Sociólogo potiguar escancara a classe média em novo livro

Publicação: 2018-12-07 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

O sociólogo potiguar Jessé Souza tem se dedicado a pensar a formação do Brasil para além da tese que considera o patrimonialismo como a origem dos problemas sociais do país. Para ele, é a escravidão, e não a corrupção, o gene definidor de nossas mazelas. Suas ideias estão distribuídas em mais de 20 livros, dentre os quais o sucesso “A Elite do Atraso: da Escravidão à Lava Jato” (Leya, 2017), com mais de 100 mil cópias vendidas.

Jessé Souza
Jessé Souza, Sociólogo e escritor

Doutor em Sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha), ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e atual professor da Universidade do ABC, em São Paulo, onde vive, Jessé Souza está em Natal para lançar seu mais novo livro, “A Classe Média no Espelho: sua história, seus sonhos e ilusões, sua realidade” (Sextante, 2018). Desta vez, o autor volta suas atenções para o grupo populacional que é apontado como fundamental na sociedade brasileira, fazendo sua reconstituição histórica e social. O lançamento acontece nesta sexta-feira (7), a partir das 9h, no Centro de Ciências Sociais Aplicadas da UFRN (Lagoa Nova). Confira a entrevista com Jessé feita por e-mail.

No seu novo livro você volta as atenções para a classe média. Quais seriam os sonhos e ilusões desse estrato social?
A massa da classe média, que é quase tão explorada pela elite quanto o povo, é uma classe iludida. A elite inventou o “bode expiatório” da corrupção do Estado e da política para tornar invisível o assalto, ainda mil vezes maior, praticado pela elite via juros extorsivos legalizados, divida pública cheia de falcatruas privadas, sonegação de impostos, etc. Esta é a diferença entre a corrupção real e a corrupção dos feito de tolos. Não estou obviamente, como um leitor mal intencionado ou especialmente obtuso poderia pensar, defendendo a corrupção politica. Só estou dizendo que ela é uma gota no oceano se comparada a corrupção legal ou legalizada da elite. É este saque que deixa o povo e a classe média pobre, obviamente. O comportamento da classe média, seus sonhos e ilusões, é todo montado a partir destes esquemas políticos de legitimação elitista. Esta é a grande novidade deste livro. Utilizei centenas de entrevistas para recuperar esta lição partindo da própria vida das pessoas comuns.

Quão fundamental é a classe média na sociedade brasileira?
É uma classe fundamental entre nós. Ela comanda, em nome dos proprietários, a sociedade como um todo, seja no mercado, no Estado ou na esfera pública.

Você chegou a afirmar numa entrevista que a classe média é sadomasoquista. Poderia explicar o por que?
A boca de fumo da corrupção no Brasil é o Banco Central a favor dos bancos e de quem manda no pais.  A corrupção política, perniciosa como ela é, é o aviãozinho do tráfico, mas é a única que a imprensa da elite deixa que a classe média perceba. A classe média foi feita de tola pela elite e acredita que empobreceu por conta da corrupção política. Isso não é a verdade. Ela é usada e abusada pela elite e defende esta elite sempre que a elite a chama às ruas para defender os interesses da elite e não os dela. O amor da classe média pela elite é amor de mulher de malandro, masoquista. Isso tudo fica muito claro no livro. 

Nos seus outros livros você defende que é a escravidão, e não a corrupção, que define a sociedade brasileira. É um pensamento que vai de encontro ao senso comum atual que vê a corrupção como o câncer do Brasil. Poderia dar um exemplo que ilustre sua tese?
O principal na escravidão é o ódio ao escravo, que se explora economicamente, mas que também se despreza e de quem se abusa de mil formas. Tudo isso continua hoje em dia no ódio ao pobre. Se construiu uma escola precária para o pobre, para que ele não aprenda nada de verdade e continue desempenhando trabalho desqualificado e semi-qualificado como o escravo fazia. Uma polícia que o mata impunemente, e cujo massacre a classe média aplaude, um povo sem direitos e odiado exatamente como o escravo era. Todos os golpes de Estado no Brasil nunca foram pela corrupção. Corrupção é o pretexto construído para derrubar, desde Getúlio Vargas, todo governo que diminua, por pouco seja, a miséria dos pobres e sua distância social com a classe média e com a elite. Este tipo de ordem social é, no núcleo, para quem tenha olhos para ver, escravocrata.

Acredita que algum dia a sociedade brasileira terá consciência das profundas desigualdades do país e suas consequências?
Não sei mais se acredito nisso. Uma sociedade doente e imbecilizada que elegeu seu pior e mais despreparado politico para “protestar" contra o que não entende é muito grave e pode levar a um caos sem volta. É claro que o povo e a classe média vão ficar ainda mais pobres. Tomara que haja ainda novas oportunidades de aprendizado para este povo, que nasceu tão inteligente quanto qualquer outro, mas que realmente foi feito de imbecil pela elite canalha que o domina. 

Teu livro “A Elite do Atraso” foi tema do enredo da escola de samba Paraíso do Tuiuti neste ano. O que você achou de ter servido como referência para o desfile?
Para mim não existe alegria maior que ver meu trabalho servindo como arma politica para um povo tão indefeso como o nosso. O carnaval pode e deve ter mais isso, protesto consciente, que convém mais ao seu espírito. 

É difícil interpretar o Brasil atual diante de um frenesi de acontecimentos? E mais, o debate público já foi melhor?
Já tivemos intelectuais mais combativos e políticos muito melhores. Mas a questão é estrutural. O debate público é estruturado pela imprensa e a nossa está, em grande parte, no bolso de quem tem dinheiro. Além disso, se montou uma concepção absurda e vira-lata do brasileiro que hoje pauta toda a imprensa e todo o debate público inclusive na esquerda.



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