Sociedade Anônima

Publicação: 2020-11-22 00:00:00
A coluna hoje procura clarear na mente do torcedor, em especial o do ABC, o mistério da Sociedade Anônima, nova coqueluche do clube. E foi buscar no jornalista Irlan Simões, o maior estudioso do assunto no Brasil, argumentos e exemplos do que representa o tal modelo de gestão. Que chegou como a varinha de condão para tirar o futebol da falência.

Perfeito o trecho em que ele abomina o termo investidor, como se clube de futebol fosse um miserável e não entidade valorosa. Investidor não está fazendo favor. Sempre estará explorando um negócio que, se não fosse lucrativo, ele passaria longe. Chega a ser tragicômica a caça ao endinheirado para lhe entregar administração sem limites.

É uma abordagem necessária e crua, mostrando que há espinho no jardim de prosperidade cultivado pela cartolagem. Agora, com vocês, Irlan Simões, do Portal Trivela:

Demorou, mas chegou. Coisa de 20 anos depois a pauta da transformação dos clubes em sociedades anônimas retorna. Bom, nunca deixou de estar: a lei está ali para quem quiser aderir, mas o movimento hoje é de recriá-la a partir de novos marcos para tornar a atividade “mais atrativa para investidores”, com condições mais sedutoras e estruturadas.

No noticiário, o panorama é de uma verdadeira revolução libertadora para os clubes do futebol brasileiro, que agora se abrirão para o mercado, receberão investimentos vultuosos, e passarão a ser clubes vencedores.

De alguma forma, torcedores dos 20 times da Série A, e mais alguns da Série B, estão achando ao mesmo tempo que vão ser campeões. E todo dia recebem textos, vídeos e áudios de que é isso aí, vai todo mundo ser campeão quando virar empresa. Juntos.

Nunca vi essa pauta em tal estágio de hegemonia discursiva em quase 10 anos de estudos. Incapaz de testemunhar os eventos dos anos 1990, passei a estudar o tema graças àquilo que senti na pele como torcedor de um clube que foi parar na Série C poucos anos após ser tratado como clube mais moderno do país: o Esporte Clube Vitória, o primeiro a adotar o modelo de sociedade anônima e vender a maioria das ações para um grupo de investimentos estrangeiro, o argentino Exxel Group, lá nos idos dos anos 2000.

Uma coisa que precisa ser urgentemente desmistificada é a palavra “investidor”. Esse é um termo que confunde o debate, dá contornos de ato filantrópico, salvacionista, como se não se tratassem de pessoas interessadas em adquirir uma valiosa propriedade.

Pagar dívidas

O processo inicial de saneamento de dívidas, muito alardeado como benefício imediato dessa aquisição dos clubes, na verdade deveria ser tratado como mera obrigação para quem compra uma empresa.

Ainda mais uma que já nasce com milhões de “clientes”, cujo afeto foi construído por mais de cem anos, e cuja relevância social e cultural confere ao seu proprietário um status único de visibilidade e poder.

Em agosto, o mundo assistiu chocado a história do Bury FC, clube de 134 anos, fundador do futebol inglês, excluído da liga e provavelmente levado a ter suas atividades encerradas, enquanto o seu proprietário, Steve Dale, simplesmente dizia que sequer gostava de futebol e nunca havia pisado na cidade de Bury.

Não se trata de defender o que ai está. Há, em grande parte dos clubes brasileiros, um modelo igualmente predatório de dominação do comum – que é o clube. Não há razão evidente para acreditar que o atual modelo de clubes aristocráticos, ensimesmados, com poderes encastelados em círculos restritos e elitizados seja capaz de suprir as necessidades do torcedor e do futebol.

Clubes brasileiros, mesmo que um dia decidam criar uma sociedade anônima para vender integral ou parcialmente seu ativos para um sujeito qualquer, precisam experimentar a ampliação da participação do seu torcedor nos seus rumos.

A “associação” aos moldes brasileiros sempre acompanhou a tradição autoritária e elitista que marca os processos políticos no país, de formatos restritivos, fechados, conservadores e de conchavos.

Em comparação aos países vizinhos, principalmente os países de matriz ibérica antes da adoção das sociedades anônimas, é quase vergonhoso arriscar uma comparação no grau de participação e de direitos políticos do associado.

O antagonismo aqui em questão não é “associação x empresa”. O verdadeiro antagonismo que está em jogo nessa virada para a bendita terceira década do milênio é “democracia x donos”. Porque a postura de “dono” também se estabelece em clubes incapazes de alargar se quadro social com poder de decisão.Temos no Brasil exemplos de clubes com brilhantes resultados esportivos e financeiros, a exemplo de Internacional, Grêmio, Bahia e Santos.

Foi com essa crença que torcedores argentinos atuaram de forma ferrenha contra a lei que impunha a obrigação da transformação dos clubes em empresas, exigindo posicionamentos públicos dos seus dirigentes sob ameaça de prejuízo eleitoral.Espera-se que ao menos disso os torcedores tenham conhecimento antes de botar a cabeça no travesseiro sonhando com o futuro comprador da sua S.A. Ou não, se for possível evitá-las de alguma forma(Irlan Simões).