Teatro aos olhos da crítica

Publicação: 2017-04-21 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter


Espaço de diálogo tanto com o público quanto com artistas, a crítica tem papel importante no amadurecimento artístico do segmento cultural. No Rio Grande do Norte, uma das cenas mais organizadas estava carente desse elemento. Estava. As Artes Cênicas do estado hoje podem contar com o Farofa Crítica. O site surgiu no apagar das luzes de 2016 e desde então vem oferecendo reflexões sobre os vários espetáculos que são apresentados em Natal, seja de teatro, dança ou performance.

Cena do espetáculo Black Off, apresentado em São Paulo
Cena do espetáculo Black Off, apresentado em São Paulo

A frente do projeto estão Diogo Spinelli, George Holanda, Heloisa Sousa, Paul Moraes, Paulinha Medeiros e Rafael Duarte – com exceção de Rafael, jornalista, todos são integrantes de coletivos de teatro. Juntos, eles bancam do próprio bolso as despesas da empreitada. “Antes de sermos críticos, somos artistas”, afirma Helô.

Mestre em Artes Cênicas pela UFRN e uma das fundadoras do grupo Sociedade T, suas críticas mostram um viés mais acadêmico, diferente dos outros integrantes. “Há os tratam de questões políticas, outros conduzem o texto de modo mais informal, outros numa linha jornalística. É tudo variado. Cada um tem seu jeito de fazer a leitura de uma peça e de elaborar uma crítica”, diz Diogo Spinelli, paulistano radicado em Natal, atualmente integrante do grupo Clowns de Shakespeare. “Não é à toa que o nome do site se chama Farofa Crítica. Defendemos essa mistura, que é uma mistura sem pasteurização”.

O grupo vê a crítica como um disparador de diálogo. “Não estamos para julgar um espetáculo, dar notas. O foco principal não é só soltar o que é positivo e negativo no espetáculo, mas abrir uma conversa”, explica Diogo. Para Helô, mas que mero lazer de fim de semana, a arte, sobretudo o teatro, é produção de pensamento. “Uma montagem cênica tem contexto histórico, social, político. Por trás de uma peça existe a trajetória do grupo. Uma obra suscita muitas coisas para além de julgamentos qualitativos, de notas boas ou ruins”, ressalta.

Segundo Diogo, a ideia de construir um espaço de críticas sobre o cenário das Artes Cênicas de Natal – carência antiga na cultural potiguar como um todo –, surgiu em 2013, após oficina com o crítico paulista Valmir Santos, do Teatro Jornal. Em 2016, depois de novo curso de crítica teatral, desta vez com a carioca Daniele Avila Small, do Questão de Crítica, a ideia saiu do papel.

Ele conta que o Farofa tem sido bem recebido entre os artistas. “Mesmo quando levantamos aspectos negativos de uma obra, a galera compartilha”, diz Diogo. “Quando aparecemos na plateia em alguma peça, as pessoas já perguntam se vai rolar texto depois. A gente já sente essa expectativa do atores. Isso mostra o desejo que eles têm de receber um feedback sobre o trabalho”.

Apesar da boa recepção entre a classe, Helô sente falta de mais acessos, especialmente do público. “Sabemos que desenvolver o hábito de leitura de críticas é algo lento. Em Natal as pessoas estavam desacostumadas. O comum é sair do teatro, dizer para o amigo que a peça foi legal ou ruim e depois pronto. Os comentários morrem nisso. Estamos abrindo essa conversa, com textos de variados estilos”, comenta a artista.

Heloísa Souza e Diogo Spinelli iniciaram suas carreiras no teatro e agora integram portal de crítica
Heloísa Souza e Diogo Spinelli iniciaram suas carreiras no teatro e agora integram portal de crítica

Ela ressalta que algumas críticas já estão sendo usadas como citação em trabalhos acadêmicos. “As críticas também servem como registro histórico”, diz. Helô lembra ainda que o Farofa Crítica pode também auxiliar em trabalhos de curadoria, de gente de fora do RN que pelo site tem acesso ao que é produzido no estado.

A maior parte do conteúdo do Farofa Crítica é sobre peças potiguares, algumas com mais de um crítica. Mas o grupo já teve sua primeira experiência de cobertura fora do RN, na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MIT-SP). Na ocasião, escreveram sobre todos os espetáculos da programação, publicando críticas diárias.

Os integrantes do Farofa também têm colaborado com artigos em inglês para o site americano The Theatre Times. Focado na cobertura teatral nos cinco continentes, a plataforma tem como editora brasileira a crítica Daniele Small, que já conhecendo o Farofa, convidou a turma para colaborar.

As próximas missões de cobertura do grupo são o Encontro de Dança e o Festival Trema! (PE), os dois em maio. Além disso, o grupo também está definindo como será sua participação no festival “O Mundo Inteiro É um Palco”, em Natal, no mês de setembro.

Desafios da crítica
“Nosso foco não é instigar o leitor a sair de casa para ver o espetáculo. O intuito é oferecer uma reflexão, abrir uma discussão” (Heloisa Sousa).

“Mesmo que se quisesse ter o propósito de convidar as pessoas a assistirem a uma peça, a curta temporada dos espetáculos dificultaria. Muitas vezes aconteceria de até a publicação do texto sair, a peça ter saído de cartaz. Alguns grupos já tentam temporada, como é o caso de Jacy” (Diogo Spinelli).

Teatros fechados

“Ter os teatros públicos da cidade fechados é horrível. Com o Teatro Alberto Maranhão aberto poderíamos estar recebendo mais espetáculos de fora. Essa falta de circulação de grupos de outros estados pelo RN parou. Para os artistas daqui é muito ruim, porque eles não tem como comparar o próprio trabalho com o de outras companhias”(Spinelli).

Público
“Outro dia tava lendo uma matéria do EL País sobre o ator espanhol que se apresentou para uma plateia vazia, pois não houve público interessado. Aquilo foi visto como resistência. Até é. Mas é também algo terrível, muito triste. O teatro precisa dessa relação com o público. Aqui em Natal já presenciei isso três vezes. Já paguei para ver peças onde só estava eu na plateia. Não é algo difícil de acontecer na cidade. E é sintomático de um esvaziamento de público. Muitas vezes, nem os próprios artistas da classe prestigiam”. (Heloísa Souza)

Dramaturgia
“Um dos aspectos que vejo que o teatro potiguar precisa melhorar é na dramaturgia. Ela precisa ser melhor trabalhada. Tudo bem ser fragmentada, que é algo que temos visto muito, mas ela poderia estar mais amarrada. Temos poucos dramaturgos na cidade. Acredito ser uma área que poderia ser mais contemplada com cursos”. (Diogo)


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