Taciana Chiquetti, psicóloga: "Durante pandemia, o lado emocional precisar ser olhado e cuidado"

Publicação: 2020-07-05 00:00:00
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Mariana Ceci
Repórter

Os efeitos da pandemia do novo coronavírus na saúde mental de milhões de brasileiros preocupa os profissionais da área. Da impossibilidade de viver todos os rituais culturais que envolvem o luto ao isolamento social que se estende há três meses, profissionais que atuam nas áreas de psicologia veem como uma realidade o aumento de problemas como ansiedade, depressão e estresse. Em todo o mundo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) tenta mensurar o impacto da pandemia na saúde mental da população, algo que ainda não foi feito no Brasil. Estudos divulgados pela Organização feitos no Reino Unido, no entanto, mostram que 32% dos jovens com histórico de condições de saúde mental sentiram a piora de sua condição por causa da pandemia. Entre os profissionais de saúde que estão na linha de frente, em contato diário e direto com a morte, a situação é ainda mais grave: na China, 50% dos profissionais relataram depressão, 45% ansiedade e 34% apresentavam sintomas como insônia. Sobre como tentar adotar práticas que beneficiem a saúde mental durante a pandemia, a TRIBUNA DO NORTE conversou com a psicóloga Taciana Chiquetti, que atua em Natal. Para a psicóloga, investir em uma comunicação franca e respeitar o espaço do outro são alguns dos principais caminhos para melhorar a qualidade de vida no ambiente doméstico e atenuar as situações de estresse, e adotar práticas de auto-cuidado respeitando os sentimentos e limitações impostos pelo momento também são atitudes importantes a serem tomadas. Confira a entrevista.
Créditos: Alex RégisAs pessoas, diz a psicóloga, estão mais angustiadas, com muito mais medos que vieram à tona por causa do isolamento socialAs pessoas, diz a psicóloga, estão mais angustiadas, com muito mais medos que vieram à tona por causa do isolamento social
Há uma piora da saúde mental da população de forma geral durante a pandemia? Registra-se o aumento de depressão e ansiedade, por exemplo?
Já existem alguns estudos que mostram que o lado emocional durante a pandemia também é algo de muita relevância. É algo que precisa ser olhado e cuidado. Estamos muito focados na questão sanitária, dos cuidados para não haver a contaminação pelo vírus, mas a questão emocional também faz parte dessa pandemia. O movimento e a procura pela terapia aumentou, e as pessoas estão se adaptando à terapia online, pelo impedimento ao atendimento presencial, e os profissionais estão buscando mais, inclusive se adaptar ao online, o que já era um movimento antes da pandemia. As pessoas em geral estão mais angustiadas, com muito mais medos que vieram à tona. O que motiva as pessoas é o medo, que é a emoção básica da ansiedade. As pessoas vêm à sessão com muita ansiedade e, à medida em que vamos fazer o trabalho, vemos que essa ansiedade está associada a alguns medos específicos, como o medo do futuro, o medo da escassez, o medo de ficar só, provocado pelo próprio isolamento. Essa situação de isolamento e pandemia mexe com a gente. A pessoa vive uma rotina muito parecida, então vai guardando mais o que ela pensa e sente, então as possibilidades dela dividir o que está sentindo vão reduzindo, por isso muitas buscam uma terapia. Tem gente que não sabe lidar muito bem com o tempo, por exemplo. São coisas que se manifestam de maneiras diferentes em cada pessoa, mas que têm algumas raízes em comum. Por isso é importante termos práticas meditativas, físicas, de fé, recursos que nos ajudam a entrar em outros estados emocionais mais positivos. Se concentrar no aqui e agora sem projetar muito no futuro também é importante, porque isso favorece essa ansiedade. 

O luto e a morte também passaram a estar muito mais evidenciados nesse novo contexto. Como isso afeta a nossa percepção da morte e como é possível lidar com a questão com aqueles ao nosso redor de forma mais saudável?
Estamos sempre em contato com a morte, mas não tomamos consciência dessa realidade, e costumamos negar isso. Agora, como estamos com casos muito próximos a nós, e sendo noticiados, parece que a morte está mais próxima, mas ela sempre esteve. A morte não é o contrário da vida, ela é a última fase da vida, faz parte dela. Por que é difícil para nós lidar com o luto e a perda? Porque não vivemos na perspectiva de que somos finitos, de que vamos acabar. As coisas são impermanentes, e nós não vivemos esse conceito de impermanência na prática. Esse é um assunto que nunca é falado, é sempre um tabu e, agora, como a coisa está acontecendo de forma mais explícita, estamos sendo obrigados a olhar para isso. Por causa da covid, o luto é mais difícil, porque não é possível fazer uma despedida, então fica difícil fechar esse ciclo justamente porque não houve aqueles rituais que nós usamos muitas vezes de acordo com nossa cultura para poder elaborar aquela situação que faz parte da realidade agora, que é a morte. As pessoas estão sendo convidadas a olhar para a morte de uma maneira mais aberta. Isso não significa que todos vão conseguir, mas o ideal seria isso: acolher a morte como uma realidade e, quanto mais a gente lida bem com a morte, mais vamos lidar melhor com a nossa vida e aproveitá-la melhor. Seria interessante que a gente se dedicasse a ler mais sobre o assunto, buscasse ajuda psicológica para lidar com nossos medos nesse sentido, assim como o apoio familiar e de amigos para poder encarar a morte com esse outro olhar.

