“Sentar e esperar as coisas não é suficiente”

Publicação: 2013-04-28 00:00:00
Andrielle Mendes - Repórter

Mel em Apodi, facções de roupas em São José do Seridó, fábricas de boné em Caicó. A resposta para o Rio Grande do Norte superar as crises pode vir de projetos como esses, afirma Zeca Melo, diretor superintendente do Sebrae/RN e economista. O momento atual, analisa Zeca, exige muita competência de quem está dirigindo o estado. E não só isso. Exige criatividade e trabalho. “O estado tem uma economia muito diversificada. Sempre se disse isso. E isso é verdade. Mas a gente passa um momento onde atividades muito importantes passam por uma crise”. Ele aponta o desaquecimento de setores como o têxtil e o petrolífero e afirma que é hora de buscar alternativas criativas. “Nem só de grandes projetos pode viver a economia do estado”.
Zeca Melo: A participação dos ‘pequenos’ em grandes projetos não foi como se esperava. De qualquer maneira, a Copa é uma grande oportunidade de negócios.
Choveu nos últimos dias, mas o contexto ainda é de seca. Como a falta de chuvas tem afetado os micro e pequenos negócios no estado?

A seca não tem afetado só os micro e pequenos, mas os negócios do Rio Grande do Norte de uma maneira geral. Em relação aos pequenos, o quadro é dramático. Alguns pequenos negócios que estavam se estruturando, como o mel ou a castanha, contabilizam perdas de quase 100%. Lutamos muito para a exportação de mel e castanha deixar de ser um traço na nossa balança comercial. Em função da seca, esse ano com certeza vamos ter uma produção muito pequena. Os pequenos produtores não tem grande participação no Produto Interno Bruto do estado, mas tem uma participação muito grande na economia municipal. Destaco aqui os produtores de leite, os criadores de bovino-caprinos. Estima-se uma perda de 50% do rebanho. Alguns grandes projetos que foram elaborados para viabilizar o uso da água não saíram do papel. Veja, por exemplo, a barragem de Santa Cruz, que é uma grande obra de engenharia. Não aconteceu nada no entorno dela. O que se espera é que com a barragem de Oiticica, que é o novo grande projeto hídrico, seja diferente. A seca, que é um fenômeno que a gente tem que conviver, tem uma repercussão muito negativa na nossa economia, e  pode agravar ainda mais o nosso quadro de dificuldades macroeconômicas.

Que atividades estão seriamente comprometidas?

A apicultura, a produção de leite, onde predomina os pequenos, e a cultura da castanha.

O trabalho para recuperar essas atividades vai ter que começar do zero?

Não, não vai começar do zero. Já choveu, choveu bem, e parece até que não aconteceu nada. As pessoas já estão animadas novamente. Não vai começar do zero, porque existe toda uma cultura. No caso da castanha e do mel, que são atividades onde o pequeno prepondera, já existe uma certa ‘tradição’ e espero que a gente já retome no próximo ano.

O Rio Grande do Norte já estava crescendo abaixo da média do Nordeste e do Brasil. Com a seca, o quadro ficou ainda pior?

O estado tem uma economia muito diversificada. Sempre se disse isso. E isso é verdade. Mas a gente atravessa  um momento onde algumas atividades muito importantes passam por uma crise. Na questão da produção de petróleo, por exemplo. A gente não sentiu ainda. O governo do estado e as Prefeituras não sentiram ainda o grande impacto negativo, porque o preço do barril de óleo subiu muito. Então, o aumento do preço do barril contrabalançou a queda da produção. Do ponto de vista dos royalties, os municípios não sofreram tanto. Antes, a gente trabalhava com expectativa de crescimento da produção. Hoje, a gente trabalha com expectativa de, no máximo, estabilização da produção, com o uso de tecnologia. Nós, no entanto, não aprendemos a lição, que é usar os recursos dos royalties para obras estruturantes. Infelizmente, os royalties são usados, em muitos casos, para financiar bandas no carnaval. O dinheiro dos royalties está saindo pelo ralo, e esse dinheiro é finito. Vai acabar. Alguns estudiosos falam que o peso do negócio do petróleo no PIB do estado oscila entre 25% e 30%. Eu não tenho esse número. O que sei é que isso gerou uma economia de escala muito grande. Tem muita empresa funcionando como prestadora de serviço da Petrobras e de outras empresas que prestam serviços a Petrobras. Fora o  o hotel, o restaurante. Você chega em Mossoró e vê uma cidade totalmente diferente. É um polo industrial e o petróleo tem muito a ver com isso. Então, há que se buscar uma alternativa.

Que alternativas?

