Setor agropecuário espera respostas

Publicação: 2014-09-05 00:00:00
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Vinícius Menna
Repórter

Recursos hídricos, escoamento da produção da fruticultura, construção de um novo porto, capacitação técnica no meio rural, fomento da agricultura familiar. Essas foram alguns dos temas presentes nas propostas apresentadas pelos candidatos ao Governo do Estado do RN aos representantes da agropecuária potiguar, na manhã de ontem, durante encontro realizado pela Federação da Agricultura do Rio Grande do Norte (Faern), na Casa da Indústria. Participaram do evento os três candidatos melhor posicionados nas últimas pesquisas eleitorais: Henrique Eduardo Alves (PMDB), Robinson Faria (PSD) e Professor Robério Paulino (PSOL).
Produtores rurais no auditório da Casa da Indústria: Setor espera mais infraestrutura, água, educação e renda para crescer no RN
Ao fim da apresentação de cada candidato, a Faern entregou o documento “O que esperamos do próximo governo 2015-2018”, elaborado pela entidade, após ouvir e discutir com produtores potiguares os rumos para a agricultura do Rio Grande do Norte.

“O documento é fruto de um trabalho de mais de dois meses feito pelos nossos técnicos, que visitaram todas as regiões do Estado, e logo em seguida, com um grande seminário, onde foram discutidas as principais dificuldades do setor, o cenário atual, e aonde queremos chegar”, disse José Vieira, presidente da Faern.

O presidente da Faern destaca que o setor agropecuário potiguar vem perdendo espaço na economia do Estado nos últimos dez anos e que as medidas apontadas no levantamento da Federação podem reverter esse quadro.

Entre as principais demandas do setor, de acordo com José Vieria, estão a interligação das bacias hidrográficas do Estado, através de obras que viabilizem a transposição do Rio São Francisco em solo potiguar, a construção de um novo porto, além da ampliação da assistência técnica rural e de investimentos que garantam acesso à saúde, educação, segurança e renda para o homem do campo.

“Com relação à infraestrutura, nós temos vários gargalos que precisam ser resolvidos. O Rio Grande do Norte não está ligado com a Transnordestina [obra ferroviária para ligar o porto de Pecém, no Ceará, ao Porto de Suape, em Pernambuco]. O Porto de Natal não atende mais as demandas do Estado, não só da atividade rural, mas como um todo”, explica José Vieira.

“E quando as águas do rio São Francisco chegarem, nós não teremos nem como fazer manobra de água dentro do Estado, ao contrário do Ceará, que tem um cinturão das águas. O Rio Grande do Norte sequer tem projetos para isso”, completou o presidente da Faern.

Esta é a segunda vez que a Federação planeja uma agenda para o setor e apresenta aos candidatos ao Governo do Estado no período que antecede as eleições. O documento preparado pela Faern foi entregue às assessorias dos candidatos com uma semana de antecedência do evento, para que eles se inteirassem sobre as propostas colhidas pela Federação junto aos produtores rurais.

REGRAS
A ordem de apresentação dos candidatos foi escolhida por sorteio. O primeiro candidato a falar ao público foi Robério Paulino. Em seguida, foi a vez de Robinson Faria e por fim, Henrique Alves. Cada candidato teve 20 minutos para a exposição de suas ideias e propostas.

Feitas as apresentações, os candidato tiveram mais cinco minutos para responder a três perguntas da plateia de produtores e lideranças rurais. Também foram concedidos cinco minutos para considerações finais de cada um. Todos os candidatos foram convidados ao palco dez minutos após a saída do anterior.

Robério Paulino - PSOL
O candidato Robério Paulino (PSOL) afirmou ontem que pretende dar atenção especial à agricultura familiar, destacou a importância de repensar a política hídrica do Estado e defendeu a recuperação das estradas e da malha ferroviária. Ele foi o primeiro dos três candidatos convidados a apresentar as propostas para a agricultura, no debate promovido pela Faern.

“Não existe agricultura sem uma participação ativa do Estado estimulando e fomentando essas atividades, e não um papel secundário”, afirma Paulino.

Entre os pontos elencados pelo candidato do PSOL para desenvolver a agricultura do Rio Grande do Norte está a recuperação das principais estradas que cortam o Estado, entre elas a BR-304, BR-226 e BR-206, além da duplicação de um trecho da BR-110, que interliga Mossoró a Areia Branca.

“Nós pensamos que também seria necessário iniciar estudos e lentamente, ainda que não seja possível resolver isso em quatro anos, recuperar a malha ferroviária do Estado”, explica.

Água
Com relação a política hídrica, Robério Paulino sugere que sejam analisadas ações realizadas por países como Israel e Austrália, que também tem em regiões semiáridas um dos desafios para o desenvolvimento da agricultura. “Nossa proposta é implantar em cada propriedade uma cisterna-calçadão de no mínimo 100 metros por 10 de largura. Em cada hectare, daria para acumular 1 milhão de litros de água para cada propriedade”, diz.

“O agricultor precisa de água ali. Os açudes servem para grandes projetos de irrigação, mas não para os milhares de produtores espalhados pelo território. A proposta é construir dezenas de milhares de cisternas-calçadão. Você teria água para nunca mais acontecer o que aconteceu em 2012, com a morte de 30% a 40% do rebanho do Estado”, afirma Robério Paulino.

O candidato do PSOL destacou ainda a importância da construção de um novo porto. Também defendeu maior revitalização do Programa do Leite, além do beneficiamento de frutas em pareceria com o Governo do Estado. “Tem que dinamizar o Programa do Leite e até montar fábricas estatais para transformar esse leite em queijo ou até em leite em pó, de forma que esse leite não se perca”.

