“Só vamos avançar se o Estado fizer a parte dele”

Publicação: 2012-04-01 00:00:00
Andrielle Mendes - Repórter

O futuro da Agropecuária  potiguar preocupa, na avaliação da Federação da Agricultura e Pecuária do Rio Grande do Norte (Faern), vinculada a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Produtores rurais e criadores tem enfrentado uma série de problemas dentro do estado. Entre eles: atrasos no pagamento do programa do leite, deficiências na vacinação contra aftosa e alto endividamento. Soma-se à isso,  a possibilidade de um inverno abaixo da média. “A Empresa de Pesquisa Agropecuária do RN (Emparn) diz que começará a chover na região Oeste, Central e no Sertão em abril. Caso isso não ocorra, vamos ter um ano muito ruim para o setor no estado”, afirma José Vieira, presidente da entidade. O Rio Grande do Norte corre mais uma vez o risco de seguir na contramão do país. A produção nacional deve continuar subindo nos próximos anos. “O setor agropecuário mantém a balança comercial positiva há 15 anos. O Brasil só foi o último a entrar na crise e o primeiro a sair devido ao setor agropecuário. Já no RN, enfrentamos uma série de problemas”, resume Vieira.
José Vieira, presidente da Faern: A federação espera que o governo crie um calendário e que reavalie o custo de produção de leite no estado. Com o que recebe, o produtor não consegue pagar os custos de produção.
A Faern acaba de participar de uma reunião com o Ministério da Agricultura sobre febre aftosa. Qual o resultado da reunião?

Na reunião, o Ministério mostrou que a Paraíba e o Rio Grande do Norte não vão avançar – de área de risco médio para área livre de aftosa com vacinação - neste primeiro momento. O maior impacto será na festa do boi, onde há trânsito de animais de outros estados. Ninguém vai querer trazer os animais para cá. A situação do RN também pode servir  de argumento para os países não comprarem produtos potiguares. Eles podem questionar: “no RN, o risco é médio. Mas em todos os outros não. Como será o controle sanitário do Rio Grande do Norte?”. Nós, produtores rurais, pedimos ao governo do estado que faça o seu dever de casa. Uma auditoria realizada em julho de 2011 pelo MAPA mostrou que o estado ficou aquém do esperado. O Ministério elaborou um plano de ação, mas o governo do estado também não conseguiu cumprir. Depois, a governadora assinou um termo, se comprometendo a resolver os gargalos dentro do instituto de defesa do RN, mas não vimos nenhuma ação concreta. Só vamos avançar se o estado fizer a parte dele.

Esta nova auditoria seria realizada na próxima campanha de vacinação?

Não. Esta nova auditoria será realizada na hora que o estado tiver condições de recebê-la.

Algum passo concreto?

Temos informações que o telefone do Instituto de Defesa e Inspeção Agropecuária do RN (Idiarn) continua cortado, que faltam guias de trânsito para os animais, que o combustível não é suficiente, que o Idiarn está sem diretor presidente e sem diretor técnico. 

Ainda existe risco de rebaixamento?

O RN seria rebaixado de acordo com a auditoria realizada, mas o governo federal não permitiu. O rebaixamento de um dos estados seria um desastre para a imagem do país. Pela auditoria, não dava para o RN ficar nem como área de risco médio. O secretário estadual de Agricultura, Betinho Rosado, participou da reunião e foi informado da grandeza do problema. Acredito que ele vai mobilizar a equipe e contornar a situação.

Como avalia o prejuízo?

Acredito que haverá prejuízos, não a curto, mas a médio e longo prazos. A situação é ruim para os criadores e para a economia de uma forma geral, pois dificulta a entrada de genética no nosso estado. Vamos ficar atrasados.

Os atrasos no pagamento do programa do leite também tem afetado os produtores...

A cadeia do leite vem sofrendo com a falta de pagamento desde o final do governo passado. O ano de 2011 foi muito ruim para o setor.  A produção do estado vem caindo nos últimos dois anos, em função de vários fatores. Em 2010, tivemos a seca. Em 2011, o atraso no pagamento. O governo ainda não conseguiu organizar o pagamento do programa. Isso tem desestimulado os produtores, que precisam vender os animais para honrar os compromissos. O governo voltou a pagar semana passada. Nós não aguentamos ficar tanto tempo sem receber. As lojas agropecuárias, que fornecem medicamentos e ração, começam a travar o fornecimento à medida que não pagamos. Tudo isso vai criando dificuldade. A federação espera que o governo crie um calendário e que reavalie o custo de produção de leite no estado. Com o que recebe, o produtor não consegue pagar os custos de produção. Há mais de oito anos, o programa do leite não sofre reajuste. O salário mínimo aumentou, o óleo diesel aumentou, a energia elétrica aumentou, os insumos aumentaram. Tudo aumentou, mas o leite não. É preciso realizar um estudo para chegar a um preço mais justo. O governo do estado precisa atrair indústrias, para que nós produtores não fiquemos dependentes do estado. O governo precisa atrair grandes indústrias de laticínios, como o Ceará e Pernambuco estão atraindo. Precisamos fazer com que elas também venham para cá.

A Associação dos Criadores  estimou que a produção chegou a cair quase 50%. Como retomar a produção?

