No RN, estoques de soro antiofídico e antirrábico estão no fim

Publicação: 2019-06-25 00:00:00 | Comentários: 0
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Os estoques de soro antirrábico e de soro antiofídico no Rio Grande do Norte estão no fim. A situação é crítica, e a recomendação do diretor geral do Hospital Giselda Trigueiro, referência regional no tratamento de doenças infecto-contagiosas e no atendimento de pessoas atacadas por animais peçonhentos, é evitar qualquer tipo de atividade que possa oferecer algum tipo de risco: incluindo uma simples trilha na natureza. “Vai que acontece da pessoa, durante uma caminhada na natureza, ser picada por uma cobra ou mordida por um morcego. A melhor opção, é aguardar os estoques se normalizarem”, aconselhou o médico André Prudente.

Diretor do Giselda Trigueiro, André Prudente, alerta sobre baixo estoque de soro antiofídico
Diretor do Giselda Trigueiro, André Prudente, alerta sobre baixo estoque de soro antiofídico

O Hospital Giselda Trigueiro, que atende toda a Região Metropolitana de Natal, mais as regiões de Santa Cruz e de João Câmara, dispõe de apenas 24 ampolas de soro antiofídico, o suficiente para atender dois adultos atacados por animal peçonhento; e 53 ampolas do soro antirrábico, capazes de atender cerca de 18 adultos.

No primeiro caso a dose do soro antiofídico varia entre três e doze ampolas [leve, 3; moderado, 6; grave, 12], conforme a gravidade do ataque (quantidade de veneno injetado) e do estado da vítima, dependendo do peso da vítima - sendo administrado soro e quatro ampolas de vacina. Isso apenas para animais silvestres. Já o tratamento contra a raiva, doença infecciosa (zoonose) que afeta o sistema nervoso central e é transmitida por mamíferos como morcegos e macacos, entre outros animais, depende do peso da vítima – sendo quatro ampolas do soro a quantidade máxima administrada.

Em maio deste ano 20 pessoas precisaram do soro antiofídico, e até o dia 23 de junho foram atendidas 25 pessoas no Giselda. Durante todo o ano de 2018, exatas 3.234 pessoas foram agredidas por animais peçonhentos, mas perto de 90% das vítimas não precisaram receber doses do soro. “O número maior de acidentes é com escorpiões. Felizmente a toxidade da espécie mais comum aqui no Brasil não é alta: dói, incomoda, é desconfortável, mas, na maioria dos casos, é possível tratar sem administração do soro antiveneno”, explicou o médico André Prudente.

Para controlar o uso dos insumos, a Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap) reforçou os protocolos clínicos para racionar a utilização e concentrou a disponibilização do soro antiofídico e do soro antirrábico em quatro unidades hospitalares: além do Giselda Trigueiro, em Natal, os hospitais regionais de Mossoró, Pau dos Ferros e Caicó são os únicos que também possuem algum estoque disponível em todo o Estado.

“Nossa maior preocupação é com relação à falta do soro antirrábico. A raiva é uma doença (praticamente) 100% letal, e dos 300 atendimentos que realizamos por mês em média aqui no Giselda Trigueiro, cerca de 200 precisam do soro”, disse Prudente. O diretor geral do Hospital Giselda Trigueiro contou que, “até hoje”, apenas duas vítimas de raiva conseguiram sobreviver: uma nos Estados Unidos em 2004, e outra em Recife no ano de 2008.

André Prudente lembrou que, no Brasil, somente o Ministério da Saúde (MS) é autorizado a adquirir o soro antirrábico e os soros antiveneno. Os estoques do Giselda Trigueiro começaram a dar sinais de baixa no mês de fevereiro de 2019, e “em junho a disponibilidade teve uma redução drástica”.

De acordo com Prudente, o MS informou que irá enviar novos lotes do soro, porém menores que a necessidade. “Estão enviando, em média, 20% do necessário – calculado a partir das notificações de casos. Segundo boletim do Ministério da Saúde, os laboratórios credenciados estão com dificuldades para atender as novas normas exigidas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)”.

Sesap
A  subcoordenadora de vigilância ambiental da Secretaria Estadual de Saúde Pública, Aline Rocha, informou que a Sesap já enviou solicitação ao Ministério da Saúde para que o órgão Federal envie novos lotes de soro antiofídico e soro antirrábico para evitar que os estoques fiquem zerados. “Estamos reforçando os protocolos clínicos para promover o uso racional dos insumos nos hospitais. A equipe médica terá de avaliar caso a caso, o estado do paciente e os sintomas, para verificar a real necessidade de ministrar – conforme o caso – o soro e/ou a vacina. Desde o mês de abril estamos recebendo do Ministério da Saúde um terço do está sendo solicitado”, informou Aline.

Os estoques da Sesap de soro antirrábico já acabaram, e um tratamento alternativo com imunoglobulina está sendo administrado. “A situação é bem crítica, por isso estamos investindo em informação e fazendo um trabalho de alerta para que as pessoas possam se prevenir”. A subcoordenadora de vigilância ambiental da Sesap disse que “desde 2013” o fornecimento está reduzido. “A falta de oferta (do soro e da vacina) é devido a reprogramação da produção, ou mesmo a suspensão da produção, por causa das novas exigências da Anvisa. No caso dos soros, não temos como importar pois eles precisam ser produzidos como antídotos de para venenos de espécies que ocorrem aqui no Brasil”.

A Sesap fez solicitações de novos lotes ao MS no dia 17 de junho, e segundo Aline Rocha o Ministério deu retorno garantindo que iria enviar. “Não sabemos quanto os lotes vão chegar. Mas, de qualquer forma, estamos antecipando os pedidos do mês de julho, para evitar que os estoques fiquem zerados”.

A orientação da Sesap é prevenir: “pedimos para que as pessoas, principalmente agricultores, reforcem os aspectos de segurança como uso de perneiras, botas de cano alto, luvas, dar um destino adequado ao lixo para evitar proliferação de ratos (que são o alimento preferido das cobras)”, reforçou Aline.

Sobre a falta de soro antirrábico, a subcoordenação de vigilância ambiental da Sesap chamou atenção para resultados positivos em morcegos no Estado. “Morcegos que apresentam um comportamento diferente, diurno, caçando e se alimentado durante o dia, é um indicativo de que esse animal possa estar doente. Bom evitar também contato com animais silvestres, principalmente mamíferos como raposas e saguis para evitar ao máximo riscos de mordedura, arranhadura ou lambedura”, explicou Aline Rocha.

Números
3.234 acidentes com animais peçonhentos foram registrados pelo Hospital Giselda Trigueiro em 2018 – sendo que 90% dos ataques são de escorpiões, 9% de cobras e 1% aranha

90% dos ataques com cobras no RN envolvem a espécie jararaca, e 10% dos casos são de cascavel – ataques de cobra coral são raros no Estado

300 acidentes por mês, em média, com risco de raiva são atendidos no Hospital Giselda Trigueiro; 200 são tratados com soro antirrábica

2 a 3 doses de soro antiveneno é o que resta no estoque do Giselda Trigueiro

18 a 20 doses do soro antirrábica pessoas é a quantidade atual disponível no Giselda

*Matéria atualizada às 11h06 para acréscimo de informações









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