A Petrobras tem outros projetos. Está pesquisando energia solar.. A gente tem que criar alternativas. O momento econômico que atravessamos exige muita competência de quem está dirigindo o estado. Sentar e esperar as coisas  não é suficiente, tanto no petróleo quanto em outras áreas, como na têxtil e de confecções. Nós já fomos um grande polo têxtil e de confecções. Esse polo quebrou, faliu na década de 70 e 80. Conseguimos reerguê-lo com grandes indústrias, como a Coteminas, a Guararapes,  Vicunha e esse modelo também está se exaurindo em função de uma concorrência mundial, sobretudo com os produtos chineses. O que nós vamos fazer? Eles são os grandes empregadores do estado. Além disso, tem a questão do turismo. Estávamos voltados para o turismo de segunda residência e o turista europeu.  A crise na Europa nos afetou diretamente. Agora tem a questão das companhias aéreas. Como se explica o fato de uma cidade que está construindo um novo aeroporto internacional perder cinco voos diários? É uma coisa inconcebível.

Qual é o impacto disso para a pequena empresa?

Isso tem uma repercussão extremamente negativa no turismo do estado, afetando principalmente a pequena empresa.  O pequeno e médio empresário está sofrendo muito. O turista que está nos visitando tem menos recursos. A gente tem que ver como pode ser criativo para oferecer alternativas.

E apostar em novas áreas?

Isso. E ser criativo. Procurar as alternativas naturais dentro do estado. Por exemplo, a questão da bonelaria de Caicó. Como a gente pode interiorizar a questão do mel, a questão do ovino-caprino. Nem só de grandes projetos pode viver a economia do estado.

Cabe então ao estado identificar essas atividades promissoras, atuar nas suas carências, para se tornar competitivo também nessas áreas?

Exatamente. E fazer o dever de casa. Uma coisa a gente tem que elogiar do ponto de vista de política de governo federal é a questão da educação profissional  no interior do estado. Isso é extremamente positivo, mas não é suficiente. É preciso trabalhar mais a educação, para criar oportunidades, inclusive de empreendedorismo, e criar um ambiente acolhedor para o pequeno. Estamos num país com algumas dificuldades e numa região com estados muito competitivos, e a gente ainda não tem um ambiente favorável para quem vem empreender aqui? Não estou dizendo que é a gente não tenha cuidado com o meio ambiente, por exemplo. O Sebrae até tem uma proposta, que surgiu no Conselho Deliberativo do Sebrae depois de conversas com as três grandes federações, para racionalizar a questão do licenciamento.

Em que pé está isso?

O projeto foi discutido com a equipe técnica do Idema, equipe jurídica do estado, com o Conema, e se encontra no gabinete civil. Esperamos que o governo encaminhe para a Assembleia Legislativa, autorizando o licenciamento eletrônico pelo menos dos pequenos empreendimentos com baixo impacto ainda neste semestre. A demora na emissão das licenças gera não só desrespeito à legislação, como impossibilita o acesso ao crédito. O Sebrae vai se estruturar para dar um suporte às empresas que forem solicitar licenças ambientais.

Com licenciamento, as empresas vão conseguir se formalizar, obter crédito e superar crises com mais facilidade...

Exatamente. E assim se ajuda a criar um ambiente favorável.

Como está a participação dos pequenos e micros, que são maioria no estado, nas grandes obras que estão sendo executadas, como o estádio Arena das Dunas e o aeroporto de São Gonçalo?

É pequena. A gente fez um trabalho com as empresas responsáveis pelas obras, mas a participação do pequeno não foi como a gente esperava. De qualquer maneira, a Copa do Mundo vai ocorrer em Natal. Com obras de mobilidade ou sem obras de mobilidade, a Copa é uma grande oportunidade de negócios. A gente tem que ter produtos para oferecer e produtos parecidos com a gente. As grandes obras e os grandes projetos são necessários, mas a gente não pode ficar esperando acontecer. Precisamos criar  novas alternativas e potencializar o que já foi feito, em áreas como petróleo e fruticultura. A gente tem que ter muito trabalho, muita criatividade e muita competência para passar por esse período. Eu vejo com muita simpatia esse projeto elaborado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico e pela Fiern, que é o plano de negócios. A gente agora vai ter um documento de referência para dizer: olha, nós queremos andar por aqui. 

O que precisa avançar para os pequenos negócios?

A gente tem que trabalhar para criar um ambiente favorável,     criando, por exemplo, um programa de compras governamentais, de apoio tecnológico, para no mínimo se defender dos dois grandes estados que estão ao nosso lado, que é PE e CE.

A Guararapes anunciou recentemente planos de terceirizar parte de sua produção através da contratação de ‘facções’, pequenas oficinas de roupas. Quais as vantagens e desvantagens disso?

Se é isso ou importar da China, vamos todos buscar essa alternativa e vamos transformar o RN em referência em facções. Se não o estado vizinho faz isso. Se  isso significar novas oportunidades de emprego no RN, o Sebrae está dentro.