Sonhar, viver e resistir

Publicação: 2019-09-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

Desde tempos esquecidos da civilização grega – ressaltou André Bonnard –  o conhecimento não é circular. Circular é a ignorância. Fechada em si mesma. O conhecimento é uma linha ascendente sem fim. Repousa no que é antigo, mas aponta sempre para o novo. O conhecimento é um só. Não exclui nada sobre o homem, a vida e o mundo. Assim pensavam filósofos, matemáticos, astrônomos, poetas, dramaturgos, cujas obras habitaram as bibliotecas de Pérgamo na Grécia e Alexandria no Egito. Assim há livros que marcam o pensar e o viver dos leitores. Alargam a visão da realidade e do sentido da vida. Consagram o belo em todas as dimensões. Dos sentimentos às sensações. O sonhar é uma constante da vida. Os sonhos nutrem mudanças, aventuras, desafios, curiosidades, descobertas, ousadias e valores.

Na aurora da vida a humanidade já sentia necessidade de transmitir ao futuro, ou patentear ao próprio presente, o liame ou a ruptura entre o sonho e a realidade. Essas manifestações, no âmbito oral e escrito da literatura, em toda a vertente do tempo, adquiriram o caráter de perenidade e imutabilidade. Eis o desabrochar mais fecundo da criatividade humana. É impossível nominá-las ou distingui-las. Tudo depende do momento e das motivações que as fazem surgir na lembrança de quem sofreu essa ou aquela influência. Nem tudo na vida é provisório e efêmero. Mas a referência a um livro depende de sua vinculação a um contexto pessoal ou social. É o caso de “O Livro de San Michele”. Seu autor: o médico sueco, depois naturalizado inglês, Axel Munthe. Livro sobre a vida. Da vida que transforma o mundo. Da vida que não cessa e não se permite imobilizar nem limitar. Livro que consagra o humaníssimo e insuperável amor ao próximo. Libelo contra os egoísmos, a violência, a crueldade, a indiferença, a mentira e a hipocrisia. O livro foi quase contemporâneo de outra obra-prima: “Jean-Christophe” de Romain Rolland (Nobel da Literatura/ 1916), dedicado “às almas livres de todas as nações, e de todas as pessoas que sofrem, lutam e hão de vencer”. Desvendou num mundo conturbado, carente de espiritualidade como o nosso, a extensão da paz. Como também o fez André Maurois em “Terra da Promissão”. Proclamaram algo simples, óbvio, lamentavelmente pouco valorizado nos dias de hoje: sempre vale a pena sonhar. Sonhar é viver.  Em qualquer circunstância...

 Essas mensagens convergem na defesa do que é mais precioso para a humanidade: o sentido da vida. Axel Munthe viveu a maior parte de sua vida em “Ana Capri”, o lado ocidental da ilha de Capri, no sul da Itália. Construiu sua casa (“Villa San Michele”) num dos lugares mais belos do mundo. Descortinando a baía de Nápoles, seu estonteante mar azul e o Vesúvio. Esse recanto o romancista Henry James, seu amigo inseparável, chamou-o de “o mais belo e fantástico cenário do mundo”. A casa fica em frente às ruínas do palácio do imperador Tibério, que, dali, governou cruelmente o Império Romano. Romain Rolland, o grande amigo de Charles Péguy (escritor e pensador cristão), de quem foi biógrafo, admirador de Charles Chaplin e de Gandhi, que o visitou. Vivia nas montanhas da Suíça, onde desfrutou dos seus momentos de maior inspiração. Combateu as guerras e exaltou a condição humana. Disse, como Charles Péguy, que apenas o bem sobrevive no homem. O mal é poeira varrida e esquecida pelo tempo. Outro grande escritor, também absorvido por esse lugar paradisíaco, foi Curzio Malaparte, autor de livros como “Kaputt” e “A Pele”. Nessas cercanias construiu uma das casas mais atípicas do mundo, “A Casa como eu”: num penhasco uma nave grega antiga sulca indefinidamente as águas azuis do Mediterrâneo. Evocação à posteridade.

Ana Capri para Munthe, Henry James e Malaparte, e a Suíça para Rolland. Não foram prisões. Eram “fontes de inesgotável liberdade para discernir, criar, cultivar, amar e contemplar o mundo, a vida, a beleza e os homens”. Rolland foi íntimo de Stefan Zweig e apoiou sem hesitar a “não-violência” de Gandhi.   Disse-lhes que as plácidas montanhas da Suíça, cobertas de pinheiros e neve, infundiam-lhe paz e perspectiva da eternidade. Axel Munthe, no prefácio do livro para a edição sueca, revelou que Ana Capri era seu habitat eterno. Mirante de harmonia e grandeza humana.

   Os brasileiros estão confinados numa prisão. Não se trata de refúgio, ou “minarete”, como Gilberto Freyre comparava seu solar e seus jardins em Apipucos. É prisão no sentido literal. Lê-se pouco em nosso país. Nos termos preconizados por Walter Lippman, em sua clássica obra “A Opinião Pública”, a “cabeça” dos brasileiros, em sua grande maioria, é “feita” fundamentalmente pela televisão e redes sociais. A opinião pública brasileira é manipulada, dirigida, condicionada. Não é formada. A televisão não assume posições. O Brasil dos noticiários se resume em gastos públicos desonestos, triunfo do crime organizado, impunidade institucionalizada, insegurança individual e coletiva, culto da violência para todos os fins, destruição da ética e da moral em todas as atividades sociais (reguladas ou não pela lei), falência das instituições, desmoralização de autoridades públicas, estímulos aos egoísmos e ao consumismo, desastrosa ausência de solidariedade humana, indiferença e ceticismo. Mas o Brasil real não é exatamente o que se revela na televisão e na internet. Não é esse o país das pessoas de bem. Não é essa a nação da tolerância, da solidariedade, dos risos e da alegria, da simplicidade e do desprendimento, da conciliação e da bondade, da música popular e da poesia, das “Gabrielas” e das “Iracemas”, das “palmeiras e dos sabiás”, das “louras, das caboclas e das morenas”, do samba e do futebol, da tristeza e da saudade, do verde que encanta e do azul que eleva a alma. De modo algum.




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