Sobe e desce na ladeira de Marpas

Publicação: 2019-03-03 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Ramon Ribeiro
Repórter

Descer em velocidade máxima ou subir sem se levantar do selim. Para o empresário Aurino Araújo, esses eram alguns dos desafios de sua infância, quando explorava as ladeiras de Natal de bicicleta. De todas as ladeiras da cidade, a que ele tem uma ligação mais forte é a Ladeira de Marpas, na descida de Petrópolis para Ribeira. Mas Aurino, de 78 anos, é do tempo que o declive tinha outro apelido. “A descida era conhecida como a 'ladeira do gozo do padre'. Se dizia assim em referência ao padre que vinha no ônibus e quando chegava na descida dava aquele gozinho rápido”, conta o empresário, lembrando do friozinho na barrida gostoso que a ladeira dá.

Na infância, o desafio era descer a a Cordeiro de Farias sem acionar o freio, ou subir a rua sem ficar de pé na bicicleta
Na infância, o desafio era descer a a Cordeiro de Farias sem acionar o freio, ou subir a rua sem ficar de pé na bicicleta

O apelido Marpas a descida ganhou pela força da marca da concessionária Volkwagen, há décadas instalada no pé da ladeira. Foi nessa empresa que Aurino fez história, se tornando um dos maiores nomes do ramo automotivo potiguar. E foi pela janela de seu escritório na empresa que ele observou por mais de 40 anos a ladeira.

Nesta entrevista o empresário lembra de episódios ocorridos na ladeira, conta também histórias da Ribeira que ele viu com olhos de menino recém-chegado em Natal, vindo de Jardim de Piranhas. “Peguei a época da transição da Ribeira, quando ela foi perdendo a importância para outros bairros. Foi o momento da subida da ladeira, quando as lojas, os bancos, começaram a se instalar na Cidade Alta”, comenta Aurino. “Mas a Ribeira não morreu não. Ela mudou”.

Outro assunto que não pôde ficar de fora é a paixão do empresário por Fuscas. Aurino estima que somando todos os Fuscas que já teve dá quase 100. Mas ele não se define como um colecionador. Seu apreço é por andar de Fusca, e não apenas tê-los guardados na garagem. Sua garagem, por sinal, conta com apenas cinco fusquinhas, cada uma com uma história curiosa por trás e todos valor inestimável.

A Ladeira
A aventura da turma que andava de bicicleta comigo nos anos 50 era descer a ladeira da Rádio Poti e emendar na Ladeira de Marpas. Era uma descida incrível. Um desafio nosso também era subir a ladeira sem se levantar do selim. A gente descia tudo que era ladeira de Natal. A Ladeira do Sol eu alcancei ela ainda no tempo que era de pedra marroada. A do Baldo também era outra descida famosa. Uma das provas para ser aceito no grupo era descer a ladeira do Baldo sem freio. Lembro também da ladeira da Rio Branco. Durante muito tempo ela foi de pedra marroada. Foi no pé dela que se instalou a primeira loja de carros usados de Natal. A loja de Jaime Matoso. Antes o comércio de carros usados era feito na rua, e a Tavares de Lira era o principal centro de negociações.

A ladeira e suas tragédias
Num tempo que acidentes de carro era raros na cidade e por isso repercutiam bastante, eu acabei testemunhando alguns bem pavorosos nessa ladeira. Meu escritório ficava no outro lado da rua, na esquina, tinha um janelão voltado para a ladeira. Via tudo que acontecia. Lembro de um caminhão carregando um trator que ao chegar no cocuruto da ladeira travou. O trator se desprendeu e veio descendo, só não se fez uma tragédia porque bateu num poste e perdeu velocidade. Também da janela assisti uma batida de carro horrível. Um Fiat subindo e uma Quantum descendo. A Quatum pegou a contramão e acertou o Fiat de frente. O carro ainda entrou em uma das lojas da ladeira, pegou em cheio uma pessoa. Outro desastre pavoroso foi o de dois rapazes de uma família conhecida na cidade. Vinham de uma noitada e desceram com velocidade a ladeira, entrando na traseira de um caminhão estacionado na rua. Um dos rapazes morreu na hora. Foi um acidente que repercutiu bastante.

