Título contra o preconceito: Sul-Americano de 1919 completa 100 anos

Publicação: 2019-06-30 00:00:00 | Comentários: 0
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O futebol há cem anos era para poucos. Apenas ricos e brancos tinham "permissão" para praticar o esporte mais popular do mundo no Brasil. Em 1919, trinta anos depois da assinatura da Lei Áurea, o negro ainda sofria preconceito. As delegações de Argentina, Chile e Uruguai ficaram hospedadas em um hotel na região central do Rio de Janeiro para a disputa do Sul-Americano. Entre uma atividade ou outra, os atletas ficavam na porta do alojamento e zombavam das pessoas que circulavam pela rua. Este é só mais um dos fatos que acirrou a rivalidade entre os povos, mas também serviu para criar uma união interna.

Friedenreich marcou o gol do título da Seleção Brasileira
Friedenreich marcou o gol do título da Seleção Brasileira

Os estrangeiros não debochavam apenas dos negros, mas de todos os brasileiros. O país era menos desenvolvido e as pessoas usavam roupas simples, classificadas como trapos pelos uruguaios e argentinos. Como também passaram a ser alvo de piadas, os ricos despertaram o desejo pela vitória. Quando viram que seria imprescindível o apoio dos negros e pobres, passaram por cima disso e iniciaram uma aproximação aos que sempre descriminaram.

"A gente tem que colocar o futebol no contexto histórico. Era a República Velha, elitista, com ranço escravista, dominada por oligarquias. O futebol era um bem dessas elites. Era praticado pelos filhos da burguesia. Disputavam os campeonatos pelos clubes de elite do Rio de Janeiro e de São Paulo. Era um futebol embranquecido. O Sul-Americano começou a quebrar isso. Criou uma unidade nacional, pois começaram a torcer pelo Brasil , além dos ricos, os pobres. Essa mistura ficou clara com a presença do Friedenreich, que simboliza esse encontro do negro com o branco. E da mistura surge esse novo futebol", destaca o jornalista e pesquisador Roberto Sander, autor do livro "Sul-Americano de 1919".

Estádios ficaram lotados para os jogos da Copa América 1919
Estádios ficaram lotados para os jogos da Copa América 1919

Assim como Neco, Friedenreich não era branco. El Tigre era moreno e tinha os olhos verdes. As participações dele e do companheiro na Seleção Brasileira causavam estranheza e não eram vistas com bons olhos pela aristocracia. "Os estrangeiros nos descriminavam e zombavam do povo. Mas também havia o preconceito entre nós mesmos, algo que, infelizmente, ainda existe no Brasil. Na época, evitavam a escalação de jogadores negros justamente para que os argentinos e uruguaios não zombassem da Seleção Brasileira. Mas o Friedenreich, por conta do futebol, já que era o Pelé da Era Amadora, tornou-se uma figura absoluta. Não foi molestado em tempo algum pelo fato de ter sido um grande jogador" lembra o jornalista e pesquisador Roberto Assaf, um dos autores do livro "Seleção Brasileira (1914 - 2006)".

A presença da Polícia foi registrada pela 1ª vez em um estádio
A presença da Polícia foi registrada pela 1ª vez em um estádio

Durante a competição, como estavam em casa, em maioria, os brasileiros não deixaram barato e passaram a responder as provocações. Em alguns jogos nas Laranjeiras, inclusive, a Polícia do Rio de Janeiro compareceu para fazer a segurança e seus oficiais foram posicionados no espaço entre a arquibancada e o gramado (foto abaixo). Este é o primeiro relato da história do futebol nacional com policiamento no estádio.

Ao fim do Sul-Americano 1919, o Brasil ficou com a taça, representando a sua primeira grande conquista, e Friedenreich, artilheiro e autor do gol do título, teve o par de chuteiras exposto em uma tradicional joalheria do centro do Rio de Janeiro. Fonte: CBF












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