TAM fará aniversário fechado, mas obras seguem

Publicação: 2020-03-18 00:00:00
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Michelle Ferret
Repórter
Colaborou: Cinthia Lopes, editora 

Os cartazes da peça “Chapeuzinho Vermelho” e alguns ingressos não vendidos foi tudo o que restou do material do produtor Ronaldo Negromonte, da última semana em que o Teatro Alberto Maranhão funcionou. Ele se considera um dos mais prejudicados com o fechamento e guarda até hoje os papéis em forma de memória. Era manhã de uma quinta-feira, 16 de julho de 2015, quando o TAM fechou suas portas para uma reforma que a princípio duraria de três a seis meses, mas não aconteceu no prazo.   “Eu estava com o espetáculo “Crise de Riso”, do humorista Seu Dedé e no domingo teria espetáculo “Chapeuzinho Vermelho”. Na terça-feira anunciaram o fechamento. Eu perdi tudo, cartazes, panfletos, todo material de divulgação. E não tive nenhum retorno”, lembra Negromonte.

Créditos: Magnus NascimentoEntre andaimes e lonas, reforma do Teatro  Alberto Maranhão segue em ritmo contínuo, mas sem previsão de conclusão. A obra está sendo acompanhada por comissão formada por membros ligados ao setor de teatroEntre andaimes e lonas, reforma do Teatro Alberto Maranhão segue em ritmo contínuo, mas sem previsão de conclusão. A obra está sendo acompanhada por comissão formada por membros ligados ao setor de teatro


A interdição aconteceu por determinação do Ministério Público, na época. após laudo do Corpo de Bombeiros apontar problemas nas instalações elétricas e hidráulicas, inexistência de projeto para combate à incêndios, de drenagem, além de falta de acessibilidade para portadores de necessidades especiais. 

Com parte dos ingressos vendidos, Ronaldo foi pego de surpresa, sem nenhuma reunião ou comunicado antecipado sobre a medida. “Ainda tentei dialogar, porque já tinha vendido alguns ingressos,  mas simplesmente fechou e pronto. Quem tinha o evento ficou sem resposta, foi uma das maiores tristezas por que o TAM era a casa onde eu realizava meus eventos”.

Foi prometida a viabilidade da utilização do auditório do Centro de Convenções, na Via Costeira, enquanto os problemas não eram resolvidos, que seria uma forma de dar uma contrapartida para os produtores que estavam com seus projetos em andamento. O que não aconteceu. 

Como forma de lembrar o aniversário do TAM que é comemorado no dia 24 de março, quando fará 116 anos,  Ronaldo comanda o grupo “Abraço do Teatro Alberto Maranhão”, que reúne trabalhadores órfãos do TAM e se unem para um abraço simbólico em torno do aniversário do patrimônio.

Hoje, o produtor está trabalhando com cinema em Parnamirim. Ele leva as escolas para o cinema e tenta suprir um pouco da falta que o teatro faz em sua vida. “Estou fazendo alguns filmes para crianças e levo as escolas para assistir. O cinema fica perto do shopping com 120 lugares”. 

Seu sonho recente foi trazer o espetáculo do Rei Leão, com 18 pessoas em cena. “Ainda estou em busca do espaço. São 490 lugares no auditório do IFRN e o Teatro Riachuelo fica inviável pelo valor da pauta e assim seguimos, a dificuldade é muito grande”, desabafa.

O produtor Willian Collier tinha show marcado para o projeto Seis e Meia com a cantora Valéria Oliveira e Xangai como convidado nacional e não teve contrapartida. Alexandre Maia, produtor responsável pela peça A.M.A.D.A.S, monólogo com Elisabeth Savala, apresentaria entre os dias 24 e 26 de julho. Fez a devolutiva dos ingressos e não houve mais a apresentação alguma.

Willian Collier, que chegou a fazer 2 mil apresentações com o Projeto Seis e Meia no Teatro Alberto Maranhão, lembra com carinho da época e da tristeza da lacuna que o TAM faz.  “O Teatro tem uma grande importância para nós produtores e toda cadeia Artística. Realizei cerca de 2.000 shows naquele Teatro. O público tinha ingressos mais baratos e o produtor tinha um custo menor. É importante a reforma inclusive que se consiga um estacionamento próximo pois é uma grande reivindicação do público como a digitalização dos ingressos. A bem da verdade Natal já poderia ter um Teatro público maior para atender também a grandes espetáculos”, avalia.

O Seis e Meia existiu desde 1995 até o fechamento do teatro, quando aconteciam apresentações todas as terças-feiras, sendo a abertura sempre um grupo ou cantores locais e uma atração nacional. “O que tenho mais saudade é de ver artistas que só viriam em um projeto como esse como Cláudio Nucci, Tunai, Biafra, Dalton, Walter Franco, Vinicius Cantuária, Ná Ozetti, Van Der Lee”, conta. Collier acredita que seria mais difícil retomar o projeto por que agora é patenteado, mas sente o desejo de retomar se for por Lei de Incentivo, pois o sucesso o preço baixo do ingresso em torno de 10 reais. 

