Cookie Consent
Natal
Quem é Siê, dono do Morro e pivô do racha em facção criminosa do RN
Publicado: 00:00:00 - 05/09/2021 Atualizado: 10:27:19 - 05/09/2021
Ícaro Carvalho
Repórter

Apontado como um dos principais traficantes e fornecedores de drogas do Rio Grande do Norte e do Nordeste, Jussiê de Araújo Santos, 30 anos, preso na semana passada pela Polícia Civil do RN, foi um dos pivôs de um racha interno na facção Sindicato do Crime (SDC), Ele, assim como outros dois comparsas, não estava de acordo com a política da organização criminosa e entraram em “insurgência” contra os líderes. Aliado a isso, investigações da Divisão Especializada em Investigação e Combate ao Crime Organizado (DEICOR), apontam que Siê, como era conhecido, pode estar envolvido em associação criminosa com membros do Novo Cangaço, organização especializada em ataques a bancos e carros fortes.
Ícaro Carvalho
Segundo a Deicor, Siê herdou o comando do tráfico em meados de 2013. Anos depois, ele fornecia drogas para mais 4 estados

Segundo a Deicor, Siê herdou o comando do tráfico em meados de 2013. Anos depois, ele fornecia drogas para mais 4 estados

“Ele foi denunciado por integrar uma organização criminosa violenta, que rouba carros fortes e explode bancos. Foi indiciado por receptação de armamento proibido, posse de armas de uso restrito e documentos falsos. Ele tinha ligação com o Novo Cangaço”, comenta, acrescentando ainda que há suspeitas de que ele atuou em assaltos a carros fortes e a bancos, explica o delegado Erick Gomes, diretor da Deicor, em entrevista à TRIBUNA DO NORTE. 

Siê era uma das referências no tráfico de drogas no Nordeste, uma vez que, segundo as investigações, fornecia drogas para pelo menos cinco estados do Nordeste, incluindo o Rio Grande do Norte. Ele estava morando num flat de classe média num bairro nobre do Rio de Janeiro há quase dois anos, com a esposa. 

De acordo com as oitivas, o suspeito era membro do SDC e recentemente entrou em desacordo com altas lideranças da organização criminosa. Uma dessas possíveis divergências, capitaneada por ele e outros dois colegas, era o fato de que os “insurgentes” eram contra o controle que a cúpula da facção tinha sobre núcleos menores. 

"Identificamos que há três semanas houve a insurgência de um grupo de pessoas do SDC contra a postura e o modo de conduzir a facção pelo Conselho e a Final. Eles meio que se rebelaram e criaram um grupo sem facção. Eles queriam cometer crimes sem estar prestando contas, pagando mensalidade, pedindo para comprar drogas só de uma pessoa, eles queriam liberdade", explica o delegado. De acordo com as investigações, Siê tem  ligação com o Comando Vermelho (CV), facção do Rio de Janeiro que possui elo com o Sindicato do Crime e rivaliza com o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo. 

Segundo as investigações, esse racha pode ter colaborado para sua prisão em terras cariocas. Ex-colegas teriam denunciado o esconderijo dele à Polícia Civil do RN, que conseguiu fazer a prisão do traficante na semana passada, no último dia 26.

"Por conta dessas divergências entre eles, um ou outro que queira prejudicar quem está no comando, liga e denuncia mesmo, porque para ele é vantagem, já que não está conseguindo pegar o cara, a polícia vai lá e prende", explica o delegado Luciano Augusto. 

Na edição impressa da última sexta-feira (03), a TRIBUNA DO NORTE publicou reportagem informando que uma série de crimes ocorridos em Natal nesta semana poderia estar ligada a este racha e discordâncias de visões dentro do Sindicato do Crime. A Secretaria Estadual de Segurança Pública e Defesa Social (Sesed/RN) informou que está aumentando o efetivo para prevenir novas ocorrências.

