Sonho concebido

Publicação: 2018-03-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Tadzio França
Repórter

A dificuldade em gerar filhos é um problema que se manifesta em 15% dos casais brasileiros, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). São 278 mil pessoas que apresentam algum tipo de infertilidade. Os tratamentos para reverter a situação costumam ser caros e inacessíveis à maioria da população. Há cinco anos, a Maternidade Escola Januário Cicco vem preenchendo essa lacuna através de seu Centro de Reprodução Assistida (CRA), um espaço que oferece toda a assistência técnica e profissional aos casais potiguares em busca da concepção de seu sonho.


Especialista mostra uma das etapas do processo de fertilização. No centro, são realizados, por ano, 250 procedimentos

O Centro possui uma taxa de sucesso de gravidez clínica em torno de 38%: foram 53 crianças nascidas a partir de seus processos e tratamentos ao longo de cinco anos. A taxa local supera índices do segmento na América Latina e Estados Unidos. O CRA, que é filiado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), dispõe de técnicas como inseminação artificial, fertilização in vitro (FIV) e injeção intracitoplasmática de espermatozóides (ICSI).

Diagnóstico com suporte

São realizadas por ano cerca de quatro mil consultas e 250 procedimentos. Desde a abertura, o Centro foi procurado por cerca de três mil casais – e destes, 1800 foram atendidos ou estão em atendimento. Os casais que procuram o  programa contam com toda a assistência  médica específica para o tratamento,  além de atendimento multidisciplinar com psicólogos, enfermeiros, nutricionistas, e assistentes sociais.

Segundo Mychelle Garcia, médica especialista em reprodução assistida e coordenadora do Centro, o programa oferece todo suporte no diagnóstico e no tratamento indicado para cada situação. “Há o cuidado de avaliar cada caso de acordo com suas particularidades. Às vezes a gente até identifica uma complicação que pode ser resolvida com outro procedimento”, diz. Ela ressalta que há uma grande demanda reprimida nesse segmento, portanto, a tendência é que o Centro pegue os casos mais complicados.

Encaminhamentos

O encaminhamento ao Centro é relativamente simples. Primeiramente é preciso a confirmação da incapacidade de gestação, após pelo menos um ano de tentativas falhas do casal. Os pacientes devem ter diagnóstico e encaminhamento feitos por um médico do SUS, algo obtido em qualquer posto de saúde. As consultas seguintes devem investigar todos os fatores relacionados à infertilidade.

Os obstáculos clínicos mais identificados entre os casais variam conforme o gênero. Alternam desde problemas anatômicos até questões hormonais. Entre as mulheres, Mychelle explica que as causas mais frequentes são disfunções na ovulação, rompimento ou baixa reserva de óvulos, e fatores tubários decorrentes de processos inflamatórios ou de endometriose. Quanto aos homens, os fatores estão basicamente relacionados à avaliação qualitativa e quantitativa de espermatozóides, analisando as alterações em sua produção.  A triagem do sêmen indica o caminho a ser seguido.  

O tempo de tratamento varia de caso a caso, mas em média dura dois anos.  “Para os casos de inseminação artificial não há fila, é bem tranquilo. Já a fertilização in vitro, que é um processo mais sofisticado, é o que precisa de mais tempo de espera”, ressalta Mychelle.  É neste processo, que costuma envolver muitas expectativas e um certo desgaste físico e emocional, que a importância do apoio psicológico surge. “O tratamento mexe muito a vida dessas pessoas. Há casais cuja vida gira em torno dessa expectativa. A gente oferece apenas uma tentativa para cada pessoa, então é preciso lidar com as possibilidades de sucesso ou fracasso”, explica.

Perfil

O perfil dos pacientes que procuram o Centro é mais amplo do que se pensa, ressalta Mychelle Garcia. “O fato de o encaminhamento vir obrigatoriamente do SUS não restringe o tratamento a um grupo de determinada condição financeira. A fila é aberta por demanda, e a avaliação é global”, diz ela, também tendo a consciência de que  o Centro dispõe de uma tecnologia avançada, cujo uso em meios particulares é caro. “A manutenção desses equipamentos tem um custo alto, assim como os medicamentos também são caros”, diz. A idade das mulheres costuma variar entre 32 e 36 anos, em média.

A primeira geração de mães e pais do Centro de Reprodução Assistida da Januário Cicco já exibem suas crias com orgulho. Katiússia Pontes, 32 anos, foi a primeira pessoa a confirmar a eficácia do tratamento: dele veio a agitada Lívia, de três anos e sete meses. Katiússia estava casada há três anos e não conseguia engravidar. “Já havia tentado de tudo, vários medicamentos, injeções, nada dava certo. Já estava quase desistindo, quando um médico nos falou sobre o Centro de Reprodução da maternidade, que naquela época tinha acabado de ser criado. Foi a nossa sorte”, conta.

Primeira geração


Katiússia conta que o processo de tratamento foi tranquilo. Passou pela fertilização in vitro. “Eu chorei quando o exame deu positivo”, conta ela, que teve a primeira filha do Centro de Reprodução. Após Lívia, nasceu depois Laura, agora com dez meses. A segunda filha veio em processo natural, um acontecimento que ela classifica como “coisa de Deus”. Até hoje Katiússia mantém contanto com outras pessoas de sua época de tratamento, um laço de solidariedade se forma entre mães e pais que passam por isso.

Katiússia é da primeira geração de mães. Após Lívia (in vitro) nasceu Laura, em processo natural
Katiússia é da primeira geração de mães. Após Lívia (in vitro) nasceu Laura, em processo natural

O casal Josielma e Marcelo Alves também são pais das primeiras turmas do Centro. Antes de conhecer o local, foram dois anos tentando engravidar. “Eu já havia me acostumado a pesquisar sobre o assunto, estava angustiada pela demora em ter filhos. Até que, assistindo um telejornal local, fiquei sabendo do Centro, e achei que era uma possibilidade. Falei pro meu marido e ele concordou”, conta. A decisão foi mais que acertada: em 2015 ela engravidou com a fertilização in vitro, e nasceu a pequena Ana Vitória, de dois anos e três meses de vida.

Antes do processo, Josielma e Marcelo haviam tentado por dois anos. Com fertilização, veio Ana Vitória
Antes do processo, Josielma e Marcelo haviam tentado por dois anos. Com fertilização, veio Ana Vitória

Josielma afirma que o processo em si não a incomodou. Não achou demorado e nem doloroso. Só o que incomoda é a expectativa natural. “Quando a gente quer muito uma coisa, a gente se esforça de verdade, passa por tudo”, diz. Ela ressalta a importância de o casal estar junto em todo o processo. “Essa união é fundamental. O Marcelo me acompanhou o tempo todo, nas consultas, nos procedimentos. Até no pré-natal. Filho nunca é algo que se faz só, até mesmo numa ocasião especial como essa”, afirma. O casal conta que gostaria de ter outro filho, mas espera que isso aconteça em processo natural.

Serviço:

O Centro de Reprodução Assistida funciona de segunda a sexta das 7 às 19h, e sábados e domingos das 7 às 13h. Mais informações pelo telefone (84) 3342-5815.

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