Tânia Bacelar: ''É preciso um novo modelo de desenvolvimento"

Publicação: 2018-09-01 00:00:00 | Comentários: 0
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Aura Mazda
Repórter

A economista e cientista social Tânia Bacelar vê uma prioridade para o Brasil atualmente: escolher um novo modelo de desenvolvimento. Para ela, o mundo mudou e está num caminho entre o paradigma industrial do século XX e uma nova forma de produzir, a do século XXI. “ As mudanças das última décadas estão colocando esse desafio para o Brasil, que é de ter um projeto de reposicionamento no contexto mundial atual; que é um desafio maior que tirar o país da crise”, disse.

Tânia bacelar, economista e cientista social
Tânia Bacelar, economista e cientista social

Bacelar é uma das mais respeitadas estudiosas do desenvolvimento regional no Brasil e integrou o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do Governo Dilma Rousseff. Ela esteve em Natal para ministrar Aula Magna na UFRN na última sexta (31).

Bate-papo: Tânia Bacelar, cientista social e economista

Em ano eleitoral, o que se espera de propostas para o enfrentamento às desigualdades sociais no país, em especial no Nordeste?
O Brasil tem, entre suas principais marcas, a desigualdade social. Conseguimos ser a oitava economia do mundo no final do século passado — perdemos um pouco, mas ainda somos uma das principais economias do Mundo —, mas chegamos em 1980 com o oitavo parque industrial do Mundo e o terceiro país em desigualdade social. Na Economia, só perdíamos para o G-7, e em desigualdade a gente perdia para Honduras e Serra-Leoa. Essa é uma herança brasileira muito forte.

Nada mudou, desde então?
De lá pra cá, começo do Século XXI, houve uma melhora. Os indicadores sociais melhoraram; o IDH — o principal deles — é nítido que o perfil desse índice de 1990 predomina “muito baixo”, e no perfil do IDH de 2010 (o mais recente) predomina o “médio”. Portanto, houve uma melhora nos indicadores sociais, mas a desigualdade diminuiu menos.

Melhoramos mais a vida das pessoas, porém o hiato entre os mais bem situados na sociedade e a população mais pobre não diminuiu tanto. Então, essa é uma  marca muito profunda e ela tem uma leitura regional porque quando a gente coloca isso no mapa do Brasil, Norte e Nordeste têm indicadores muito mais graves que a média do País. Principalmente em relação ao Sul, que tem indicadores melhores que o Sudeste.

Dentro do Nordeste, temos também desigualdades muito fortes. O Nordeste urbano tem indicadores sociais melhores que o Nordeste rural, mas o Nordeste urbano tem uma desigualdade social maior que aquela da área rural. Nossas grandes cidades são locus de grande desigualdade.

E quais os principais reflexos dessa desigualdade para as pessoas?
O principal deles é a falta de oportunidades para grande parte da população. Uma pessoa sem projeto de vida é uma tragédia. Ser bloqueado nas suas potencialidades é o que existe de mais grave. O quadro de desigualdade social faz isso. Quem não tem condições de estudar, ou mesmo que estude, não tem condições de estar numa boa escola já parte em uma situação diferente daquela de outras pessoas que tiveram essa oportunidade. Diria que esse é o grande problema, como a gente consegue usar esse potencial que está dentro de cada pessoa.

Essa desigualdade repercute na questão da violência?
Sim. É uma das questões. Por exemplo, há um problema no Brasil no sistema educacional. As pessoas até conseguem fazer o fundamental, mesmo sem muita qualidade, hoje cerca de 90% das pessoas têm acesso ao Ensino Fundamental. Mas no Nível Médio, há o primeiro gargalo, que é trágico porque a evasão é muito alta.

São pessoas que começam o Ensino Médio e não conseguem, sequer, terminar. Essa evasão é de aproximadamente 40% na maioria dos estados. Algumas vão trabalhar, ou ao menos escapam pelo trabalho, mesmo não sendo algo bem remunerado, ou bem qualificado, mas é um trabalho. De certa forma há uma inserção na vida produtiva do país. Mas há um percentual importante, que supera os 20% e, no caso do Nordeste, supera os 25% de jovens que não estudam nem trabalham.

Há, aí, também um corte de gênero porque as meninas ganham dos meninos porque tem o problema da gravidez precoce, quando são mães muito cedo, sem estra preparadas para assumir a sua vida. Isso é uma das origens do drama social. O narcotráfico se aproveita dessas pessoas, e estamos gerando um potencial à violência.

