Sete em cada dez jovens que fizeram Enem acreditam ter feito boas provas

Publicação: 2020-01-16 00:00:00
Mariana Ceci
Repórter

Os candidatos que fizeram as provas do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) 2019 estão prestes a conhecer os resultados do exame, que será divulgado nesta sexta-feira (17). No Rio Grande do Norte, cerca de 94 mil pessoas aguardam os resultados, que serão utilizados para buscar vagas nas instituições de ensino superior do país. Um levantamento feito pelo Instituto RadarNE/TRIBUNA DO NORTE durante os dois dias de prova revela que 71% dos natalenses consideram que tiveram um desempenho dentro do esperado nas provas objetivas, enquanto 70% acreditam que foram bem na redação.

“Uma questão importante a se analisar é o contingente de pessoas que acredita que teve um desempenho muito ruim. Na redação, esse número foi maior do que na prova objetiva”, afirma Maurício Garcia, sociólogo e diretor do RadarNE. De acordo com a pesquisa, 17% dos jovens tiveram um desempenho considerado “abaixo do esperado” na prova objetiva, enquanto 23% acreditam que não foram “nada bem” na redação.

O número de pessoas que considerou que teve um desempenho acima do esperado na prova objetiva, por sua vez, foi de 12%, enquanto na redação, esse número caiu pela metade, com apenas 6% de pessoas avaliando que foram “muito bem”.

“Isso tem a ver tanto com o tema da redação, que foi considerado complexo por algumas pessoas, como pelas próprias deficiências em redação e leitura do sistema educacional”, completa Maurício.

Uma das maiores surpresas na prova objetiva, de acordo com os professores e estudantes que fizeram a prova, esteve na mudança de formato das questões em relação aos anos anteriores, que foi sentida por alunos como Vinicius Lima, de 21 anos.

“A prova objetiva foi uma surpresa. O modelo de prova foi bem diferente dos anos anteriores. Senti o impacto principalmente na prova de Humanas, onde os conteúdos que caíram foram muito diferentes e houve uma redução no número de questões de história”, afirma.

Ao longo dos últimos dez anos, a prova do Enem vem priorizando a parte de história do Brasil. Uma média das questões de todas as provas já feitas do Exame mostram que 18,5% das questões relacionadas ao tema costumam ser sobre o Segundo Reinado, enquanto 18,6% tratam dos governos pós-ditadura militar, 16% falam da Era Vargas, 14% da República Velha, e 7% da Ditadura Militar.

Esse ano, no entanto, os estudantes se surpreenderam a não se deparar com os temas, para os quais se prepararam ao longo do ano inteiro com base nas provas anteriores. “Eram assuntos que caíam muito. Se formos pegar provas de 2017 e 2018 vamos encontrar pelo menos uma questão tratando desses temas”, afirma o professor de história Luís Felipe Nascimento, diretor do Inovati Cursos Preparatórios.

“Houve uma mudança drástica no quantitativo de questões de história. Se antigamente tínhamos de 11 a 13 questões de história, em 2019 tivemos entre 5 e 6. Consequentemente, a quantidade de conteúdos abordados também é reduzida”, explica.

De acordo com Vinícius Lima, que pretende ingressar no curso de direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), outra mudança sentida foi a extensão da prova, que teve alternativas e questões mais curtas. “Isso acabou gerando uma certa confusão, porque como as respostas eram mais objetivas, não sabia se algumas estavam corretas por parecerem incompletas”, destaca.

Resultados
A nota individual dos candidatos poderá ser acessada a partir da sexta-feira, 17, pela Página do Participante, no portal ou aplicativo do Enem.

Após a divulgação dos resultados, as pessoas poderão utilizar as notas para ingressar nas instituições de ensino superior, que pode acontecer tanto através do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), Programa Universidade Para Todos (Prouni), Ingresso direto, Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e universidades portuguesas.