O estado deve estar produzindo entre 300 e 350 mil litros de leite por dia. Antes do atraso, produzíamos de 450 a 500 mil litros – redução de 30%. Retomaremos este espaço com ações concretas do governo do estado. A Faern, o Serviço de Aprendizagem rural (Senar), o SEBRAE e o Banco do Nordeste estão trabalhando no programa Balde Cheio, fazendo com que os produtores se especializem. Mas precisamos dar garantia de compra. O produtor precisa ter para quem vender o leite. Se não, não tem como acreditar na atividade e investir em qualificação. O Senar também está estimulando o empreendedorismo no campo. No ano passado, o Senar fez mais de 500 cursos de qualificação no ano passado, atendendo mais de oito mil produtores.

Em 2011, o PIB brasileiro cresceu 2,7%, mas a indústria de transformação, cujo desempenho costuma sinalizar o aquecimento da economia, não cresceu. Como foi o ano de 2011 para a Agropecuária?

O setor agropecuário mantém a balança comercial positiva há 15 anos no país. Se o Brasil foi o último a entrar na crise e o primeiro a sair foi devido ao setor agropecuário. No RN, enfrentamos um problema. Para melhorar nossas exportações, precisamos de um porto. O porto de Natal não atende a demanda do nosso setor, por vários motivos. Um deles é a localização. Nosso porto está encravado dentro de Natal e é limitado no seu espaço. Além do mais, os estados vizinhos ressarcem o exportador, através do cumprimento da lei Kandir. O RN não. Isto também faz com que nossos produtos sejam exportados  por Suape, em Pernambuco, ou Pecém, no Ceará. As exportações de frutas do RN estão em declínio. Já as exportações dos outros estados em ascensão. Precisamos urgentemente reverter isso. Eu só acredito num RN forte e pujante com um novo porto – fora de Natal. Não temos condição de receber grãos nem de exportar minério. O RN só vai encontrar seu desenvolvimento pleno com um novo porto.

O que esperar de 2012?

A nível de Brasil, o setor agropecuário vai alavancar o crescimento do PIB mais uma vez. Em 2008, por exemplo, 48% das exportações brasileiras eram do setor agropecuário. O setor tende a crescer, junto com o mercado interno. Antes exportávamos boa parte das frutas e do camarão, por exemplo. Hoje não mais, em função da balança comercial. O mercado interno está pagando melhor que o internacional. Então a tendência é aumentar as vendas no mercado interno e tentar crescer as exportações. No RN, vamos ter incremento na produção de cana de açúcar e frutas, carros chefes de nossa exportação. A não consolidação do inverno, entretanto, me preocupa.

Quando saberá se o inverno será ou não bom?

A Emparn diz que começará a chover na região Oeste, Central, no Sertão em abril. Caso isso não ocorra nos próximo 20, 30 dias, vamos ter um ano muito ruim para o setor no estado.

E ainda considerando os atrasos no pagamento do programa do leite e a classificação do MAPA quanto a febre aftosa..

Falência total. Mas já estou conversando com autoridades para saber o que pode ser feito. A situação é muito preocupante.

Vamos falar de empregos...

O desempenho em fevereiro foi melhor que o de  janeiro. Isso é fruto do incremento na fruticultura e no plantio de cana de açúcar. O saldo de empregos – diferença entre contratados e demitidos - não ficou positivo, porque já entramos na entressafra de alguns produtos, e neste período, muitos empregados são dispensados. Mas muita gente permaneceu na vaga, plantando.

O novo código florestal está prestes a ser votado. O RN participou ativamente da elaboração do texto final. Como avalia este novo passo?

O Código Florestal é fruto de um consenso. Ele dará segurança jurídica aos produtores. Se o código florestal, elaborado na década de 60, fosse aplicado, mais de 90% dos produtores estariam na ilegalidade. Os parlamentares do RN tiveram um papel importante, porque colocaram um capítulo adicional sobre Apicum, salgado e mangue, isso nos deu segurança a respeito da produção do sal, camarão e turismo.

Os pequenos produtores reclamam do acesso ao crédito. Este tipo de queixa já chegou a Federação?

Recurso existe. Difícil é ter acesso. O produtor rural está muitas vezes inadimplente com os órgãos financiadores. Porque o produtor não paga?  Porque não tem condições. Precisamos resolver a questão do endividamento rural. Mais de 30% dos nossos produtores rurais estão com problemas em relação a crédito. Queremos que eles sejam autossustentáveis. Eles só vão pegar um novo financiamento, depois que pagar o anterior. Outra coisa que me preocupa é a insegurança no campo. O número de ocorrência está subindo – assaltos, entrada do crack, roubo de animais, uso de defensivos agrícolas. Hoje, o campo não é mais sinônimo de tranquilidade. Os produtores não conseguem sequer dormir em suas propriedades com medo de assalto. Temos alertado o governo, pedido apoio. Se na cidade não tem segurança, imagine no campo. Isso faz com que as pessoas deixem a zona rural, que deixem de produzir. Se não há educação, saúde nem segurança, quem vai querer permanecer lá? O desenvolvimento não pode acabar onde o asfalto termina. Comida não se produz em prateleira de supermercado. Se produz é no campo.

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