Sertão de Oswaldo Lamartine inspira safra de poemas de Adriano de Souza

Publicação: 2019-08-29 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

O universo sertanejo tão bem descrito na prosa literária de Oswaldo Lamartine (1919-2007) inspirou os mais variados perfis de escritores. Dentre os poetas pode-se destacar Zila Mamede e Sanderson Negreiros. Mas recentemente um outro escritor saiu marcado ao atravessar as páginas do sertanista potiguar: Adriano de Sousa. Não que ele tenha sido fisgado exatamente agora, na verdade Oswaldo é referência pra ele de anos, mas foi só recentemente que o poeta movimentou seus versos numa homenagem direta ao sertão tão bem desenhado pelas palavras daquele intelectual. O resultado é “Livro de O” (2019, Flor de Sal), obra que Adriano lança nesta quinta-feira (29), a partir das 19h, no espaço Abayomi (Tirol).

Adriano de Souza traz na poesia elementos da vida oswaldiana, do aboio ao cão Parrudo
Adriano de Souza traz na poesia elementos da vida oswaldiana, do aboio ao cão “Parrudo”

Perguntado se o “O” do título do livro é o mesmo “O” de Oswaldo, Adriano diz ser apenas uma alusão velada e que quem ler seus poemas vai entender. “O sertão é um tema que me interessa, é um ponto de convergência que tenho com Oswaldo. Sou um grande admirador de sua obra”, diz o poeta em entrevista à TRIBUNA DO NORTE. “Independente de não ser ficcionista, Oswaldo é um dos grandes estilistas da prosa do estado".

Nascido em Alexandria e tendo viajado bastante pelo interior, Adriano é bastante familiarizado com a paisagem sertaneja e o tipo peculiar de vida que se leva nesse ambiente. Seu olhar sensível capta do dia-a-dia instantes que passariam como banais pra muita gente e os transformam, no brincar com as palavras que em muitas vezes é sua poesia, em algo de outro valor, até mesmo outro significado.

“Neste livro reuni alguns poemas ligados ao sertão e ao universo de Oswaldo. Faço referência ao aboio, ao ferro de marcar gado, ao cachorro dele, o Parrudo”, conta o poeta, sobre este que é seu quinto livro de poemas – “Flô" (1998), “O Alvissareiro" (2001), “Saartão" (2004) e “Poesia" (2008). Mas “Livro do O” vai além, e traz também poemas sobre assuntos outros, como o ato de escrever e o lugar da poesia no mundo contemporâneo.

Segundo escreveu Adriano numa dessas redes sociais por aí, o livro tem “uns 13 cafunés em Oswaldo, que vem de ser centenário nesta quadrada de cardo. Tem outros dois em Theo e Muirakytan, queridos [amigos], da mesma sertã. E tem uns 14 cocorotes, dos aleatórios, nuns coisados aí”.

Uma curiosidade sobre o trabalho atual é que com “Livro de O” Adriano publica pela primeira vez uma obra de poemas pela sua (e da companheira Flávia Assaf) editora “Flor de Sal”. Sobre o ofício de editor em Natal, Adriano chegou a falar algo bem interessante. O depoimento foi para este jornal, lá nos idos de 2008, por ocasião do lançamento do livro “Poemas”, que saiu pela Coleção Letras Natalenses, da Fundação Capitania das Artes. “Ser editor em Natal é como ser autor em Natal: só a mãe da gente acha bonito e útil, porque mãe é mãe, perdoa todas as nossas fraquezas”. Decorridos dez anos daquela fala, o poeta de Alexandria mostra-se estar nem ai para conjecturas do passado, lançando ao vento mais um punhado de páginas novas.

Quem
Adriano de Sousa nasceu em Alexandria, em 1962. Trabalhou como jornalista em Natal e Brasília. Também trabalhou como publicitário e marqueteiro em campanhas eleitorais no Rio Grande do Norte. Seus primeiros poemas foram publicados nos anos 80, em edições mimeografadas “Overdose" e “Usura Colonial – do incesto histórico entre nós e eles". No final dos anos 90 vem os livros: “Flô" (1998), “O Alvissareiro" (2001), “Saartão" (2004) e “Poesia" (2008), este último, uma coletânea de poemas dos três anteriores, acrescido de 15 inéditos. “Livro de O” é seu quinto livro, o primeiro pela sua editora Flor de Sal.

Poema seco
Magro de ruim. Seco de tudo.

Não há sim no que falo.

É bodejar de bruto

que dá bom dia a cavalo



Se, de tarde, sou arcaico,

de manhã, fui moderno;

de noite, serei clássico.

Completei o meu caderno.



Comi o pão da macambira,

ensinei inhambu a piar.

Dormi em rede de embira,

vi a chuva, vi o sol, do copiar.



Lavei as mãos na mágoa

de pedra. Chorei inverso,

engolindo. Guardei toda água

para a cuia deste verso.


Serviço
Lançamento do “Livro de O”, de Adriano de Sousa

Dia 29 de agosto, às 19h

Abayomi (R. Ezequias Pegado, 1021, Tirol)





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