Paulino destacou que sua prioridade será o pequeno agricultor. “A agricultura do Estado ou do país não pode viver só entorno do agronegócio. Tem que estimular a agricultura familiar. Nós estamos a favor da agricultura, mas não apenas de alguns produtores e agricultores, e sim de todos”, afirmou.

O candidato destacou que pretende adotar uma política protecionista, que valorize a produção interna. “Não tem porque importar leite e queijo se temos esses produtos aqui”, diz.

Robinson Faria - PSD
O candidato ao Governo do Estado Robinson Faria (PSD) defendeu ontem a importância de construir um porto privado para garantir o escoamento da produção do Rio Grande do Norte. O candidato do PSD afirmou ainda que, se eleito, vai trabalhar para o fornecimento de energia subsidiada para o agricultor, que dará incentivos aos exportadores e que vai priorizar a interligação das bacias potiguares ao rio São Francisco.

Robison foi o segundo dos três candidatos que foram convidados pela Faern para debater o setor na manhã de ontem no auditório da Fiern. Ele afirmou que apoia demandas da agricultura como a criação de um novo porto e a interligação das bacias hidrográficas do RN ao rio São Francisco.

“O Rio Grande do Norte está sangrando todo o dia na sua economia porque nossas riquezas da mineração e da fruticultura estão saindo por Pecém, no Ceará, Suape, em Pernambuco, e Cabedelo, na Paraíba. E aí, na hora que esses produtos são exportados por outros estados, o Rio Grande do Norte não fica com a receita”, explica o candidato.

Robinson destaca que o “grande gargalo” do Rio Grande do Norte é a falta de um porto. “Eu, eleito governador, no dia seguinte, irei buscar a construção desse porto. O caminho mais rápido é um porto privado. A legislação é mais simples, a burocracia é menor”, defende.

O candidato do PSD disse que o RN ainda não está preparado para receber as águas do rio São Francisco e que a integração das bacias potiguares será resolvida “em poucos meses”. “No Ceará já está pronto. Temos que fazer o dever de casa. Eu eleito governador, quando chegar o são Francisco, em 2015, as bacias já estarão interligadas e essa água será aproveitada para o consumo humano, para irrigação e projetos de agronegócio”, destaca.

Energia
Robinson destacou que pretende viabilizar uma forma de parte da energia gerada por usinas eólicas ser usada para suprir atividades de agronegócio no semiárido. “É preciso uma Lei federal ou um entendimento com os demais estados, mas é certo que todos eles vão querer”, diz.

O fornecimento de energia com preço subsidiado também foi incluído entre as propostas, o que poderia beneficiar projetos de irrigação. Robinson também prometeu o pagamento do Programa do Leite em dia e o fomento das cadeias produtivas do queijo e da fruticultura.

O candidato destacou ainda a importância de conceder incentivos as exportadores. “Estamos ameaçados de perder mais de 15 mil empregos para o Ceará pelo Estado não cumprir a Lei Kandir. É simples, basta o Estado dar um incentivo ao exportador. O Ceará paga, a Paraíba paga, Pernambuco paga, São Paulo paga, por que o Rio Grande do Norte não?”, disse.

Henrique Eduardo Alves - PMDB
O candidato Henrique Eduardo Alves (PMDB) defendeu como destaque entre suas propostas para a agricultura desenvolver os recursos hídricos do Estado. O candidato também afirmou que construirá um novo porto e que investirá em capacitação técnica para o jovem do campo.

A apresentação de Henrique Alves encerrou os debates organizados pela Faern com os três candidatos mais bem posicionados nas pesquisas eleitorais para debater o futuro da agricultura potiguar.

Henrique ressaltou a importância de preparar o Rio Grande do Norte para receber as águas do rio São Francisco. “O edital que irá complementar o eixo da transposição do rio no nosso Estado é aguardado desde abril. Espero que até outubro o Ministério da Integração possa lançar esse edital”, disse.

“Enquanto essa água da transposição não chega para perenizar reservatórios e rios,  temos que fazer a transposição estadual das bacias e barragens que temos. Se elas não forem preparadas, essa água vai para o mar. É preciso que elas sejam canalizadas para nossos reservatórios para que sirvam para o consumo humano, consumo animal, irrigação, num planejamento que tem que ser feito logo, agora”, disse Alves.

Porto
Um novo porto, com vocação para escoar a produção graneleira potiguar, também está entre os planos de Henrique para desenvolver a agricultura. “Já temos nosso projeto finalizado, vai ser em Porto do Mangue, onde há uma fenda geográfica importante”, explicou.

Conforme o candidato, o Porto de Natal perdeu competitividade para o de Pecém, em Fortaleza, o de Suape, localizado em Pernambuco, e o de Cabedelo, na Paraíba. “Nós temos que mudar essa vertente”, afirmou.

Henrique acrescentou que a fruticultura também precisa de mudanças. Uma das idieas do candidato é avaliar a melhor maneira de utilizar o Porto Ilha, localizado em Areia Branca, para beneficiar a fruticultura, tornando o escoamento da produção mais próximo das propriedades rurais. “Isso reduziria em quase 40% os custos”, destacou.

O candidato defendeu ainda um trabalho voltado para a capacitação técnica dos jovens que vivem no meio rural. “Vou transformar as áreas da Emparn [Empresa de Pesquisa Agropecuária do RN] e da Emater [Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural do RN] em centros técnicos localizados no interior do Estado, para que o jovem não tenha que vir para a cidade”, disse.

“O jovem que mora no interior vai poder ficar no campo, aprendendo a tecnologia rural, onde poderá seguir seu pai, seu avô, e integrar-se a todos num crescimento harmônico do sistema rural do Estado”, completou o candidato do PMDB.

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