Para ver as notas, o candidato deve fazer login, informando seu número de CPF e a senha cadastrada no momento da inscrição. Caso tenha esquecido a senha, o participante pode assistir o tutorial de recuperação de senha, divulgado pelo Ministério da Educação em outubro de 2019.

O Sisu, principal porta de entrada para as universidades públicas do país, que são as mais procuradas pelos candidatos, ficará aberto entre a terça-feira (21) e a sexta-feira (24) para inserção das notas. Ao todo, serão 237.128 vagas em instituições públicas de ensino, distribuídas por 128 universidades de todo país. 

Pesquisa RadarNE/Tribuna do Norte -  Enem 2019
Como os estudantes que fizeram o Enem se saíram nas provas
Créditos: Divulgaçãopesquisapesquisa
Bate-papo com: Luís Felipe Nascimento -  professor de história e diretor da Inovati Cursos Preparatórios
Créditos: Magnus NascimentoLuís Felipe Nascimento, professor de história e diretor da Inovati Cursos PreparatóriosLuís Felipe Nascimento, professor de história e diretor da Inovati Cursos Preparatórios

Uma questão recorrente levantada pelos candidatos que fizeram o Enem foi a dificuldade na prova de Humanas. Como você avalia a prova de 2019 em relação aos anos anteriores?
Houve uma mudança drástica no quantitativo de questões de história e, consequentemente, alguns assuntos que costumavam cair, principalmente na parte de história do Brasil, não apareceram na prova. É o caso da Era Vargas, Ditadura Militar, governos pós-ditadura e Segundo Reinado, que eram temas muito frequentes nas provas do Enem desde o início de sua aplicação. Em resumo: houve uma queda na quantidade de questões de história e uma redução dos temas que caíam, o que provocou um estranhamento nos alunos.

Outro fator importante a se considerar é que, para compensar essa queda nas questões de história, houve um aumento significativo no número de questões de filosofia. Além disso, a prova de Humanas foi muito mais objetiva do que as dos anos anteriores, que traziam textos e alternativas maiores.

Essa mudança de modelo, para uma prova mais objetiva, tende a ser positiva ou negativa para os candidatos?
Existem pontos positivos e negativos. Os pontos positivos é que pode fazer com que você chegue mais rápido a uma resposta que você tem certeza que é certa. Isso, no entanto, não se aplica tanto para textos que têm uma complexidade maior. Para esses casos, uma alternativa que seja muito objetivo pode ter o efeito oposto, que é o de confundir o candidato.

A mudança, em si, foi negativa para esse ano porque o Ensino Médio é muito focado na aprovação do Enem, e os professores preparam as aulas pensando nos conteúdos programáticos que costumam cair mais nas provas anteriores. Essa mudança que aumentou o número de questões de filosofia e reduziu as de história, por exemplo, acabou sendo uma espécie de “pegadinha” para muitos, principalmente porque sabemos que a filosofia não é algo tratado tão à fundo em nosso país, especialmente nas escolas públicas. São principalmente as escolas particulares que acabam tratando a filosofia com o seu devido valor, e isso acaba tornando a prova menos democrática, quando pensamos pelo viés de acesso aos conteúdos pela maioria da população.

Como será a preparação para o Enem 2020? A expectativa é de que esse modelo mais objetivo seja reproduzido esse ano?
A partir disso, os professores vão começar a pensar de forma diferente. Quando eu for fazer uma apostila pensando nos alunos que forem prestar o Enem 2020, eu já vou ter que mesclar um pouco mais essas duas tendências. Uma coisa interessante a respeito do Enem 2019 é que muitas das questões lembram questões de vestibular, que trazem um conceito e alternativas interpretativas em relação àquele conceito, o que acaba fazendo com que o seu conhecimento prévio pese mais do que a capacidade interpretativa, por exemplo.

De forma gral, a prova do Enem continua apresentando um teor social, então não houve tantas mudanças nesse sentido. O que causou o maior estranhamento foi essa mudança no formato das questões, que vai demandar adaptação dos candidatos e professores para 2020.