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Sidarta Ribeiro: 'A única forma de garantir acesso à medicina canábica é legalizando'
Publicado: 08:00:00 - 06/06/2021 Atualizado: 08:08:19 - 06/06/2021
Isaac Lira
Editor de Natal

Sidarta Ribeiro é um neurocientista singular: cita Jorge Luís Borges, joga capoeira e é leitor de Sigmund Freud. Dentro do seu campo de conhecimento, foi um dos responsáveis por abrir o debate científico acerca dos muitos e cada vez mais variados usos da Cannabis medicinal. Ele será um dos palestrantes do Fórum Delta9, um dos maiores fóruns voltados para a temática da Cannabis no Brasil,  produzido em parceria com a ONG Reconstruir. A sexta edição do evento começa na próxima segunda, dia 07, e vai até a quarta, dia 09. Na programação, temáticas como o uso da cannabis para tratar as sequelas da covid-19.

Alicia Patriota


Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, Sidarta Ribeiro fala sobre os avanços no uso da cannabis medicinal, as dificuldades por conta do preconceito com a substância, os muitos negacionismos científicos do momento, entre outros assuntos.

O senhor tem dito em entrevistas que a cannabis estará para a medicina do século XXI como os antibióticos estiveram para o século XX. Por quê?
A Cannabis é um remédio muito antigo e a planta foi selecionada artificialmente por inúmeras gerações dos nossos ancestrais para gerar uma série de efeitos terapêuticos, que por sua vez estão baseados numa série de moléculas, como os cannabinoides, que são contidas na planta. Então, é um remédio que foi otimizado ao longo de milênios e que depois foi proibido.  Quando passou a não ser proibido, ocorreu essa grande descoberta da ciência desses efeitos, que na verdade eram conhecidos ancestralmente em outras medicinas, como a chinesa, a hindu, e que deram origem à cannabis. Ela foi uma planta transformada geneticamente ao longo do tempo pelo contato com os seres humanos. O primeiro relato científico da efeito antiepilético da cannabis é de 1843. E ainda hoje pacientes com epilepsia e  familiares de pacientes com epilepsia não conseguem acesso adequado à Cannabis medicinal para tratar a epilepsia. A Cannabis tem aplicação médica para inúmeros transtornos e doenças, além da epilepsia. Dores refratárias a tratamentos e ansiedade. Câncer também. E não apenas nos efeitos colaterais da quimioterapia e da radioterapia, mas efeitos antitumorais dos canabinóides e sinérgicos, da combinação dos canabinóides. Mal de Alzheimer, Doença de Parkinson, Doença de Crohn, autismo. É uma explosão científica e biomédica de conhecimento. Isso está transformando a medicina do século XXI rapidamente, como os antibióticos transformaram medicina do século XX rapidamente, mudou muita coisa, e isso está acontecendo também em vários países bastante desenvolvidos. Nos Estados Unidos, Canadá, vários países da Europa, Israel, e é claro que o Brasil vai caminhar nessa direção, mas muito atrasado.

Como está no Brasil?
O mercado de Cannabis medicinal está na mão de duas empresas. Então, a gente tem um oligopólio formado há três anos. Há três anos tem remédio à base de cannabinóide na farmácia, mas com um custo que exclui a maior parte da população. Um frasco de 30 ml sai a mais de R$ 2,5 mil. A maconha medicinal já está legalizada para os ricos. Mas não é acessível para os pobres e para a classe média. É disso que se trata o debate atual, tanto no debate público, que é o próprio papel do Fórum Delta9, quanto  o debate no Congresso. É um absurdo completo que essa medicina tão antiga, tão eficaz e tão importante para a saúde e mesmo para economia de tantos países desenvolvidos seja cerceada no Brasil.

No fundo, o preconceito, o estigma, sobre a Cannabis acaba por dificultar o acesso ao uso medicinal?
Exatamente. A única forma de garantir o acesso da população à medicina canábica é legalizando, regulamentando, a maconha medicinal e permitindo a criação de um ecossistema realmente diverso de atores. Já estão aí as grandes empresas. Tem que permitir as pequenas empresas, as microempresas, e é preciso garantir o direito pleno das associações de pacientes, ou de familiares, sem fins lucrativos e também do cultivo doméstico. Ninguém deve ser obrigado a pagar caríssimo por um remédio que é muito barato e pode ser produzido em casa, como tantas pessoas já estão fazendo no Brasil porque têm habeas corpus para fazê-lo e produzem o seu remédio, a preço de custo, em casa, com o auxílio de grupos de pesquisa, como o da UFRN, da UFRJ, que dosam aa substâncias e podem informar aos médicos como a posologia pode ser feita. Isso já está acontecendo e a UFRN é uma  das pioneiras. Mas é preciso ir além. O número de pessoas com habeas corpus está crescendo, contudo ainda é um grupo muito restrito, se a gente pensar na população brasileira como um todo. Volto a fazer a pergunta: por  que uma pessoa rica pode ir à farmácia, há 3 anos, comprar um remédio à base de THC e CBD e as pessoas pobres estão tomando tiro por causa de THC e CBD?

