homenagem pago pela admiração de uma médica ao fazer cem anos, deslembrado de todos os poderosos.

A obra, a casa e o acervo de Câmara Cascudo são mantidos pela família, representada por seus netos e bisnetos, cuidando de um patrimônio intelectual que é a nossa maior fortuna. Enquanto as nossas instituições culturais estão cheias de presidentes, senhores diretores e que tais, entre pompas e circunstâncias. Inventamos um céu de araque, de falsos anjos, arcanjos e querubins que macaqueiam fantasiados no gorgorão de suas capas tão reluzentes e vazias.

Os nossos ícones morrem mais a cada dia. Nada temos a oferecê-los, nem a lembrança. Só o esquecimento. Por isso os nossos mortos são estrangeiros na própria terra, como no belo título do livro de contos de Newton Navarro. Ele mesmo, aliás, não foi esquecido porque este cronista, modéstia à parte, sugeriu seu nome à governadora Wilma de Faria na ponte que une as margens do rio que banha sua cidade. Sobre as quais, um dia, ele, genialmente, escreveu. 

PALCO

VAIA - Crasso, para não chegar às raias da incompetência e da má fé, o erro do Governo não aprovando bem a tempo, autorização de recursos para pagar aos aposentados dos três poderes.

FEIO - É o mesmo governo petista que à sombra da mesma Assembléia soube mexer com os pauzinhos, aprovar aumento de 16,38% aos poderosos e negá-lo totalmente aos trabalhadores.

PIOR - É o mesmíssimo governo do procurador e vice Antenor Roberto que aproveitou para assinar o próprio aumento. Bom ter cuidado: até por eufonia governança rima com lambança.

UFA! - Acabou o Festival Lidia Pace da Intertv Cabugi, entre rosas, risos e lágrimas. Agora cabe aproveitar a excelente profissional e fazer jornalismo de verdade. O que não faz há anos.

FIM - Declaração de Gaby Amarantos a Mônica Bergamo, na Folha, com mais de um milhão de acessos e visualizações, como prenúncio do fim do mundo: “Sou uma mulher de xerecão”.

CRISE - De Mossoró, por entre as orações para Santa Luzia, a informação de que a Prefeitura fecha o ano pagando dezembro e a última parcela do 13º de 2019. Apesar de uma crise braba.

TIRO - Título do editorial do Estado de S. Paulo diante da abusiva ‘excludente de ilicitude’ para os crimes da polícia que se alastram pelo Brasil: “Truculência e impunidade”. Perfeito.

OCASO - Na avaliação de Matías Molina, do jornal ‘O Valor’, o quarto e último volume dos “Diários da Presidência”, revela um FHC melancólico vendo que o PT conquistaria o poder.

CAMARIM

CREIA - É fácil mensurar o quanto o presidente Jair Bolsonaro é jejuno em matéria cultural. Quando indagado como devem ser as ações culturais do governo, ele respondeu assim: “De acordo com a maioria da população”. Página 5 do Caderno 2 no ‘Estadão’ de sábado, 30.11.

EFEITO - Com isto - e há quem se honre - ficam sem chance as vanguardas, experiências e rupturas que sempre fizeram os avanços desde a caverna ancestral até as vanguardas europeias ao longo da história da cultura. Rumamos céleres para o obscurantismo do vale das sombras. 

ALIÁS - Outro dia, Geraldo Carneiro, poeta e imortal da Academia Braseiras de Letras, teve o bom humor de lembrar: na ditadura militar os vassalos do rei recolheram de uma biblioteca ‘subversiva’ um ensaio sobre o Cubismo. Certos de que era coisa da Cuba comunista de Fidel. 

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