Presença americana
Cheguei em Natal em 1947. A Ribeira ainda tinha uma forte presença americana. A primeira coca cola que tomei foi no clube de oficiais. Garrafinha pequena, de vidro, o líquido preto preto. Lembro que o carnaval ainda era na Tavares de Lira, e a rua ainda era palco de comícios políticos. Lembro também de ver os aviões catalina da força aérea americana e brasileira pousar no Potengi. A meninice daquela época se enebriava ao ver um navio aportar na Ribeira, ver o trem. Para um menino que veio do interior, tudo isso era uma grande novidade.

O empresário Aurino Araújo observou o vai e vem da famosa ladeira, que por mais de 40 anos levou o “apelido” de sua empresa
O empresário Aurino Araújo observou o vai e vem da famosa ladeira, que por mais de 40 anos levou o “apelido” de sua empresa

Fogo na loja de brinquedos
Aqui na Ribeira tinha uma loja da 4400. Ficava na esquina da Tavares de Lira com a Frei Miguelinho. Lembro de quando a loja pegou fogo. A 4400 era uma loja de brinquedo, tudo de plástico. O incêndio só não pegou a Ribeira inteira porque tinha uma corveta atracada no porto. O pessoal da corveta ligou as mangueiras para apagar o fogo. Foi o que salvou.

O Beco da Quarentena
Quando a gente estava entrando na adolescência a prova de masculinidade era atravessar o Beco da Quarentena depois das 10h da noite. Ficava uma turma de um lado do Beco e outra, do outro. O Beco era cheio de marinheiros de todas as nacionalidades, malandros, cachaceiros, prostitutas. O pau quase sempre cantava lá. E a gente, garoto, atravessava tudo isso.

A carne assada mais famosa de Natal
Uma coisa que não tem mais na Ribeira são bons restaurantes. Lembro do Panorama, nas Rocas, a Palhoça, com piso de palha, a Carne Assada do Lira, no começo da vila ferroviária. A Carne Assada do Lira era conhecido nacionalmente. As autoridades que visitavam Natal eram sempre levadas para almoçar lá. O proprietário era bem quisto pela sociedade. Depois do Lira, o Marinho, que chegou a trabalhar para ele, abriu um outro restaurante de carne assada muito bem frequentado.

Os quase 100 Fuscas
Já possui perto de 100 Fuscas ao longo da minha vida. Mas não sou colecionador. O colecionador é o cara que prima pelo detalhe. Eu não. O que eu gosto mesmo é de andar de Fusca. Não ligo para a aparência, a cor. Me preocupo se o Fusca está em ordem de marcha. Hoje estou com cinco Fuscas na garagem. Antes eram 12, mas vendi. Tinha um mecânico velho que ajeitava. Ele adoeceu, ficou sem condições, acabei ficando sem ânimo pra cuidar de tanto carro. Vendi e fiquei só com cinco. Ando neles todo dia, geralmente à noite.

Se meu fusquinha falasse
O Fusca é um fenômeno industrial. Nos Estados Unidos é onde os caras são mais apaixonados. Mais do que na Alemanha, onde foi criado. No Brasil ele explodiu nos anos 60. Lembro de um filme que a  Volksvagem exibia nos cinemas: “O nascimento de um automóvel”. Era um curta de 15 minutos, institucional, era exibido antes dos filmes. Assisti no Cine Rio Grande. Tem umas cenas que você não esquece, como a de uns cinco carrões e um Fusca nos Alpes. Tudo coberto de neve. Enquanto os donos dos outros carros não podiam fazer nada porque o frio congelou o motor, o dono do Fusca simplesmente tirou a neve do para-brisa e foi embora. Depois essa situação aconteceu comigo. Estava indo de Fusca para Punta del Leste. Não deu pra ir até o final porque o tempo fechou quando chegamos no Rio Grande do Sul. Mas lembro de estarmos numa garagem subterrânea em Caxias do Sul e os cara tudo com fogueira debaixo dos carros pra esquentar o motor. A gente de fusquinha não precisou de nada disso.

Cada carro tem uma história
Tenho um Fusca que comprei de um oficial da Aeronáutica lá de São Paulo que ao pegar o carro vi que tinha uma pasta dentro. Simplesmente a pasta continha a história todinha do carro, desde que saiu da fábrica até chegar a mim. É um Fusca 97. Uma vez publiquei uma crônica sobre esse carro aproveitando todos esses detalhes da pasta. Mandei o texto para o antigo dono. Né que ele me mandou uma carta de volta. Disse que ficou puto da vida com o filho por ele ter vendido o carro. “Doe-me o coração”, escreveu. A carta foi acrescentada à pasta.



continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários