“Sou movido a fazer algo diferente”, diz presidente da Chrysler no Brasil

Publicação: 2012-06-17 00:00:00
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Presidente da Chrysler no Brasil. O cargo, por si só, já traz uma imponência e um tom de autoridade. Mas em se tratando do executivo Sérgio Ferreira o conceito é desmistificado. O economista brasileiro que começou a carreira nos Estados Unidos e hoje ocupa o mais alto posto da Chrysler no Brasil é simples. Antes mesmo da primeira pergunta ele propõe um acordo: “nada de senhor. Eu sou Sérgio e me trate por você”. Acordo feito, iniciamos a entrevista. Muito longe de ser uma pergunta e resposta, nessa conversa Sérgio Ferreira demonstra o que, provavelmente, é a fórmula do profissional bem-sucedido: simplicidade, ousadia nas metas e empolgação com a atividade. Há pouco mais de um ano assumiu o principal posto da Chrysler no país. A meta para os próximos cinco anos é “simples”: aumentar em 20 vezes o faturamento da empresa. Ousadia? Irreal? Sérgio de pronto responde que  não e mostra argumentos amparados na política de mercado da empresa, na competitividade do produto que representa e na estratégia de novos lançamentos.

Sob o comando de Sérgio Ferreira estão as marcas Chrysler, RAM, Dodge e Jeep. Um plano de metas para esses automóveis que chega, exatamente, no momento em que a empresa passou por sua grande transformação, sendo hoje pertencente a Fiat (que tem quase 60% de toda empresa). “Esse é o grande desafio da minha carreira. Temos que crescer o faturamento 20 vezes em cinco anos. Crescemos bastante em outras empresas, mas nunca numa magnitude tão importante“, afirma o presidente da Chrysler no Brasil, que esteve em Natal para participar da inauguração da loja Chrysler, de propriedade do grupo PG Prime. Cauteloso, Sérgio afirma que há projetos da Chrysler para instalar uma fábrica no Brasil. No entanto, antes de ser concretizado é preciso “fazer a lição de casa”, o que quer dizer abrir mais concessionárias para amparar a demanda e garantir os negócios de fábrica em território nacional. O convidado de hoje do 3 por 4 traz muitas lições e, a primeira delas, é a simplicidade. A partir de agora você participa da conversa de um executivo arrojado, um brasileiro entusiasmado com negócios, com o trabalho, um empresário que impressiona não apenas pelos números dos negócios, mas pelo perfil de uma pessoa atenciosa e agradável.

Com vocês, Sérgio Ferreira:

Com o posto de presidente da Chrysler no Brasil, onde está há um ano, você chega ao maior desafio da sua carreira profissional?

Sem dúvida. Eu sou do grupo Fiat há pouco mais de quatro anos. Atuei na Michelin, fui diretor comercial de última posição no Brasil. Fui para Argentina cuidar da operação de passeio e caminhonete e depois fui presidente da Michelin na Grécia, em 2007. Retornei ao Brasil já pelo grupo Fiat como diretor geral da Case Agrícola. Esse é o grande desafio da minha carreira por vários motivos. O primeiro deles é porque temos que crescer o faturamento 20 vezes em cinco anos. Crescemos bastante em outras empresas, mas nunca numa magnitude tão importante. Também é o maior desafio porque temos uma história muito particular com a Chrysler no Brasil. Tivemos uma história de termos uma fábrica no Brasil, depois tivemos um casamento não muito bem sucedido com a Mercedes Benz. Saímos de uma rede de 30 pontos de venda para dois pontos de venda. Então, veja que é não apenas crescer, mas trabalhar quatro marcas diferentes e trazer para o mercado brasileiro veículos que temos em outras partes do mundo, inclusive na América Latina e ainda não estão no Brasil e ainda revitalizar as marcas.

Essa sua meta é muito ousada, crescer 20 vezes em cinco anos. O que leva a empresa Chrysler a impor essa meta para o mercado brasileiro?

Primeiro temos quatro marcas muito fortes. A Jeep tem fanáticos pela marca. Temos a marca Dodge, há várias gerações é uma marca reconhecida aqui. A marca RAM, que virou uma marca há dois anos. Era um modelo que era Dodge RAM e agora virou a linha de pickups RAM. E temos também a Chrysler que é nossa marca institucional. Então, começamos com marcas muito fortes. E temos produtos muito fortes. A Grand Cherockee criou o segmento de SUV grandes nos anos 90. Existe um valor muito forte que precisava ser trabalhado. É um pouco até contraditório, se quase saímos do país, temos uma herança muito bonita, muito forte. E há outro aspecto desde a aliança da Fiat, aliás sou um produto disso porque sou do lado Fiat, subimos em qualidade. O nosso CEO mundial chegou a atrasar lançamento de produto visando lançar apenas os produtos com qualidade excepcional. Nos últimos oito meses lançamos seis novos modelos no Brasil. Para responder sua pergunta de como transformar essa ambição em realidade digo que revitalizando marcas, trazendo modelo de excelente qualidade, desenvolvendo a rede (é isso que estou fazendo em Natal). Eu costumo brincar que nós somos, enquanto montadora, o meio de campo de um time de futebol, mas quem faz o gol é o concessionário. Tanto em termos de capilaridade era inadmissível não estarmos presentes em uma praça importante como Natal.