O que deveria ser prioridade na pauta dos governantes?
Na área federal, que trata do país como um todo, é qual seria o novo modelo de desenvolvimento brasileiro. Estou chamando novo porque o mundo mudou muito nas últimas décadas e, no século passado a gente tinha um modelo — que era fazer um país industrial — e a gente perdeu o trem da industrialização contemporânea. E estamos meio perdidos... queremos voltar a ser industrial, combinar melhor a indústria com outras atividades num mundo que está submetido a mudanças de grande profundidade. As tecnologias e o jeito de organizar a produção são outros, assim como a forma das pessoas trabalharem e se relacionarem. As mudanças das última décadas estão colocando esse desafio para o Brasil, que é de ter um projeto de reposicionamento no contexto mundial atual; que é um desafio maior que tirar o país da crise.

O debate eleitoral está muito centrado numa pergunta de curto prazo. Como a gente está numa angústia da crise, nosso olhar está multo voltado ao curto prazo. A pergunta é: o que eu quero para meu futuro? Porque aí eu deduziria como é que eu saio, no curto prazo,tendo esse horizonte mais amplo. Ou seja, um plano estratégico para o Brasil. A China tem planos, hoje, de dez anos. Precisaríamos de um plano para os próximos dez anos. A gente quer ser o quê? E como é que eu saio da crise, agora, mas caminhando nessa direção?

Em cada estado, ou em cada município, podemos ter respostas particulares. Então, essa mesma pergunta faria, por enquanto aos governadores.

O Nordeste ainda é pouco competitivo?
Não éramos competitivos para aquele tipo de indústria do Século XX. Lá a gente perdeu o trem, mas o Nordeste é competitivo para outras coisas: na energia renovável, onde o Nordeste é o endereço. E isso está na agenda nova mundial. É uma das mudanças na estratégia, onde estamos saindo da Era da energia fóssil  pra Era da energia renovável. Nesse caso, o Nordeste é imbatível no Brasil. Somos competitivos. O que é o novo? E como a gente se coloca, nesse novo? Nem tudo que a gente se colocava com dificuldade no passado se reproduz no presente. O tempo livre das pessoas vai aumentar; turismo vai ser uma atividade importante. O Nordeste é um dos principais endereços turísticos do Brasil. A discussão é esta: quais são as macrotendências gerais e pra onde elas estão nos levando e como o Nordeste se coloca? Podemos aparecer também no lado das potencialidades brasileiras.

Como a interiorização do ensino superior muda o cenário no sertão nordestino, por exemplo?
Se você me perguntasse quais as coisas mais importantes que aconteceram no Brasil nos anos recentes, diria que essa foi uma. O Brasil tinha uma estrutura universitária pequena, aí expandiu, mas diria que isso foi feito com o mapa na mão. Como se tivesse perguntado: onde é que não tem? E vou levar para onde não tem. Isso nos deu uma lição para a área que atuo, que é a de política regional poque aprendemos que isso também é política regional. Polícia educacional é política regional, e o Brasil é um exemplo disso. A gente fez uma política de expansão do ensino superior, mas com o olhar regional. O investimento foi levado para o interior. Levou mais para o Nordeste que para Sul e Sudeste, de forma que houve um deslocamento macrorregional dentro do Nordeste.  Havia uma rede concentrada no litoral, e levou para o interior. A novidade foi muito boa.

Investir em educação superior foi  instrumento de dinamização da economia. As cidade médias do Nordeste, hoje, são diferentes. E, em grande parte, porque houve investimento em Educação e Saúde. Esse movimento é importante e nos ensinou que é política regional boa. Não colhemos, ainda, os resultados disso. Plantamos uma semente e está se desenvolvendo, mas é o tipo de árvore que não amadurece no curto prazo. Levaremos um tempo para perceber os frutos principais. Mas o investimento inicial já mostrou que ele tem capacidade de dinamismo.

Um dos fatores de desenvolvimento da economia é o conhecimento. E o grau de importância está aumentando. No Rio Grande do Norte, quem me surpreendeu foi Pau dos Ferros. Conheci há algum tempo, e quando cheguei depois, aquela presença dos institutos federais no interior do Nordeste é fantástico para uma cidade de menor porte porque muda a vida da cidade e cria oportunidades no entorno. Traz a juventude, aí vem a hospedaria, o barzinho, o cara que faz a xérox, e aquilo vira a economia.

Como a senhora analisa essa dependência dos municípios em relação à União?

Essa é uma deformação, uma herança brasileira que a gente tem muita dificuldade em superar porque a receita pública no Brasil é muito concentrada na mão da União.  O grosso da receita pública está concentrada em Brasília. Aí você tem esses mais de 5600 municípios e a maioria não tem receita própria; aí transfere para esses municípios atribuições importantes, como saúde  educação, e eles não têm capacidade de dar conta, esse é, aliás um dos nossos problemas para melhorar a qualidade do Ensino Fundamental. A gente garantiu o acesso, mas não a qualidade. Entregaram essa atribuição, que é estratégica, a um ente que não tem meios. E mantém a dependência da transferência de recursos. É a discussão do pacto federativo.






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