Subutilização dos trabalhadores é maior no Nordeste, afirma Ceplan

Publicação: 2020-09-16 00:00:00
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Em um cenário em que todos as regiões brasileiras perderam postos de trabalho em razão do isolamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus, o Norte e o Nordeste foram mais impactadas. A Taxa de Participação da Força de Trabalho (TPFT) que mede a proporção de pessoas ocupadas ou à procura por trabalho em relação à população com 14 anos ou mais, apresentou, em média, redução de 8 pontos percentuais na comparação entre o quarto trimestre de 2019 e o segundo trimestre de 2020. 

Créditos: Adriano AbreuNordeste: 46,9% das pessoas com 14 anos ou mais estavam ocupados ou na busca por trabalhoNordeste: 46,9% das pessoas com 14 anos ou mais estavam ocupados ou na busca por trabalho

Os resultados mostram que no Brasil apenas 55,3% dos trabalhadores com 14 anos ou mais de idade estavam ocupados ou ainda procurando trabalho no segundo trimestre de 2020 ante 61,9% no quatro trimestre de 2019.  No Nordeste, a TPFT ficou em 46,9% no segundo trimestre de 2020 ante 54,5% no quatro trimestre de 2019. Os dados são do primeiro estudo de âmbito regional sobre os impactos da pandemia do novo coronavírus no Nordeste foi apresentado nesta terça-feira (15), em coletiva de imprensa online, pela Ceplan Consultoria, com sede no Recife. 

O estudo faz um recorte para os estados de Pernambuco, onde a TPFT ficou em 45,3% no segundo trimestre de 2020 ante 54,1% no quatro trimestre de 2019; na Bahia, 50,1% contra 58% no ano passado e no Ceará em 47,7% este ano contra 56,5% em 2019. 

Estes números, analisam os pesquisadores da Ceplan, Tânia Bacelar e Jorge Jatobá, trazem à tona a alta subutilização dos trabalhadores e revela o fraco desempenho da economia que já vinha operando sem aproveitar bem o potencial da sua população economicamente ativa. Os dados mostram que a taxa de subutilização da força de trabalho, das pessoas com 14 anos ou mais, é quase o dobro no Nordeste em relação à taxa nacional.  

Os desocupados, os desalentados – que desistiram de procurar emprego porque não acreditam que estejam disponíveis; os não desalentados, que desejam trabalhar, mas não buscam por várias razões; e os subocupados, aqueles que trabalham menos horas do que gostariam, formam a taxa composta de subutilização da força de trabalho. Essa taxa cresceu no segundo trimestre de 2020 em relação ao último trimestre de 2019, atingindo os seguintes percentuais: Brasil (29,1%), Nordeste (41,8%), Pernambuco (36,2%), Bahia (44,7%) e Ceará (35,9%), evidenciando uma forte ociosidade no uso dos recursos humanos.

Para homens e mulheres, a taxa de subutilização aumentou entre os trimestres de referência. Foi maior entre as mulheres do que entre os homens tanto no Brasil quanto na região e nos estados citados. Nestes mesmos territórios, a subutilização cresceu em todas as faixas etárias, mas foi maior entre os jovens de 14 a 24 anos. No Nordeste chegou a 82,5% no intervalo de 14 a 17 anos e a 63,7% entre os de 18 a 24 anos, no segundo trimestre de 2020. 

Quando a análise foca a escolaridade, as taxas de subutilização também foram ampliadas no último trimestre e se mostraram mais altas nos grupos com menos anos de estudo no Brasil, no Nordeste, em Pernambuco, na Bahia e no Ceará. O crescimento da subutilização também alcançou pessoas de todas as cores e raças, mas predominou entre os pretos e pardos, chegando a 43,9% no Nordeste, entre abril e junho deste ano.

Em relação aos rendimentos, os nordestinos também tiveram perdas acima dos brasileiros. No país, na comparação entre o primeiro semestre de 2020 com o mesmo período de 2019, a queda foi de -1,5%, e de -3,9% no Nordeste. Entre os maiores Estados da região, Pernambuco sofreu a maior redução: -9,1%; na sequência o Ceará, com -2,9% e a Bahia, com -0,5%. Isso reduziu o consumo das famílias, contribuindo significativamente para a queda do PIB.

Desafios e Perspectivas
Neste primeiro momento, afirmam os especialistas, rumo ao pós-pandemia, observam-se perdas consideráveis em empregos e renda atingindo, no Brasil, com maior intensidade os mais pobres, os de menor escolaridade, as mulheres, e os pretos e pardos. O novo mundo do trabalho, afirma Tânia Bacelar, traz muitos desafios para as empresas, instituições de ensino e de qualificação profissional. Algumas ocupações e profissões se tornarão obsoletas enquanto outras deverão surgir porque teremos novas formas de produzir, de vender e de fazer circular a riqueza. 

“Mas não basta olhar somente os números da pandemia, precisa ampliar o foco. Essas mudanças já aconteciam, a pandemia apenas acelerou”, afirma Tânia Bacelar. Quanto à retomada, a equipe da Ceplan aponta como principal desafio reestruturar o mercado de trabalho em tempos de maior flexibilização associada aos novos paradigmas técnicos, às mudanças no marco regulatório e na organização dos trabalhadores. Investimentos na capacidade humana para desenvolver as habilidades e competências do mundo do trabalho que emerge no ambiente disruptivo, apresentam-se como um dos desafios.









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