Mas a política econômica do Governo Federal está indo contrária a chegada do carro importado.

O que estamos fazendo é ir na contramão do mercado. Agora em maio a Associação dos Importadores divulgou os resultados de maio, houve uma queda na venda de importados de 35%. Nesse mesmo mês crescemos 50% aproximadamente em relação ao ano passado.

E você consegue isso (o crescimento) como?

Através de expansão de rede, grupos dedicados a nossas marcas em locais estratégicos, lançamentos de produtos, continuamos trazendo produtos, através de treinamento da rede e bastante eventos e experiências. Nossas marcas estavam longe do público consumidor. Estamos fazendo teste drive e eventos com o consumidor mesmo.

A Chrysler é dominada pela Fiat e ela (a Chrysler) tem quatro marcas (RAM, Dodge, Chrysler e Jeep). Como buscar cada nicho de consumidor para essas marcas? Não há uma competição entre elas mesmas?

São perfis de consumidores, de clientes diferentes. O perfil do consumidor Jeep é bem diferente de um consumidor RAM, por exemplo. Nós lançamos em março deste ano a pickup RAM, foi um sucesso de vendas. Meu maior problema hoje é que não tenho mais carro para entregar, o veículo é produzido no México. Esse carro não é para uso urbano. Quem compra uma RAM, normalmente, não usa em via urbana, usa em fazenda, tem potência de um caminhão. Quem usa nossos modelos Jeep, está buscando um estilo de vida off road, que mistura aventura um pouco mais urbano, é o consumidor da Grand Cherockee. São perfis diferentes. O perfil do consumidor Chysler, por exemplo, lançamos este ano o 300C. O consumidor para esse carro traz o perfil diferente, é uma pessoa que busca tecnologia, glamour, busca um veículo de muita personalidade. Esse não é um veículo comum. Procuramos ter uma segmentação bem clara das quatro marcas. É um desafio que temos é nos comunicar bem com cada um dos segmentos diferentes.

Há perspectiva para inaugurar uma fábrica no Brasil?

Nós temos estudos, vários. Hoje qualquer importador quer produzir no Brasil. Mas há etapas. Mas veja que não posso pensar em produção local sem ter estabelecido uma rede de concessionárias, sem ter uma cobertura nacional e plenamente identificada com o público. Não podemos pensar numa fábrica sem ter as marcas muito bem desenvolvidas. Esse foi um trabalho que começamos a fazer no ano passado. Em 2011 enquanto o mercado como um todo cresceu 3%, nós crescemos quase 30% com relação a 2010. Esse ano a expectativa do mercado como um todo é não crescer e os importados devem cair entre 15% e 20%, nosso plano é dobrar de tamanho, crescer 100%.

E como se coloca o mercado de carros importados do Rio Grande do Norte?

Tem uma característica muito interessante. Veja que são 3 milhões de habitantes e quase um terço na capital. E um consumidor que gosta muito de quatro por quatro. Quando olho o mercado aqui (no RN) é um dos mercados mais 4 X 4 do Nordeste. As pesquisas mostram que o consumidor de Natal apreciam marcas e marcas Premium, marcas de valor, gostam de 4 X 4 e Jeep foi a marca que inventou o segmento de 4 X 4. Inegavelmente a Land Rover é um dos nossos grandes concorrentes no Brasil. Se eu tirar o Nordeste do Brasil nós vendemos muito mais do que a Land Rover. Quando coloco o Nordeste na cota a Land Rover passa a vender um pouco mais que a Chrysler no Brasil, mas nós vamos resolver isto este ano ainda.

Você disse que o seu principal concorrente é a Land Rover. Mas o concessionário Chrysler em Natal é também vendedor exclusivo Land Rover. Não é contraditório ou incoerente?

Eu vou lhe responder dizendo como escolhemos a PGPrime. Primeiro fizemos um edital, com as concessionárias do Rio Grande do Norte, convidamos concessionárias da nossa própria rede, rede da Fiat e da concorrência. Recebemos várias propostas. Escolhemos PG Prime pela tradição do grupo, é um grupo que tem tradição no segmento de automóveis há bastante tempo. O segundo ponto foi o fato de ser local. Isso foi fundamental. Tivemos boas propostas de gente de fora de Natal, mas nossa opção era ter pessoas daqui. O negócio se faz no relacionamento, ter  conhecimento do consumidor local, saber como se comercializa, é fundamental. E terceiro, e voltando a sua pergunta, precisamos de um especialista no segmento de automóveis de luxo. Nosso carro de entrada custa R$ 94.900. tocamos no topo da pirâmide. Os nosso carros vão até R$  230 mil. Precisávamos de gente de sabia vender automóveis de luxo e o grupo PG Prime sabe fazer isso. Agora tenho a percepção que eles vão vender menos Land Rover daqui para frente. Mas isso eu deixo para Land Rover.

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