Simples assim

Publicação: 2020-09-27 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

A crônica há de ser, sempre, um pequeno e despretensioso texto na sua tão velha pobreza de literariedade, como dizem os críticos. Nasce em silêncio e vive na solidão. Nas dimensões da feitura ou da leitura, e até nisto a sua rima é pobre. O que a salva do abismo é ser passageira. Seu sucesso e seu insucesso são efêmeros, duram só algumas horas e depois morrem nas páginas grandes e soltas do jornal. Poucos minutos de vida, e já agoniza, tristemente, no cesto de lixo.

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A crônica é como a arte, na visão do poeta Ferreira Gullar, ao advertir que, mesmo pobre e pequena, só existe porque a vida não basta. Há os grandes cronistas que merecem vê-la na letra de forma do livro e lá encontram a permanência que o jornal lhe nega, mas são poucos. De nós outros, a crônica nasce e morre no mesmo dia. Muito raramente um leitor recorta e guarda dentro de um livro, e ali vai amarelando e perdendo todo o frescor das palavras, de tão inúteis.

Depois, a crônica tem um defeito de origem, congênito: ela é incapaz de resolver um problema, conquistar uma vitória ou realizar desejos. Principalmente nas almas sadias e fortes, livres da incerteza. No mais, e como as flores de antigos sonetos parnasianos, a crônica fenece ao primeiro toque do olhar, se o leitor não vai até a última palavra. De vida breve, talvez aquela pouca cinza fria do poema de Manuel Bandeira, para roubar, docemente, sua tão bela expressão.

A crônica, pois, é quase nada. Nasce e vive ali, num canto de página, e sequer promete compreender as coisas do mundo, principalmente se esse mundo ficou incompreensível para os olhos de um cronista lírico. Alguns ao menos acreditam que a crônica sempre traz as notícias da alma e que a vida, a seu modo, é também o jornal das mais íntimas sensações. Feito de tudo quanto não serve para iluminar o coração dos tolos, os imprestáveis para os mistérios da vida.

Quem melhor compreendeu essa humildade, e a fez recheada de uma pouca glória, mas sincera, foi Antônio Cândido, quando a viu como a literatura ao rés-do-chão. A tratar das coisas da vida besta, no dizer de Mário de Andrade diante dos poemas quando muito simples. E assim é a crônica. Como um barco. Ao içar as velas e enchê-las dos ventos que levam ao mar profundo, deixa no cais as pedras que as velhas águas alisam numa cerimônia feita de silêncio e solidão.    

O cronista é como o sapateiro, não deve ter a pretensão de ir além do sapato. Mas que o faça bem feito no seu artesanato. A sola bem cortada no fio da quicé, sobretudo, bem pregada, na batida da pregaria, e que não se desfaça no primeiro passo da leitura. Mas, se por acaso não for possível, que seja ao menos, sempre bem sincera, no pequeno destino que lhe coube ter. Posto que a vida, como um dia avisou o poetinha Vinícius de Morais, não é de brincadeira não...

AVISO - Agora faço como os gauleses diante do aparentemente impossível: acredite se puder. O ex-senador José Agripino incentivou a chapa única, com Alysson Bezerra e Cláudia Regina.

ALIANÇA - Embora discreto e disposto a não quebrar o silêncio, Agripino incentivou a Regina ser a vice de Bezerra na aliança que os números mostram ser capaz de derrotar Rosalba Ciarlini.

REAÇÃO - Na avaliação de quem tentou ajudar na união dos dois, Cláudia Regina reagiu como se cumprisse o desejo messiânico de derrotar Ciarlini. E como quem quer acertar velhas contas.

SILÊNCIO - Engolfadas nas espumas dos seus próprios egos, as instituições ditas culturais vão deixando passar em branco injusto os centenários de D. Eugênio Sales e Vingt-un Rosado.

MÁGOA - É forte a mágoa da ex-deputada federal Sandra Rosado com o segundo veto do primo Carlos Augusto ao nome de sua filha, a ex-deputada Larissa, para ser a vice de Rosalba.

MAIS - Segundo fontes das sacristias de Santa Luzia, o Rosado não é tão rancoroso quanto se pensa. Mais rancor tem os Escóssias. E isto posto, avisam:  Rosalba e Sandra são Escóssias.  

AVISO - Torno a repetir, a quem interessar possa, agora que já são cinquenta anos neste ofício de jornalismo a vida inteira, tão velho e simples: esta coluna não afronta, nem teme a ninguém.

SIM! - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, depois do quinto uísque, fulminou com uma frase a crítica contra os políticos: “Ficou fácil entender como é difícil confiar no PT”.

POESIA - Bom e bonito, por dentro e por fora, o livro de poemas de Alexandre Alves que nas horas graves é mestre e professor do curso de Letras da Universidade estadual, UERN. É pós-graduado em literatura, crítico literário, bom tradutor, e um estudioso da poesia que se faz aqui.

ALIÁS - Seu novo livro - ‘Ossos da Urbe’ - é um belo exemplo do charme editorial da ‘Sol Negro’. Uma tiragem de apenas setenta exemplares, numerados e assinados pelo autor, com um bom gosto poético e gráfico que não é comum nesta brava e velha Aldeia de Felipe Camarão.

LÉSBICAS - É justo que tenham seu Dia de Visibilidade. Mas aqui, nunca foram invisíveis.  Um dia, discriminadas, injustamente, Berilo Wanderley, bem humorado, prestou solidariedade na sua Revista da Cidade, nesta Tribuna: “Não sou contra. Eu e elas gostamos das mulheres”.