A maior dificuldade é política?
É uma dificuldade política. Foram muitas décadas de fake news contra a maconha. Um remédio importante foi transformado numa erva do diabo enquanto outras drogas foram glorificadas, como o álcool e o tabaco. Nós conseguimos trazer o tabaco para onde ele deveria estar, que é regulamentado, mas não proibido. Foi feita a regulamentação, foi proibida a propaganda, criou-se a informação médica dos danos, criou-se a restrição do local de uso e as pessoas que quiseram continuar usando, tiveram a liberdade de continuar. Houve redução de consumo com uma política inteligente de regulamentação. É preciso fazer isso com o álcool, porque não tem esclarecimento no rótulo sobre os riscos, ainda existe propaganda na televisão. A sociedade glorifica algumas drogas e demoniza outras. A maconha foi demonizada, sendo uma planta com diversas aplicações. Existe neste momento uma revolução científica e médica em torno da maconha e o Brasil precisa acordar para isso. A Cannabis medicinal é solução para a saúde pública, porque é remédio barato com uma base científica sólida. Mas o debate é difícil no Brasil porque as pessoas não querem se informar. Quase todo mundo acredita, por exemplo, que maconha mata neurônio. É uma mentira. Maconha produz novos neurônios. E é justamente por isso que os jovens devem se abster do consumo, porque eles já possuem muitos neurônios e muitas sinapses. E por isso que ela é tão útil na geriatria, resgatando a cognição dessas pessoas.

Estamos num momento onde há muitas teorias negacionistas ganhando espaço na sociedade. O combate à covid é um exemplo, mas também o terraplanismo, o movimento antivacina. O senhor vê uma crise de legitimidade da ciência ou pelo menos uma dificuldade de convencer as pessoas?
Acho que é um momento muito perigoso. Acredito fortemente no progresso humano e acho que a gente vai escapar desse perigo. Mas a gente tem que ter clareza de que não se trata simplesmente da engenhosidade das narrativas negacionistas, no sentido da imaginação, de como elas capturam. Tem uma questão de fundo que é o analfabetismo científico no Brasil e o analfabetismo stricto senso, a quantidade enorme de pessoas que leem muito mal. O fato de que a educação é sucateada, que as professoras e professores do magistério ganham tão pouco e possuem uma quantidade enorme de alunos na sala. Existe um desinvestimento na educação pública há pelo menos 6 anos. Se as pessoas tivessem educação de alta qualidade, elas não iam acreditar em coisas idiotas. Elas não iam aceitar qualquer informação, sem checar a fonte. Essa falta de crítica está na base da discriminação de fake news. É muito importante para quem está empenhado em destruir o Estado brasileiro e a educação pública que as pessoas continuem sem parâmetros para avaliar a veracidade de uma afirmação.

O senhor falou no ano passado que a ciência brasileira estava na UTI. De lá pra cá, os investimentos públicos vêm caindo. Continuamos na UTI?
Desde que houve o golpe contra Dilma Rousseff, o grupo político que tomou o poder está destruindo o Estado brasileiro. Uma maneira eficaz para isso é destruir a capacidade de criação de conhecimento. Estão solapando o CNPq, a Capes, a Finep. É uma situação muito perigosa. Estamos no limite da democracia.

O Instituto do Cérebro tem cerca de 10 anos. Hoje, há dificuldades de financiamento, de estrutura?
Todos os laboratórios de ciência do Brasil passam por dificuldades com falta de bolsa, falta de insumo, falta de editais sendo lançados. Uma situação bastante precária.

Há uma aproximação entre o seu trabalho e a psicanálise, as ideias de Freud. Como essa aproximação é vista dentro do seu campo de estudos, a neurociência?
As coisas estão mudando rapidamente. Freud e Jung e a psicologia de profundidade como um todo foi excluída das ciências biomédicas no século XX e isso tem mudado nos últimos 20 anos. Tem artigos científicos publicados na Science que citam Freud na primeira linha e estão corroborando teorias freudianas, como por exemplo a noção de supressão e de repressão de memória. Mas também há estudos que corroboram noções freudianas ou junguianas sem saber disso. Porque eles foram ostracizados do meio acadêmico biomédico por muitas décadas. Nos últimos 20 anos, mais e mais evidências se acumulam corroborando várias evidências importantes, como por exemplo os restos diurnos do sonho, um postulado freudiano, e que está muito bem demonstrado em vários níveis, a nível psicológico, eletrofisiológico. Eu até falo disso no meu livro O Oráculo da Noite. É muito importante que essas barreiras entre diferentes campos de saber sejam dissolvidas. É muito importante que quem estuda o cérebro leia Freud e Jung e que quem gosta de Freud, Jung, Lacan, Melanie Klein e Reich leiam neurociências e entendam mais sobre o cérebro.

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