Semântica, metáforas e afins

Publicação: 2018-10-12 00:00:00 | Comentários: 0
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Certa vez, durante uma rodada de papo na Confeitaria Atheneu, regada a doses de uísque Teacher's, Cuba libre e cerveja de marcas variadas - conforme a preferência dos circunstantes - com tira-gosto do famoso queijo "Mitsubishi", juntou-se ao grupo alguém que trouxe a notícia do suicídio do pai de um dos frequentadores daquela casa. Um dos que já estavam à mesa, filosofando ao sabor dos vapores etílicos, sentenciou que, entreos motivos que levam um indivíduo a cometer esse ato extremo, sempre está presente um dos seguintes: dinheiro, infidelidade conjugal ou doença. Foi o bastante para que um dos pinguços presentes manifestasse sua discordância, ressaltando que já havia passado pelos dois primeiros, pois tanto tinha ficado sem dinheiro - completamente "liso", como se diz na gíria - quanto tinha sido "côrno" e, para ele, só faltava agora ser posto à prova no tocante ao terceiro motivo. Diante da sinceridade com que auto intitulou-se com esse inconveniente epíteto, foi perguntado se - quando sabedor da infidelidade da ex-cara- metade, continuou a conviver com ela. Respondendo negativamente, foi, pelos presentes, alforriado do apelido porque há quem sustente que "côrno" é diferente de "traído"... E a diferença entre os dois estaria em saber ou não saber das traquinagens da companheira, daí porque, enquanto o primeiro é sempre alvo de chacotas e brincadeiras mais pesadas, o segundo merece a solidariedade dos amigos que, muitas vezes, incumbem-se da árdua tarefa de participar-lhe a "desgraça"...Fato que, com certa frequência, termina em suicídio.

O velho Arlindo, antigo concessionário Volkswagen nas cidades cearenses de Crato e Juazeiro do Norte, que praticamente são uma só, chamava todo mundo de "côrno" e, quando assim fazia com alguém que não conhecia e o sujeito se enfezava, ele o tranquilizava dizendo ser, ele próprio, o maior "côrno" do Ceará. Depois, explicava que lá no Juazeiro do "PadimCiço", esse apelido não ofendia a ninguém. Todavia, se um cabra chamasse outro de "deputado"... A bala corria feio. Teve uma novela da Rede Globo, durante a qual o Brasil todo tomou conhecimento de um novo apodo com que se "brinda" essa casta especial, pois, no folhetim do mesmo nome, o enganado - que desempenhava o papel principal, encarnado pelo famoso ator Antonio Fagundes - ostentava o pomposo título de "Rei do Gado". Foi um prato cheio para a conhecida malícia brasileira... Pois, é no Brasil que um técnico de futebol, seja ele de um time dos grandes ou de um menos expressivo, por mais "prestigiado" que se apresente, provavelmente estará, no dia seguinte à declaração do presidente do time, à procura de um novo clube e é no Brasil que, quando uma autoridade - seja esta o diretor de uma repartição pública, onde houve um escândalo qualquer ou, até mesmo o Presidente da República - diz que "os fatos serão apurados com o máximo rigor e o responsável ou os responsáveis será ou serão exemplarmente punidos", todo mundo sabe que não vai acontecer nada. Nadica de nada!

Aliás, no mais puro exemplo de semântica, uma iguaria de origem italiana transformou-se, ao longo do tempo, na melhor tradução daquilo que "vai dar em nada", porque, atualmente quando se quer dizer que determinada medida não será levada a efeito, diz-se que tudo terminará em "pizza"... A expressão até mesmo saiu da boca do povo para a capa de uma prestigiosa revista semanal, com direito à fotografia daquela massa emoldurando o "pizzaiolo", ou seja, o prefeito da maior cidade brasileira, que havia prometido a apuração de alguma safadeza - que não foi apurada.

O palhaço Tiririca, saiu da mais santa obscuridade para a glória nacional, terminando com um assento na Câmara dos Deputados, por causa do cabelo duro duma negra, inocentemente cantado. Tivesse ele, talvez falado em "grenha hirta da cafeteira", é bem possível que ninguém, fora do Ceará, jamais ouvisse falar dele. Por outro lado, consta que um General francês do século XVIII, provocou a aniquilação de seu exército, quando, fortemente resfriado, avaliava o poderio inimigo, do alto de uma colina, com seus homens à retaguarda. Num acesso de tosse, puxou do bolso um lenço e enquanto limpava a boca, balbuciou: "Masacrétoux" que, numa tradução livre pode ser entendido como "Minha tosse sagrada", sendo a palavra "sagrada" com o sentido de "danada"... Porém, o corneteiro, alguns cavalos atrás entendendo "Massacré tout" - "massacrai todos", meteu a boca na corneta.

E foi aquele desastre, porque o inimigo - os ingleses - era muito mais forte...




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