“Obra de excelência”, diz membro da comissão de fiscalização
No lugar da fumaça de gelo seco dos antigos espetáculos, temos a fumaça de cimento e o som de britadeira. Na fachada que conserva linhas e elementos da arquitetura francesa do final do século XIX, hoje vemos andaimes; e a escultura feita por Mathurin Moreau é adornada pelos pés por uma lona laranja. Nos tapumes prateados que cobrem a frente da obra, um aviso: 7.678.513,60 é o valor do investimento registrado. Prazo de entrega: 10 meses. A reportagem da TRIBUNA DO NORTE visitou o espaço de obras, mas não teve acesso ao interior do prédio. Sobre o andamento do serviço, a  Fundação José Augusto emitiu nota informando que “as obras de restauro do Teatro Alberto Maranhão prosseguem em ritmo normal desde o seu início, com serviços executados nas fachadas, portas, janelas, cadeiras, poltronas, coberturas; instalações de climatização, redes elétricas, hidráulicas, sanitárias e combate a incêndio, acessibilidade, entre outros.” Segundo informação, o percentual de execução já ultrapassou os 30% e o Governo do Estado trabalha para estabelecer uma previsão oficial para a conclusão da obra.”

Segundo ainda a nota, o  projeto de restauração do equipamento foi aprovado e está sob fiscalização pelo Instituto do Patrimônio Artístico Nacional (IPHAN) e a Fundação José Augusto instituiu uma comissão de fiscalização, composta por sete integrantes da sociedade civil do setorial de teatro do RN.

O restauro do equipamento foi orçado em R$ 9,6 milhões e conta com recursos do Banco Mundial, por meio do Governo Cidadão. No entanto, o projeto elaborado “continha erros técnicos, que exigiram adequações já realizadas pela atual gestão. Um exemplo é a não inclusão da reforma da caixa cênica do teatro. O Governo do Estado estuda alternativas para resolver o impasse, mas depende de disponibilidade de recursos.”

 Na prática, entre julho de 2015 até hoje, quase cinco anos depois, foram feitos reajustes de projeto que contemplava intervenções em praticamente todas as áreas do teatro, como pintura da parte externa buscando as cores originais, modernização dos sistemas de iluminação e som,  sistema de climatização, restauração das poltronas, três elevadores com acessibilidade ao salão nobre e camarotes, novo piso no átrio central com inclinação e material permeável para evitar inundações, entre outros.

De acordo com apurações da TRIBUNA DO NORTE, e informações de uma pessoa que trabalha no local, estão concluídos algumas etapas importantes: a finalização dos camarins, que antes eram três e hoje são quatro, a instalação dos 3 elevadores, pintura das janelas, entre outros pontos. Apesar da colocação do equipamentos, a obra não tem prazo oficial para entrega. Parte dessa lentidão é causada pelas interrupções para cumprir as demandas do IPHAN.

Membro da comissão eleita para acompanhar as obras do TAM, o ator Sávio Araújo, professor do departamento de Artes da UFRN, lembra que estão ali para avaliar tanto o ponto de vista técnico, como do ponto de vista dos artistas.  Ao conversar com a reportagem, o professor disse que “as obras seguem dentro da normalidade,  tocada da melhor maneira possível”. Como é tombado pelo IPHAN, o prédio “necessita que todos os procedimentos sejam catalogados pelos padrões  do fiscalizador, isso acarreta em uma demora”, explica.

Ele conta que a comissão realiza reuniões frequentes para o acompanhamento semanal das obras. “É importante saber que o Teatro envolve uma gama de licitações específicas. Ronaldo Costa (Diretor do TAM) tem experiência e tudo está acontecendo do jeito que pode ser. Mas como não é uma obra qualquer, os procedimentos são diferenciados”, disse. 

Sobre o prazo de entrega, Sávio não acredita que aconteça ainda este ano.

Segundo ele, o prédio estava em situação de “deteriorização devido a quantidade de cupins nas portas. As tábuas foram todas enumeradas e recolocadas uma a uma. Até o tipo de material utilizado é vistoriado pelo IPHAN, tudo é passivo de multa, por isso é uma obra muito delicada, é restauração de patrimônio histórico e precisamos respeitar isso”, disse. Para ele “a volta do TAM vai ser fundamental para a revitalização do bairro da Ribeira e vai ajudar a manter os equipamentos culturais ao redor”.

RAIO-X dos teatros do RN:
TAM, Natal: construção concluída em 1904, a mais antiga casa de espetáculos do RN tem 660 lugares e foi fechada devido problemas elétricos e falta de projeto de combate a incêndio. Sem previsão de reabertura

Sandoval Wanderley, em Natal: fechado desde 2009 por falta de saída de emergência e acessibilidade, o TSW já teve projeto de reforma aprovado pelo MinC, mas a proposta que prescreveu.

Teatro Adjuto Dias, em Caicó: Reaberto recentemente após obra que iniciou em 2009. Possui 439 lugares, palco com 15 metros boca de cena, 13 de profundidade e 6 metros de altura

Teatro Lauro Monte Filho, Reaberto em 2018 após vários anos fechado.  Tem capacidade para 550 pessoas.

Cine Teatro de Parnamirim: Integra um complexo cultural e foi inaugurado em 2014. Está parcialmente fechado para conclusão da licitação que irá equipar o espaço com iluminação específica

Teatro do Deart/UFRN: de formato multiuso, começou a ser construído em 2009 e já consumiu R$ 1,8 milhão de recursos federais. Precisa de pelo menos mais 2,5 milhões para ser equipado e começar a funcionar

Teatro de Cultura Popular, em Natal:  Inaugurado em 2 de agosto de 2005; Número de poltronas 168; As pautas estavam abertas, mas suspensão ocorreu esta semana para conter o avanço do covid19.

Atualizado pela editoria em 18/03/2020