No que diz respeito ao isolamento, muitos estão isolados com suas famílias ou colegas de casa e apartamento. Isso nem sempre é favorável para essas relações em um ambiente onde o estresse está elevado. Quais práticas são possíveis de adotar para tentar transformar esse ambiente em algo mais saudável, e não em mais uma fonte de angústia para o indivíduo?
Todo mundo está influenciado pelo que está acontecendo, portanto, todos estão sujeitos a alterações emocionais. Todos estão com medo, todos podem se conectar com a raiva, com a tristeza, então é preciso primeiramente ter um olhar empático, de olhar para o outro e entender que ele está na mesma situação que eu. Quando estamos em uma casa, é importante que respeitemos o espaço do outro. Pequenas práticas são importantes: se eu vejo um vídeo no celular em uma área comum, eu posso usar o fone para não invadir o espaço do outro. São pequenas atitudes que resguardem onde termina meu espaço e começa o do outro. Além disso, cada um precisa fazer a sua parte para a casa funcionar: se eu sou responsável pelo meu quarto, pela limpeza dele, por parte das tarefas domésticas, eu vou precisar fazer um esforço para cumpri-las. Não cumprir sua parte pode gerar uma situação desagradável que cresce e leva à uma espécie de explosão, na qual todos podem reagir de forma alterada. Também é importante ter espaços para nós mesmos. Às vezes o espaço físico não favorece, mas é preciso buscar ter espaço para si mesmo, sem excessos, buscando o equilíbrio entre a convivência e o tempo para si. É preciso ter a capacidade de reconhecer quando a convivência está excessiva e quando é preciso se recolher um pouco mais. Por fim, cuidar da nossa comunicação também é fundamental. Às vezes, estamos muito acostumados a achar que só porque uma pessoa tem intimidade conosco ou porque ela nos ama, nós podemos falar com ela de qualquer forma, inclusive de forma agressiva. É interessante a gente cuidar disso, aproveitar essa oportunidade para aprimorar nossa forma de se comunicar, buscar uma comunicação em que nós possamos dizer como a gente se sente, e não apontar os erros de novo. Isso já favorece bastante na convivência com os que estão ao nosso redor. Ao invés de dizer "você fez isso", é muito mais interessante dizer "eu me senti invadido em tal momento" ou "eu me senti triste com tal atitude", ao invés de culpar o outro, reconhecer e mostrar a ele como aquilo te afetou, porque isso abre a comunicação. Conversar sobre o que está incomodando e sentindo e não colocar as coisas embaixo do tapete, de forma respeitosa e empática, é fundamental.

Em relação às práticas de autocuidado, o que podemos buscar fazer para que a ansiedade e a sensação de impotência não nos dominem durante todos os momentos?
Quando estamos em situação de crise, a gente precisa buscar recursos externos para conseguir suportar e dar conta daquilo. Se você está sentindo tédio em ficar em casa, um jeito de ressignificar esse tempo livre seria utilizando esse tempo de uma forma que te beneficiasse. Muita gente diz que não tem tempo para ler, para praticar atividade física ou simplesmente para relaxar: talvez agora seja o momento de usar esse tempo para essas atividades que você desejava há muito tempo realizar. No entanto, isso não pode ser em forma de cobrança: há muitas pessoas sugerindo que as pessoas devem ser muito produtivas o tempo todo e fazer mil coisas, e não é bem assim. Nós temos que respeitar o nosso fluxo, é uma situação global que nos afeta, então é claro que isso vai afetar nossa produtividade, que vamos ficar tristes, que vamos ter medo. Mas a ideia é que a gente olhe para isso e busque as práticas de autocuidado, desde que respeitemos os nossos limites. Pense em atividades plausíveis e que não façam você se sentir cobrado, porque a pressão sobre todos é grande nesse momento, de forma que você prometa algo a você que você consiga cumprir, para não deteriorar sua autoconfiança, começar estabelecendo pequenas metas que você sabe que consegue cumprir é um primeiro passo importante. É preciso sempre lembrar que estamos em um momento atípico: é preciso ter compaixão, paciência e cuidado com nós mesmos.