Taxa de HIV Aids sobe 81,7 por cento no RN

Publicação: 2019-11-30 00:00:00 | Comentários: 0
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Ícaro Carvalho
Repórter

A taxa de detecção de HIV/Aids no Rio Grande do Norte disparou nos últimos dez anos. O aumento foi de 81,7% entre 2008 e 2018, para grupos de 100.000 habitantes. Neste período, foi o maior crescimento percentual entre todos os estados. No RN, por exemplo, a taxa em 2018 foi de 20,9. Dez anos antes, esse coeficiente era de 11,5. Além do Estado, outros 15 estados apresentaram aumento neste intervalo de tempo.  Os números do RN vão na contramão da média nacional, que apresentaram redução.

O Rio Grande do Norte dispõe de uma rede de acolhimento para as pessoas que são infectadas com a doença. São 14 unidades de SAES
O Rio Grande do Norte dispõe de uma rede de acolhimento para as pessoas que são infectadas com a doença. São 14 unidades de SAES

Os dados são do Ministério da Saúde, divulgados em Boletim Epidemiológico nesta sexta-feira (29). Além de ter o maior aumento percentual em dez anos, em 2018, por exemplo, a taxa do Rio Grande do Norte foi a maior do Nordeste e a 10ª do Brasil. Entre 2008 e 2018, segundo o boletim, o RN teve 5.501 casos de HIV notificados.

Segundo a Secretaria de Estado da Saúde Pública do RN (Sesap), o Rio Grande do Norte dispõe de uma rede de acolhimento para as pessoas que são infectadas com a doença. São 14 unidades de Serviços de Atenção Especializadas (SAEs), que atendem pessoas com HIV/AIDS e Hepatites Virais. Destes, 12 são administrados pelos municípios e outros dois pela Sesap. No Estado o serviço é ofertado pelo Hospital Giselda Trigueiro, em Natal, e pelo Hospital Rafael Fernandes, em Mossoró.

Existem SAEs também em Natal, Mossoró, São José do Mipibu, Santa Cruz, São Paulo do Potengi, Pau dos Ferros, Parnamirim, São Gonçalo do Amarante e Macaíba. A Sesap informou que, em outubro, 13.022 pacientes foram atendidos nos 14 SAEs. O número de usuários cadastrados, no entanto, não foi divulgado.

De acordo com o médico da enfermaria de HIV do Giselda Trigueiro, Dr Antônio Araújo, há gargalos nessa rede. Na opinião dele, cada município deveria ter um SAE para atender os portadores daquele município, e só em caso de complexidade, encaminhar para o Giselda Trigueiro.

“Tem doente de Pau dos Ferros que sai de 20h, um doente desse não vai ter uma adesão jamais, em tempo algum do medicamento. É muito longe, dizem que não tem dinheiro para pagar. É muito difícil. O que eu acho é que cada cidade deveria ter um médico para atender esses pacientes de HIV, para dar o diagnóstico e acompanhar. Quando houvesse um problema maior enviasse para o hospital referência que é o Giselda. Mas, continua do mesmo jeito, as coisas vão acontecendo e aumentando os casos”, disse.

Para ter acesso ao tratamento, coberto 100% pelo Sistema Único de Saúde, os usuários são encaminhados à rede a partir do teste rápido e da identificação da infecção. O paciente já inicia o tratamento de forma imediata com garantia da medicação pelo Ministério da Saúde.

De acordo com a Sesap, a pasta conta, atualmente, com todos os medicamentos disponibilizados pelo Ministério da Saúde: Lamivudina, Zidovudina, Raltegravir, Tenofovir, Abacavir, Ritonavir, Efavirenz, Dolutegravir, Darunavir. Eles são utilizados de maneira individual ou associados.

A reportagem tentou contato com a Sesap para ouvir Alessandra Lucchesi, subcoordenadora de Vigilância Epidemiológica da pasta, mas ela estava em Brasília, para compromissos de agenda, e não pôde atender a reportagem até o fechamento desta edição.

Óbitos
De acordo com o boletim do MS, 1.201 pessoas morreram por causa básica aids no Rio Grande do Norte, entre 2008 e 2018. Neste período, o coeficiente de mortalidade por 100 mil habitantes pela doença aumentou 45,8% no Estado: de 2,4 para 3,5 em dez anos.

Segundo o boletim, o RN apresentou o segundo maior aumento entre o período em todo o Brasil. O Estado ficou apenas atrás do Acre, que saiu de 1,7 para 3,4. Ao lado desses dois estados estão outras oito unidades federativas que apresentaram aumento na taxa nesse intervalo de tempo.

Brasil reduz taxa e número de mortes
A nível Brasil, a taxa de detecção de HIV/AIDS por 100 mil habitantes vem apresentando redução nos últimos anos. Em 2011, primeiro ano que apresentou queda, a taxa caiu de 22,0 para 17,8 em 2018. Essa redução se reflete nos números de vidas poupadas, segundo o Ministério da Saúde. O Brasil conseguiu evitar 1,6 mil mortes por Aids entre os anos de 2014 e 2018. Nos últimos cinco anos, o número de mortes pela doença caiu 22,8%, de 12,5 mil em 2014 para 10,9 mil em 2018. 

