Banda potiguar Sodoma ressurge na cena musical local

Publicação: 2020-09-17 00:00:00
Tádzio França
Repórter

A cena brasileira de heavy metal ainda era jovem quando a banda natalense Sodoma gravou seu primeiro registro: uma fita cassete demo chamada “Prisioneiros do Absurdo”. Era 1987, e o quinteto de adolescentes sonhava em mostrar seu som para o mundo. Mas uma série de contratempos impediu o grupo de realizar seu desejo. A banda acabou em 88, e o momento parecia ter passado. Até que, 33 anos depois, a velha fita foi resgatada e lançada oficialmente em CD, tendo suas qualidades reconhecidas, e contando uma parte da história musical local que permaneceu três décadas adormecida.

Créditos: DivulgaçãoNova formação tem Paulão, Hugo Albuquerque, Gil Oliveira, Wilton César e Damião Paz (bateria)Nova formação tem Paulão, Hugo Albuquerque, Gil Oliveira, Wilton César e Damião Paz (bateria)

“Prisioneiros do Absurdo” foi originalmente gravado em um estúdio caseiro improvisado, tendo Franklin Novaes, o futuro maestro, como técnico de som. Foi com esse material que o guitarrista Paulo Vianna (o Paulão) e o parceiro de banda Edu Heavy foram ao Rio de Janeiro para apresentar a música dos metaleiros potiguares à fervilhante cena sudestina. “Fomos bem recebidos pela mídia roqueira da cidade, tivemos resenhas elogiosas em revistas e entrevistas em rádios. Parecia que tudo ia dar certo”, conta ele à Tribuna do Norte.

O dono do selo e loja Rock Point ouviu e gostou do som dos potiguares. No entanto, o selo carioca fez uma exigência: a banda teria que regravar tudo em inglês. “O Sepultura já estava ganhando o mundo, e cantar em inglês era quase obrigatório na cena metal”, conta Paulão. De volta à Natal, a banda começou o processo de refazer o repertório, mas esbarraram em vários problemas. “O nosso cantor não sabia nada de inglês. Recorremos ao jornalista Rodrigo Hammer para refazer as letras”, diz. Porém, as canções ficaram tão diferentes que o cantor teve dificuldade em interpretá-las. Ele não conseguia cantar. Paulão também descobriu que ia ser pai, aos 18 anos.

Créditos: DivulgaçãoPrimeira formação tinha um quinteto de adolescentes que sonhava mostrar seu som para o mundoPrimeira formação tinha um quinteto de adolescentes que sonhava mostrar seu som para o mundo

Então veio a tragédia que abalou de vez a história do Sodoma: a morte do guitarrista Luiz Eduardo Alves, o Edu Heavy, num acidente de carro na Via Costeira, com apenas 18 anos. “Ficamos muito abalados. Éramos uma banda de jovens, sem estrutura, e já com muitos problemas nas costas. A morte de Edu esfriou de vez nossas expectativas”, diz Paulão.  A banda não resistiu e decidiu acabar em 1988.  O guitarrista voltou à cena três anos depois com o grupo Terrorzone, tornando-se uma referência do metal potiguar.

A breve história da banda Sodoma, de 1986 a 1988, parecia ter se encerrado. Até que, em 2019, Paulão recebeu o contato de um antigo sócio da Rock Point, agora à frente do selo Dies Irae, que havia ficado com aquela fitinha de 1987 guardada. “Rolou então a proposta de lançar ‘Prisioneiros do Absurdo’ em CD, mais de 30 anos depois. Era tão surreal que eu fiquei desconfiado”, conta o guitarrista. Mas a proposta era real, e fazia parte de uma tendência em resgatar velhos e bons materiais do metal dos anos 80 e 90. Esse revival já estava acontecendo com outras bandas clássicas, como Azul Limão e Taurus.

Créditos: fotos: divulgaçãoPrisioneiros do Absurdo foi o primeiro registro da SodomaPrisioneiros do Absurdo foi o primeiro registro da Sodoma

Em junho de 2020, Paulo Vianna finalmente recebeu em mãos a novíssima edição daquele trabalho que havia feito aos 17 anos de idade: “Prisioneiros do Absurdo” virou um álbum duplo, com direito a encarte (booklet) de 25 páginas, adesivo e pôster. O disco 1 apresenta as oito faixas da demo de 1987. Já o disco 2 é uma compilação de músicas inéditas em estúdio e outras capturadas ao vivo em shows no Palácio dos Esportes e Centro de Turismo. O CD inclui ainda uma entrevista na FM Transamérica.

“Prisioneiros” recebeu uma prensagem de mil cópias. A Dies Irae está divulgando o material no Brasil e exterior, com ótima recepção no Japão. O resgate deu fôlego para que a banda Sodoma também fosse retomada. Paulão é o único integrante original. Para a nova formação convocou Hugo Albuquerque (guitarra), Gil Oliveira (vocal), Wilton César (baixo) e Damião Paz (bateria). O Sodoma “revisited” ganhou perfis em redes sociais e fez videoclipes para as músicas “Fisgada letal” e “Anjos de fogo”, que podem ser vistos no Youtube.

O novo Sodoma está no modo espera para gravar um álbum. Os ensaios estavam em dia, a banda afiada, e o estúdio pago. O problema foi a pandemia. “A pandemia atrapalhou muita coisa. Não pudemos fazer um lançamento do CD, nem dar prosseguimento à gravação do novo disco. Mas está tudo na agulha”, diz. Há planos para participar de festivais nacionais e montar uma agenda de shows. O novo disco terá músicas inéditas e novas versões de outras dos anos 80.

 O Sodoma foi um dos grupos pioneiros da cena metal natalense. “Os shows eram tão raros, que acabavam juntando fãs de todos os segmentos”, conta Paulão. Musicalmente, o Sodoma se inspirava no metal moderno do início dos anos 80, como Iron Maiden, Judas Priest, Megadeath e Metallica, além do clássico Black Sabbath. As letras abordavam temas históricos, como guerreiros kamikazes, rituais fúnebres dos persas, santa inquisição, críticas políticas e sociais, e até mesmo distopias, como na música “Alucinações em 2010”. Esse futuro já é passado, mas o Sodoma renovado parece ainda ter muito a dizer nos próximos anos.

Serviço:
O CD pode ser adquirido com Paulão (98775-1520) ou no site