Carlos Gurgel, solto na paisagem poética de Areia Preta

Publicação: 2018-03-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Primeira praia oficializada para banho em Natal (em 1908), Areia Preta vivenciou ao longo de sua história um intenso processo de transformação. De pequeno vilarejo de pescadores, nos anos 20, a área foi alçada a point de veraneio das famílias mais ricas da cidade. No período da Segunda Guerra Mundial foi a vez dos soldados americanos descobrirem a praia, adotam-a como a sua Miami Beach. 
Carlos Gurgel lança CD

Nos anos 50, mais frequentada, a orla é urbanizada. Mas seu período de brilho foi nos anos 70 até metade dos 80, quando o local, que ainda preservava uma atmosfera de praia de veraneio, viveu grande agitação junto à badalada Praia dos Artistas. Foi nessa época que o folclorista Deífilo Gurgel fez morada no lugar, numa casa simples, de frente pro mar. E foi neste aposento, num quartinho dos fundo da casa, que o filho Carlos Gurgel, então com 26 anos, se descobriu para a poesia.

Com ares de praia de veraneio, Areia Preta já foi Miami Beach em tempos da Segunda Guerra
Com ares de praia de veraneio, Areia Preta já foi Miami Beach em tempos da Segunda Guerra

“Comecei a escrever mais nessa época de Areia Preta. Eram escritos bem soltos, livres, muito em cima do que vivenciava na praia.  Lá a poesia floresceu em mim”, lembra Gurgel, que antes era morador do Tirol. “Até os 16 anos morei numa casa na esquina da Escola Doméstica. Depois papai começou a mudar de casa com frequência. A cada dois anos a gente ia para uma residência diferente, sempre no Tirol. Ele adorava o bairro. Mas um dia desceu para praia”. A família morou em Areia Preta por seis anos até se mudar novamente, para o Tirol, numa casa próximo ao hospital São Lucas.

Antes de chegar a Areia Preta, no entanto, Carlos Gurgel já era figura conhecida da Praia dos Artistas. Foi ele, junto a um grupo de colegas de poetas, músicos e artistas visuais que organizaram o histórico Festival do Forte, em 1978. “Foi um tempo incrível, onde existia toda uma constelação de pessoas que trabalhavam com arte, música e poesia. Se curtia a praia e os bares”, conta o poeta. “Eu chegava na praia no sábado e só voltava pra casa segunda de manhã”.

Sobre a agitação da Praia do Artista, o desabrochar para a poesia e outros histórias que o marcaram em Areia Preta, Carlos Gurgel conversou com a TRIBUNA DO NORTE.

Uma grande chama
Enquanto o Tirol era lírico, Areia Preta era uma labareda. Tinhas bons bares, uma turma da pesada. Era um lugar arrebatados. A Ponta do Morcego era linda, tinha umas grutas que a gente explorava. Eu costumava sair andando pela praia à noite. A natureza, o mar, a lua cheia, a revolta das ondas que desde aquela época já destruía a orla, a brisa, o som do mar. Tudo aquilo era apaixonante.

A casa de Deífilo
A casa era de frente para o mar, logo depois da praça da jangada. Tinha uns três quartos, mas eu ficava num quartinho lá nos fundos. Papai recebia visitas de poetas. E eu na minha escrevendo direto. Depois papai vendeu e fomos morar perto do São Lucas. Faz tempo que não passo em frente a casa, mas até onde sei ela foi completamente reformada.

Das drogas para os versos
Antes de morar em Areia Preta eu estava num ritmo muito pesado, usando muitas drogas. Mas em um mês na praia, encontrei forças e larguei tudo. Praia pra mim é desconstrução. Quando entro no mar, esqueço de tudo. Foi mergulhado nisso que eu tive um chamamento para escrever. E escrever pra mim só serve se for para expor as feridas. Naquele tempo, construí minha escrita em cima de muitos sentimentos. Até hoje gosto de colocar as palavras dentro de redemoinhos.

Dois mundos
Era incrível, você olhava para praia e via a divisão. Em alguma áreas delimitadas estavam os moradores de Areia Preta e de outro lado estava a galera que descia de Mãe Luiza. Essa divisão me marcou muito. Havia lugares onde o pessoal se misturava, alguns bares boêmios que já eram ponto de encontro de pescadores. Mas às vezes aconteciam brigas. Eu já vi algumas. Aquela heterogeneidade de níveis sociais de certa forma influenciou minha poesia. Até hoje meus textos trazem aqueles abismos. O disco “Labaredesconderijo” (2017) é sobre isso, esses desfiladeiros.

A explosão criativa
Aquilo que aconteceu na Praia dos Artistas, aquela explosão de criatividade, de liberdade, naquela magnitude, Natal nunca mais viu. Poetas, artistas visuais, músicos, artistas de outros estados, toda essa galera curtindo a praia de dia, conversando nos bares. Tinha um bar que não tinha porta, qualquer um podia entrar. Ficava aberto 24h. Era muito frequentado. Dava uma turma da pesada. A galeria do povo foi algo fantástico. Tudo aquilo levou ao Festival do Forte. Lembro de ir à pé para o festival.

Não aos militares
Naquela época a gente sentia a pressão do Regime Militar, mas na praia de Areia Preta não se via muitos policiais. Eles estavam mais na Cidade Alta. Lembro que o pessoal costumava se reunir no Restaurante Universitário, que ficava na Deodoro da Fonseca. Por ali tinha mais policiais, com viaturas. Ele ficavam observando tudo.

Miami Beach
De Areia Preta o que eu continuo frequentando é a praia de Miami. Gosto daquele espírito juvenil, a turma de cabeça livre. Conheço bastante gente das antigas do surfe. Mas nunca fui de surfar. A galera costumava ir na Peixada do Chorão, tinha vezes que fazíamos luau.

Um muro de espigões
Aquela Areia Preta não existe mais. A área foi toda devastada pelos espigões. Desapareceu a magia, a psicodelia. Natal é uma cidade efêmera. Se houver algum resquício daquele tempo, só se for em Mãe Luiza, em alguns bares de lá. É a turma do morro que hoje mais frequenta Areia Preta, além dos surfistas da praia de Miami. Daqueles prédios enormes, praticamente ninguém desce pra areia do mar.

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