Mesmo com os dados positivos, o MS acredita que 135 mil pessoas vivem com HIV no Brasil e não sabem. Nesta sexta, a pasta lançou a Campanha de Prevenção ao HIV/Aids. O foco é incentivar pessoas que não se preveniram em algum momento da vida a procurar uma unidade de saúde e realizar o teste rápido. Com o tratamento adequado, o vírus HIV fica indetectável, ou seja, não pode ser transmitido por relação sexual, e a pessoa não irá desenvolver aids.

A doença
A aids é a doença causada pela infecção do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV é a sigla em inglês). Esse vírus ataca o sistema imunológico, que é o responsável por defender o organismo de doenças. As células mais atingidas são os linfócitos T CD4+. O vírus é capaz de alterar o DNA dessa célula e fazer cópias de si mesmo. Depois de se multiplicar, rompe os linfócitos em busca de outros para continuar a infecção.

Transmissão
A transmissão do HIV e, por consequência da AIDS, acontece pela falta de prevenção nas relações sexuais, podendo ser o sexo vaginal, anal ou oral sem uso de preservativo; uso de seringa por mais de uma pessoa; transfusão de sangue contaminado; da mãe infectada para seu filho durante a gravidez, no parto e na amamentação e  instrumentos que furam ou  cortam não esterilizados.

Prevenção
Para se prevenir, a recomendação é usar corretamente a camisinha em todas as relações sexuais e apenas agulhas e seringas descartáveis. Para evitar que a aids passe da mãe para o filho, todas as gestantes devem começar o pré-natal o mais cedo possível e fazer o teste de aids.

Além disso, outro cuidado é referente as doenças sexualmente transmissíveis, as DST. Elas podem trazer sérios problemas de saúde e aumentam a chance de contrair o HIV.

Dr. Antônio Araújo: “O uso de preservativo, já estão deixando pra lá”

A quê o senhor atribui o crescimento desses números? Esse aumento é real, isto é, novos casos, ou isso quer dizer que estamos conseguindo atestar um maior número de casos, as pessoas indo procurar mais os testes?
Eu acho que esses dois fatores combinam bem. Mas o que eu acho é que está havendo um crescimento do número maior de pacientes HIV. Tem muitos pacientes que, às vezes se escondem, vem de um lugar para outro, não notificam, então tem algumas coisas. Mas o número está aumentando porque ninguém está ligando para a doença. O que acontece com o Ministério da Saúde: só começa a falar de Aids no dia 1º de dezembro. Depois você nunca mais vê falar sobre Aids, nem número de casos, como deve se prevenir, ninguém vê nada. As pessoas, os jovens, que sabem que têm remédio, que sabem que a doença não mata mais, que as pessoas vivem normalmente, então não estão ligando para o que vem. O uso de preservativo já estão deixando para lá. Essas coisas só combina com que as pessoas contaminem mais.

Como chegam, comumente,  esses pacientes ao Giselda Trigueiro?
Eles chegam no Giselda, alguns que não procuraram fazer o exame antes e deixaram que a doença aparecesse, uma patologia oportunista grave e às vezes até vai a óbito sem saber que tem aids. Outra condição é aqueles pacientes que nunca sabiam que tinham Aids e que tiveram uma infecção oportunista, a gente tratou e esse paciente começou a ser tratado no ambulatório. E o terceiro caso são aqueles pacientes que tomaram o remédio e deixaram de tomar o medicamento, fazendo que viesse uma infecção oportunista. Esses são as três variações de pacientes que a gente recebe. Nesse último caso isso está acontecendo muito.

Por quê isso está acontecendo?
Você sabe que existe um grau muito importante entre o setor de conhecimento da causa, pessoas que não foram educadas antes para isso, pessoas que têm um fator de consciência muito ruim e faz com que elas deixem de tomar o remédio. Muitas vezes são pessoas do interior, começam a tomar o remédio e não veem mais. Às vezes não sabem ler, escrever, outros bebem muito, são fatores que fazem com que elas deixem de tomar o medicamento.

As políticas públicas “relaxaram” nesse sentido?
Antigamente a gente fazia muita orientações em locais onde se juntava muita gente. Faziamos palestras em quartéis, escolas, em vários locais onde existia aglomeração,  conscientizando o pessoal, como se adquiria a aids, como deveria se prevenir a doença, mas isso foi se acabando. Hoje você vê raríssmas pessoas falando sobre aids e raríssimas pessoas, na imprensa, também falando sobre o Aids. E o Ministério da Saúde vem conduzindo essa coisa somente nessa época em 1º de dezembro. Ou a gente começa a falar na prevenção, daqueles pacientes que começarem a tratar, devem tratar para o resto da vida, e a prevenção com uso de preservativos.

Taxa de HIV/Aids (100.000 habitantes) no Rio Grande do Norte:
2008: 11,5

2018: 20,9

Crescimento de 81,7%

Maior crescimento percentual do Brasil e maior taxa do Nordeste em 2018   
Casos de HIV notificados no RN entre 2008 e 2019: 5.501

Taxa de óbitos por Aids (100.000 habitantes) no Rio Grande do Norte:
2008: 2,4

2018: 3,5

Crescimento de 45,8%;

Segundo maior crescimento percentual do Brasil;

Mortes por Aids no RN entre 2008 e 2019: 1.201

Brasil
Taxa de HIV/Aids (100.000 habitantes) no Brasil

2008: 21,6

2018: 17,8

Casos de HIV notificados no Brasil entre 2008 e 2019: 461.743

Taxa de óbitos por Aids (100.000 habitantes) no Brasil:
2008: 6,2

2018: 5,3

Queda de 14,5%;











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