Ufrn celebra obra de Mário Tavares

Publicação: 2017-05-20 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Regente titular por quase 40 anos da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal no Rio de Janeiro, considerado um dos melhores intérpretes da obra de Heitor Villa-Lobos e com experiência internacional de ter regido como convidado importantes orquestras mundo afora, o violoncelista potiguar Mário Tavares (1928-2003) é um dos nomes mais importantes da música brasileira, mas com reconhecimento praticamente inexistente em sua terra de origem.

Mário Tavares regeu a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do RJ durante 38 anos
Mário Tavares regeu a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do RJ durante 38 anos

Nascido em Natal, na rua Jundiaí, Mário vem de uma família com fortes ligações culturais. Ele iniciou os estudos musicais aos sete anos. É da linhagem de alunos do renomado professor Thomaz Babini (1885-1949), músico italiano que aportou em Natal no início do século XX e  revelou para o mundo outros violoncelistas potiguares, como Nany Devos, o filho Ítalo Babini e o enteado Aldo Parisot.

“Mário é um dos primeiros grandes nomes da música brasileira do século 20. Tinha competência como maestro e como instrumentista. Foi uma figura de ponta no Rio de Janeiro quando a cidade era o centro cultural do país”, diz o violoncelista e professor da Escola de Música da UFRN, Fábio Presgrave. O músico carioca credita a Mário Tavares papel fundamental em sua formação. “Aos 30 anos, tive minha primeira experiência em orquestra, no Rio de Janeiro. De cara peguei como regente o Mário Tavares. Foi incrível. Depois de ter passado por outras orquestras e visto outros maestros, percebo o quanto Tavares era extraordinário, rápido na condução dos músicos. Comecei com o melhor”.

Fábio é um dos organizadores do Festival Mário Tavares, evento que busca dar mais visibilidade ao maestro potiguar em sua terra natal. O festival acontece entre os dias 21 e 26 de maio, na Escola de Música da UFRN, com entrada gratuita. Na programação, palestras e recitais com professores nacionais de do Chile, além de apresentação do grupo UFRN Cellos, já no concerto deste domingo.

O festival a Mário Tavares dá continuidade a um ciclo de homenagens que a Escola de Música da UFRN tem feito a geração de violoncelistas potiguares formados pelo mestre Thomaz Babini. Em 2012 o músico lembrado foi Ítalo Babini (1928-) e em 2014 foi a vez da macaibense Nany Devos (1925-1995).

“No início do século 20, Natal teve uma escola de violoncelo inigualável na América Latina. Nany Devos, Ítalo, Aldo Parisot, Juarez Johnson, Waldemar de Almeida Jr, todos passaram pelos cuidados de Thomaz Babini e conseguiram ter projeção nacional e internacional, algo impensável para músicos saídos de uma cidade afastada dos grandes centros”, afirma Presgrave.

Em meados da década de 1930, Natal era uma pequena cidade provinciana, com pouco mais de 20 mil habitantes. Mas a elite local discutia música, moda, literatura. Depois de formados, os músicos da geração Babini tomaram rumo por orquestras mundo afora. E o professor partiu para Recife, onde continuou a carreira, até falecer em 1949. “Depois dessa geração tivemos um certo hiato. Mas com a Escola de Música da UFRN estamos retomando essa tradição no violoncelo. Hoje temos uma turma forte aqui e já exportamos professores e instrumentistas para várias orquestras do Brasil. E também podemos dizer que a UFRN é um atrativo para músicos estrangeiros”, comenta.

Sobre a geração de Babini, Presgrave lamenta que seus nomes sejam tão pouco conhecidos no Estado. Para ele, os potiguares precisam se apropriar de seus músicos. “Nany teve carreira no Rio de Janeiro, assim como os outros conterrâneos. O Ítalo é um dos maiores violoncelistas vivos. Durante 40 anos foi o 1º violoncelista da Orquestra Sinfônica de Detroit (EUA)”.

O próximo nome a ser lembrado será o de Aldo Parisot, enteado de Thomaz Babini. “Aldo foi o primeiro brasileiro a tocar na Filarmônica de Berlim, feito só repetido décadas depois. Ele está para a música potiguar como Abraham Palatnik está para artes visuais. Ainda está vivo, dá aulas na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, aos 95 anos”, comenta.

Talento precoce
O talento de Mário Tavares para a música se revelou cedo. Aos 15 anos, já integrava a Orquestra Sinfônica de Recife, para onde foi depois das aulas em Natal com Babini. Apesar da origem nordestina, a vida profissional de Tavares se desenvolveu principalmente no Rio de Janeiro, cidade em que fez morada a partir dos anos 1940. Lá, diplomou-se em violoncelo, composição e regência.


Fábio Presgrave: "Mário é um dos primeiros grandes nomes da música brasileira do século 20"

Em 1960, Tavares assume como regente titular a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal no Rio de Janeiro, cargo que desempenhou por 38 anos até sua aposentadoria em 1998. Preocupado com a questão profissional dos músicos, ele também foi fundador da Associação Brasileira de Violoncelistas . Em 1991, foi agraciado pelo Governo Brasileiro com a Ordem do Rio Branco.

Compositor
Como maestro, Mário Tavares regeu como convidado as principais orquestras brasileiras e orquestras nos Estados Unidos, Portugal, Porto Rico, Chile, Colômbia, Peru, Romênia e Bulgária. As várias demandas da profissão foram afastando do instrumento que o destacou, tanto que Fábio Presgrave conta que registro do músico tocando violoncelo são raros. “Na pesquisa para esse festival encontramos um vídeo em que o Mário aparece tocando”, conta o organizador.

Outra faceta do potiguar foi a de compositor. Tavares deixou  obras de grande importância, como “Rio, a epopéia do morro", um cantada para coro e orquestra, e “Divertimento para orquestra de violoncelos”.

Programação
Além de homenagear o maestro potiguar, o Festival Mário Tavares será um momento para mostrar a tradição da cidade com relação ao violoncelo, retomada com a Escola de Música da UFRN. O evento será iniciado no domingo (26), a partir das 18h, com o concerto de abertura do grupo UFRN Cellos, formado por 12 músicos. No repertório será tocada “Divertimento para orquestra de violoncelos”, que peça nunca chegou a ser tocada completa em Natal.

Na segunda (22), às 16h, o professor Martin Osten faz palestra sobre David Geringas, lituano de técnica diferenciada, considerado um dos maiores violoncelistas vivos. Na quarta (24), às 20h30, Max Uriarte e Fábio Presgrave promovem recital e palestra sobre o músico Neukomm e os primórdios do violoncelo no Brasil. “Neukomm foi considerado o compositor da corte brasileira. Foi trazido para o país pela imperatriz Leopoldina.  O Max tem um trabalho de pesquisa sobre o músico austríaco e encontrou a primeira peça de violoncelo composta no Brasil que se tem notícia”, comenta Presgrave. O encerramento será na sexta (26), às 17h30, com a palestra sobre a história e obra de Mário Tavares, ministrada pelo professor e pesquisador Cláudio Galvão.


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