Rubens Lemos Filho
Semana de clássico
Publicado: 00:00:00 - 19/01/2022 Atualizado: 23:29:04 - 19/01/2022
Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Dinheiro para apostar, nunca teríamos. Fossemos sacudidos de cabeça para baixo, sequer 5 centavos cairiam de nossos bolsos em calções humildes de tecido barato, costurados por nossas avós e mães. O que valia era vencer para encher o rival de gozações. Eram os anos 1970, a década de ouro do futebol potiguar. 

“Danilo Menezes vai dar uma saiota(caneta) em Ronaldo Alves e eu garanto”, chiava por antecipação o abecedista, referindo-se ao maestro camisa 10 do ABC e ao correto volante do América. 

Ao que o rubro, mais rubro que o vermelho cor de sangue, explodia: “Alberi agora é nosso e vai dar um chute tão forte que vai botar Hélio Show para dentro da trave com bola e tudo.”Alberi, o Deus máximo da bola local estava no América e Hélio Show do ABC era o melhor goleiro do Nordeste.

ABC x América, para nós, meninos, começava sete dias antes de a bola rolar no clássico. Ao acordar na segunda-feira, o relógio começava a contar até o árbitro autorizar o início da peleja, às 16h30 do domingo que começava cedo, com alegria e sem nenhum vestígio de violência. 

A passeata largava da Orla Marítima, homens de tanga sumária e a camisa do seu time. Mulheres belíssimas em biquínis parecidos com shorts de basquete dos Estados Unidos, de tão longos e sem apelo sexual. Da Praia dos Artistas, seguiam os dois cordões motorizados pela Avenida Afonso Pena, no Tirol, que amanhecia em seus canteiros, lotada de bandeiras dos dois clubes para vender. 

Buzinaço, gritos, o hino cantado em desafino, paqueras rolando soltas, o rapaz numa Brasília acenando e mandando beijinhos para a garota no banco do carona do Corcel guiado pelo sisudo pai. ABC x América sempre foi o espetáculo mais belo de Natal e naquela época, extrapolava em emoção.

Passada a Afonso Pena e depois a Avenida Senador Salgado Filho, já no bairro de Lagoa Nova, basicamente horizontal em casas simples de conjuntos habitacionais, descortinava-se o Poema de Concreto. 

O Estádio Castelão com suas marquises em elipse, sua arquitetura revolucionária  de Moacir Gomes da Costa formando ondas de cimento armado. O Castelão era convidativo, a Arena das Dunas, repulsiva,  exala  o sabor azedo da obrigação e do artificialismo de um trambolho feito para o natalense engolir à força. 

As multidões se concentravam nas bilheterias, ônibus se sucedendo no despejar de centenas de fanáticos carregando bandeiras, sacos de papel picado, tensão à flor da pele, ídolos sendo gritados como em prece de euforia. ABC x América nos anos 1970 parava a cidade aldeota. 

Uma vez dentro do Castelão, que recebia injeção popular de gente das cidades ao entorno de Natal, Macaíba, Parnamirim(então Eduardo Gomes), São José do Mipibú Goianinha, Canguaretama, excursões volumosas cujos participantes, primeiro, abriam a boca de perplexidade pela beleza do estádio. 

Os jogos tinham nível altíssimo. Quando a bola rolava,o silêncio sepulcral ocupava a gigantesca geografia do estádio. Um drible de Alberi do América em Baltazar do ABC, o troco habilidoso de Danilo Menezes em Ronaldo Alves, eram suficientes para a massa uivar um som tribal de guerra. 

Nos anos 1970, ABC e América trouxeram para Natal, jogadores que entraram para a eternidade de cada um. Se o ABC tinha Hélio Show, o América vinha com Ivã Silva de lateral-direito, o melhor que passou por essas paragens. No quesito porrada, o gigante Pradera, faixa preta de Karatê, peitava o igualmente troglodita Joel Natalino Santana. 

No meio-campo, segundo a Banda Skank, o lugar dos craques, lá vinha o ABC com Baltazar, Draílton, Danilo Menezes, Zezinho Pelé, Zé Carlos Olímpico, Zé Carlos Henrique, Amauri, Maranhão Barbudo e Joel Maneca. O América esnobava com Hélcio Jacaré, Alberi, um jovem artilheiro chamado Marinho Apolônio, Garcia, Washington, Valério, Humberto Ramos e Juca Show. 

Foram tempos insubstituíveis. Hoje os aperitivos: ABC x Potiguar e América x Globo. Domingo tem clássico ABC x América, o primeiro do campeonato estadual. Se não há mais tanta beleza nos artesãos do gramado, que neles baixe o espírito de um passado que não resvala na tintura de sua atual história. 

Especial 
Até domingo, dia do clássico ABC x América, a coluna fará crônicas sobre a magia lendária do confronto com episódios gloriosos, trágicos, dramáticos e inesquecíveis.

Classificação 
O América tem 6 pontos ganhos e,em caso de vitória sobre o Globo e derrota do ABC contra o Potiguar, iguala a pontuação do alvinegro, aumentando o clima de tensão domingo. 

Distância 
Se o América empatar ou perder, o ABC dispara, olimpicamente, quase sem risco de ser alcançado nas duas rodadas finais. 

Por onde 
ABC tem pontos falhos cruciais: o goleiro Matheus e o lateral-direito Luís Gustavo.O lado esquerdo da defesa alvinegra é melhor.  

ABC 
Já o ABC pode causar terremotos na zaga rubra com uma marcação asfixiante na saída de bola adversária. Da intermediária à frente, o ABC é bem melhor.

Favoritismo 
Não existe. Em 107 anos, é pau a pau. 

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