Tatuadores se reinventam e buscam alternativas durante pandemia

Publicação: 2020-07-05 00:00:00
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Tádzio França
Repórter      

Tatuagem é uma arte que exige técnica, criatividade e sensibilidade. Qualidades que continuam sendo exigidas dos tatuadores num momento em que todos estão impedidos de atuar por questões de saúde e isolamento causadas pela pandemia. Com os estúdios fechados e a clientela em aguardo, os profissionais do traço na pele foram obrigados a pensar em alternativas para se manter em movimento, seja pela saúde mental, seja por questões financeiras – ou ambas. A reinvenção também está sendo desenhada por eles.

Ruy Pinheiro tatua há 14 anos, e desde que precisou fechar temporariamente seu Real Studio Tattoo por ocasião da pandemia, trocou as agulhas pelos pincéis, e a pele humana pelas telas: o tatuador levou seu talento no traço e nas cores para as aquarelas. Ruy está pintando quadros com temáticas históricas da cidade, e recebendo muitas encomendas por isso. Um hobby curioso e afetivo que foi naturalmente se transformando num negócio.

Tatuagem e artes visuais

O tatuador conta que sempre experimentou a maior diversidade possível de artes plásticas, mas com o ritmo habitual do estúdio não conseguia tempo para conciliar novas aventuras no desenho. “Porém nesse período de isolamento social ganhei tempo para estudar em casa e escolhi a aquarela, já que há muito tempo guardava esse desejo, inspirado em outro artista potiguar, o Fernando Travis”, conta.
Créditos: Alex RégisRuy Pinheiro tatua há 14 anos e, desde que precisou fechar seu estúdio trocou as agulhas pelos pincéis, e a pele humana pelas telasRuy Pinheiro tatua há 14 anos e, desde que precisou fechar seu estúdio trocou as agulhas pelos pincéis, e a pele humana pelas telas
O que Ruy não esperava era a comercialização das telas, já que o objetivo no começo era só estudar pintura. “Enquanto postava o passo a passo das pinturas nas redes sociais, não pude resistir ao leilão que se criou internamente entre os seguidores do Instagram, principalmente nesse momento de recessão financeira”, afirma. Aos poucos todos os quadros foram sendo vendidos.

As telas do tatuador também refletem sua preferência por um tema em especial: a conservação de paisagens históricas da capital potiguar. “Sou fascinado por história e me preocupo muito com o poder da indústria da especulação imobiliária aqui em Natal. O nosso patrimônio arquitetônico está sob constante risco de ser substituído por arranha-céus ou estacionamentos”, explica. Daí o interesse em conservar as imagens em seus quadros.

Ruy escolheu alguns lugares que, segundo ele, são protagonistas de vários momentos da história natalense, como a Fortaleza dos Reis Magos, a igreja da Nossa Senhora dos Navegantes (na Redinha Velha), e o Memorial Câmara Cascudo, na Cidade Alta. No momento ele está pintando o já demolido Hotel Reis Magos. O tatuador e pintor procurou fazer um contraponto com a realidade dos prédios que caem por falta de manutenção ou cedem à especulação imobiliária.

Sobre tatuar peles e pintar telas, Ruy atesta que há “um mundo de diferenças”. “Primeiro em relação à liberdade de pintar numa tela minhas memórias afetivas, pois na tatuagem eu conto as histórias do cliente, e não as minhas. Além disso, estou me divertindo em pintar no conforto de minha casa na companhia de minha família”, diz. Quando as atividades voltarem ao normal, o tatuador acredita que vai diminuir o tempo dedicado às aquarelas, mas não vai abandoná-las.

“Minha principal atividade econômica é a tatuagem, mas não conseguirei me afastar da aquarela, estamos em ‘lua de mel’. Com certeza artisticamente houve um divisor do antes e depois da chegada da aquarela na minha carreira”, afirma. Ruy anunciou a suspensão das atividades em seu estúdio desde 20 de março, até poder reabrir oficialmente, mantendo a ordem das tatuagens já agendadas. Ele ressalta que alguns clientes aceitaram, em solidariedade, antecipar os pagamentos para ajudar o estúdio durante esse período.

Burger tattoo

Gustavo Rocha, tatuador há seis anos, sempre gostou de cozinhar, de receber os amigos em casa, e já trabalhou com bar. Ele nem imaginava que um dia esse conjunto de qualidades poderia vir a calhar num momento propício. Sem tatuar desde o início da quarentena, há uma semana ele lançou com a namorada o ‘Rocha Burg’, um sanduíche de produção artesanal que pode ser entregue em delivery, com encomendas no Instagram.
Créditos: CedidaGustavo Rocha, tatuador há seis anos, sempre gostou de cozinhar e lançou a produção de sanduíches na pandemiaGustavo Rocha, tatuador há seis anos, sempre gostou de cozinhar e lançou a produção de sanduíches na pandemia
“O hambúrguer já era algo que eu estava estudando há algum tempo, e com a pandemia as coisas foram ganhando forma e junto com a necessidade de ter alguma alternativa financeira resolvi arriscar”, conta ele, ressaltando que no próprio estúdio já havia uma estrutura parecida com um bar, na qual duas vezes por ano se fazia um evento grande, juntando amigos, clientes e tatuadores. Nesses eventos Gustavo já servia salgados feitos por ele e sempre ouvia a brincadeira dos amigos de que "deveria fazer pra vender". Pois então.

Apesar de estar funcionando há apenas uma semana, o Rocha Burg tem tido uma ótima recepção, segundo Gustavo, que se diz animado com o rumo do novo negócio temporário. Por ser uma produção caseira e artesanal, a menu tem apenas duas opções: o "Rocha Burg" que é um blend de carne suína, e o "Picanha Suína", receita criada nas reuniões caseiras. Segundo ele, o diferencial tem sido o pão, feito com uma cerveja tipo IPA, que dá um sabor único a cada sanduíche. Gustavo faz tudo, dos molhos à montagem. Os pedidos são feitos às sextas e sábados.

Gustavo Rocha conta que teve o negócio da tatuagem 100% afetado pela pandemia. Mas ele espera voltar com tudo após a situação voltar ao (quase) normal. “Infelizmente ainda estamos num momento difícil e as pessoas precisam se cuidar. Mas com certeza os hambúrgueres vão continuar, ainda não sei em qual formato ou frequência, por enquanto estou deixando a coisa ir tomando forma para saber qual será a melhor caminho a seguir”, diz ele, que optou por parar tudo, se cuidar e aprender coisas novas.

Xilogravuras na pele

Mesmo com as agulhas paradas, Gustavo não deixou de criar. Aproveitou o tempo livre para elaborar novos desenhos, e desde o início de abril começou um projeto em que homenageia o nordeste; todos os desenho são feito com a linguagem visual da xilogravura. “Esse projeto já conta com mais de 60 desenhos criados durante a pandemia, que vão de lugares a objetos que me trazem boas lembranças daqui do nordeste”, diz.

Entre as imagens estão cactus, cajus, jangadas, filtros, frutas, e lugares como a Fortaleza dos Reis Magos, o Farol de Mãe Luíza, e o Hotel Reis Magos. “Esse projeto está sendo a minha principal fonte de renda, no qual consigo fazer pré-vendas dos desenhos que vão ser tatuados quando o isolamento passar. Só tenho a agradecer a todos os clientes que estão acompanhando e reservando os desenhos deste projeto”, conclui.