Teatro imigrante em Portar(ia) Silêncio

Publicação: 2015-10-06 00:00:00
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Yuno Silva
Repórter

Em tempos de crise migratória na Europa, onde refugiados da África e do Oriente Médio buscam recuperar alguma referência territorial por questões de sobrevivência, as metáforas e implicações existenciais que pontuam o espetáculo “Portar(ia) Silêncio” ganham força e atualizam as reflexões, angústias e desafios vividos pelo ator potiguar João Júnior na cidade grande. Há sete anos morando em São Paulo, envolvido em um processo contínuo de adaptação que mistura a saudade de casa com o desejo resoluto de seguir adiante, o artista decidiu exorcizar a sensação do não-pertencimento para se encontrar (e manter a própria sanidade social) no palco.
João Junior aborda a condição de imigrante, a partir de personagens que vivem a rotina do silêncio e da invisibilidade
A montagem será apresentada uma última vez esta quarta-feira (7), às 20h, no Barracão Clowns em Nova Descoberta. E como o ator está envolvido em outros projetos, é bem provável que “Portar(ia) Silêncio” demore a retornar por essas bandas – a peça já está no circuito há cinco anos, faz parte do repertório do Coletivo Estopô Balaio, grupo de teatro fundado em São Paulo por João Júnior que junta outros integrantes nordestinos.

O monólogo desembarca em Natal após breve passagem por Portugal; e uma nova temporada em São Paulo está sendo articulada, onde a peça foi bem recebida pela crítica especializada e citada entre as melhores estreias de 2011. Vale lembrar que o espetáculo começou sua trajetória com patrocínio do Prêmio Myriam Muniz de Teatro, da Funarte/MinC.

Antes de seguir, porém, é importante não pensar em “Portar(ia) Silêncio” como um muro de lamentações ou uma sessão de psicanálise: trata-se de uma provocação cênica que identifica, problematiza e tira proveito da dificuldade inerente de se sentir deslocado em um terreno desconhecido. Para chegar a esse objetivo, João Júnior traz à tona histórias de nove porteiros nordestinos anônimos na metrópole; discursos reais que o ator funde às próprias experiências em uma pegada documental.

“Iniciei o processo de criação motivado por minha condição de migrante. Quando colhi os primeiros depoimentos percebi que precisava de um recorte, e como os cinco primeiros entrevistados eram porteiros segui esse caminho, começando pelo porteiro do prédio onde moro”, disse o ator, que passou um ano nesse processo de pesquisa e construção.

Ele explicou que “a invisibilidade, o silêncio e a suspensão” formam o tripé que sustenta o espetáculo, pois geralmente os porteiros trabalham reclusos, em silêncio e o fato de serem migrantes os deixam 'suspensos' por estarem longe de suas origens. “A portaria é um lugar de passagem e me sentia muito assim logo que cheguei em São Paulo: em trânsito! Estava em um lugar onde minha identidade passou a ser um número, seja do CPF, do cartão de crédito ou do cartão do ônibus”.

Sem início, meio ou fim
“Portar(ia) Silêncio”, como não poderia deixar de ser, começa na porta do teatro, onde um monitor de segurança – ligado a cinco câmeras – mostra o ator se aquecendo antes de entrar em cena. Cenário e figurino são austeros, o foco está no discurso e não nos acessórios. O ator informa que, de certa maneira, ao longo do espetáculo, o espectador toma ciência do modo de produção apesar de não haver interação do artista com o público. O debate é poético, a narrativa subjetiva (oral e corporal), e as memórias que alicerçam o discurso estão embaralhadas de modo que torna inviável tentar separar o que é real e o que é ficção.

“Não há uma sucessão de acontecimentos, como geralmente vemos em outros espetáculos; 'Portar(ia) Silêncio' não tem começo, meio e fim, nem essa expectativa de 'e o que é que vem depois, e depois, e depois...'. Percebo como o oposto disso. Começo a peça em silêncio, por exemplo”. Em cena, imagens projetadas em um véu que divide o palco complementam a dinâmica da performance do homem sentado em sua portaria que narra de forma fragmentada as próprias histórias e as de outros.  “Quando me vi em São Paulo passei um período meio psicótico: andava com uma câmera registrando meu corpo na cidade. Registrava o acordar, o ir para o trabalho... e esse material acabou virando parte do espetáculo junto com o vídeo dos depoimentos”.

A concepção, dramaturgia e pesquisa de “Portar(ia) Silêncio” é do próprio João Júnior, que recebeu orientação artística e no roteiro de Luiz Fernando Marques. A preparação corporal é de Joana Levi, a edição dos vídeos é de Johann Jean e a trilha sonora assinada por Vitor Santhiago.

Serviço
Apresentação de “Portar(ia) Silêncio”, com João Júnior.
Nesta quarta (7), às 20h, no Barracão Clowns – Av. Amintas Barros, 4661, Nova Descoberta.
Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia).
Informações: 3221-1816.