Sucessão de causos

Publicação: 2019-12-03 00:00:00
Valério Mesquita
mesquita.valerio@gmail.com

Quantas figuras, desconhecidas ainda, do folclore político e social não existem perdidas por esse Rio Grande do Norte afora? Uma delas é Bolo-Bolo de Caicó. Pelo apelido não resta duvidas que fosse um exímio criador de casos e causos. Seu Chico de Caicó era um velho respeitável que levava a vida a sério e não admitia brincadeiras. Certa manhã, em pleno centro da cidade, aguardava a hora de retornar à zona rural, onde residia, quando, propositadamente, foi abordado por um brincalhão: “Seu Chico, que horas são?”. “Dez e meia, filho”, responde o velho. “Eita, faltam trinta minutos para o senhor dar o c...”. Num arranco, seu Chico partiu para pegar o zombador que se escafedeu em desabalada carreira. Lá, na frente, deu uma trombada logo em quem? Quem? Quem? Bolo-Bolo. Ao ouvir de seu Chico o motivo da carreira, Bolo-Bolo saiu-se com esse repente: “Mas, Chico, que pressa é essa, se ainda falta meia hora?”.

Bolo-Bolo, certa vez, foi instado por uma mulher a lhe devolver um rádio e o ameaçou de levá-lo à policia. Resposta debochada do folclórico desempregado caicoense: “Pode ir. Quando for à Polícia veja se me arranja lá um lugar de cabo!”.

Bolo-Bolo vendia jornais em Caicó. Na vila militar, onde residiam os suboficiais e oficiais do Batalhão de Engenharia do Exército, no tempo da Revolução, Bolo-Bolo fazia suspense na rua para vender mais jornais. “Olha aí, veja a nova relação dos militares cassados pelo AI-5!!”. Assustadas, as esposas dos militares procuravam saber em qual dos jornais estava a relação. Bolo-Bolo, assumindo um ar arrogante, sentenciava: “Tem que comprar os dois (Diário de Natal e Tribuna do Norte) pois não sei qual o que traz a relação!!”.

Caicó, mais uma vez em cena. Era o ano de 1976, quando a campanha municipal corria frouxa mais furibunda para não dizer perigosa. Pelo lado do PDS Irami Araújo era o candidato sofrido, marcado pela agressividade dos seus adversários. A coisa chegou a tal ponto que o vereador Antônio Bernardino ligou diretamente para o senador Dinarte Mariz a fim de mandar reforços para o policiamento da cidade. Dia seguinte chegou uma tropa de choque da PM que foi logo mandando brasa e dissolvendo reuniões políticas tanto de gregos quanto de troianos. O próprio vereador Bernardino, quando apartava uma briga, levou uma traulitada “tão democrática” e segura nos testículos que foi se queixar ao staff político: “Irami, que erro cometemos por ter chamado essa tropa de choque! Levei agora um chute no meu baixo ventre que acho até que atingiu a potência!!”.

Em Caicó, nos bons tempos em que Álvaro Dias e Vivaldo Costa eram correligionários, Renato Dias, irmão do então deputado estadual Álvaro Dias, discursava inflamado na praça pública elogiando o Papa. “Vivaldo”, proclamava Renato, “é um político que defende com unhas e dentes os interesses da nossa região. E quando se trata de defender Caicó ele tem vontade de mamar em onça!”. Ao seu lado, Vivaldo cochichou: “Menos Renato, menos. Em onça pequena sim, mas onça grande eu tenho é medo!”.

Na penosa travessia dos caminhos do sertão potiguar há sempre tempo para especulações no mercado de importações. Em Baixa do Meio, lugarejo próximo a Macau, o secretário de articulação política do governo José Maria Melo mostrava-se atento à paisagem. Logo apontou ao companheiro Newton Azevedo então presidente da CAERN, a fachada de uma lojinha com os dizeres: “Vende-se Importados”. Newton riu e jogou toda a sua fama de estradeiro de longo curso nesse comentário: “Conheço essas lojinhas do interior. De artigo importado só têm mesmo pão francês, cavaco chinês, bolacha japonesa, periquito australiano, melão espanhol, melão japonês, molho inglês inharé... etc, etc”.