Referência no tráfico

Siê, ou o Corintiano, como era conhecido, controlava todas as ações referentes ao tráfico de drogas no RN por telefone e ordens "virtuais". Ele era tido como o "Dono do Morro" em Mãe Luiza, zona Leste de Natal e "herdou" o comando do tráfico em meados de 2013, uma vez que um dos principais comparsas à época foi preso. Segundo investigações da Divisão Especializada em Investigação e Combate ao Crime Organizado (DEICOR), ele fornecia drogas, além do RN, para pelo menos outro quatro estados: Paraíba, Pernambuco, Ceará e Sergipe. 
Divulgação
Jussiê de Araújo era procurado pela Polícia Civil desde 2019

Jussiê de Araújo era procurado pela Polícia Civil desde 2019

No Rio de Janeiro, Siê morava com a esposa, que está grávida, num flat de classe média no bairro Recreio dos Bandeirantes, área nobre do Rio de Janeiro. Ele foi morar em terras fluminenses há cerca de dois anos, uma vez que estava sendo procurado pelas forças policiais para cumprimento de quatro mandados: tráfico de drogas, associação ao tráfico, posse e porte ilegal de armas. O primeiro mandado dele já transitou em julgado e é decorrente de uma apreensão de 700 kg de maconha 3kg de cocaína em Parnamirim. 

“Ele coordenava pelos meios convencionais, como telefone. Ele tinha os soldados dele aqui e aprendeu a transportar drogas, não sabemos ainda como era o fluxo. Ele tinha contato com o Comando Vermelho, pegamos ele tendo relações com o CV e isso vai dando habilidade ao sujeito, e em virtude disso ele foi criando a expertise da distribuição de drogas em cinco estados. A força dele era na Região Nordeste, ele tinha muita capilaridade para distribuir a droga", comenta o delegado Luciano Augusto, da Deicor, que atuou nas investigações.

Essa capilaridade a qual os delegados se referem é no tocante aos contatos e ligações com representantes do tráfico em outros estados e conhecimento relativo a rotas de facilitação para escoamento de drogas. De acordo com as oitivas, Siê, do Rio de Janeiro, coordenava o tráfico em Mãe Luiza e em outros estados. 

“Ele planejava rotas, contato com as pessoas para chegar lá. Ele provia os meios de transporte para a droga chegar lá. É uma logística complexa para funcionar”, aponta o diretor da Deicor. 

“Dono do Morro” era procurado desde 2019

De acordo com investigações da Polícia Civil do Rio Grande do Norte, Jussiê de Araújo Santos entrou no tráfico de entorpecentes em meados de 2010. Nascido e criado em Mãe Luiza, trabalhava ao lado de outro renomado traficante, que à época, era o principal nome no bairro para distribuição de drogas, segundo a Polícia Civil. Nos últimos anos, com esse traficante preso, Siê foi “ganhando musculatura”, segundo o delegado Luciano Augusto, ele cresceu e passou a ser uma das referências no tráfico em Natal.

De acordo com a PC, ele estava sendo um dos últimos procurados pela investigação após operações da DEICOR decorrentes de 2019. Uma delas aconteceu na cidade de Taipu, em fevereiro. À época, a Polícia investigava um grupo suspeito de assaltar bancos e carros de transporte de valores. Após se dirigir ao local onde a quadrilha se encontrava, os policiais foram recebidos a tiros pelos criminosos, que fugiram em seguida. Siê, por exemplo, era um dos que conseguiu escapar. Segundo as investigações, eram pelo menos 19 membros dessa quadrilha nesta fuga.

A Polícia apreendeu 13 armas de fogo, sendo 05 fuzis, 03 escopetas calibre doze, 05 pistolas, pelo menos 3.000 munições, explosivos, 10 coletes balísticos, 09 rádios comunicadores e grampos. 

Dois meses depois, Siê foi localizado em uma festa em uma mansão no litoral Sul potiguar, na praia de Búzios. Nesta ocasião, havia uma festa de aniversário de um foragido da justiça com 10 mandados de prisão em aberto. Cerca de 30 pessoas chegaram a ser conduzidas à delegacia, houve troca de tiros, mas o suspeito conseguiu escapar. Com as investigações em seu encalço, ele se mudou para o Rio de Janeiro, onde morava há quase dois anos.


Leia também

Plantão de Notícias

Baixe Grátis o App Tribuna do Norte

Jornal Impresso

Edição do dia:
Edição do Dia - Jornal Tribuna do Norte