Natal
Tecnologia mais moderna é elétrica
Publicado: 01:00:00 - 19/10/2014 Atualizado: 10:14:15 - 18/10/2014
O projeto de modernização do sistema ferroviário é tocado pela CBTU nas cinco capitais em que opera: Recife, Natal, Belo Horizonte, João Pessoa e Maceió. Esta foi a primeira a receber o VLT. Entretanto, por parte de especialistas em trânsito, a ‘modernização’ trazida pelo veículo não é um consenso.

Para Rubens Ramos, mestre em engenharia de transportes e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o VLT representa um avanço no sistema ferroviário potiguar, mas está atrasado em 50 anos se comparado com o mundo.

“As ferrovia urbanas deveriam ter tecnologia totalmente elétrica – a tecnologia que está aí é dos anos 1950, é diesel-elétrico. Tem que ter trilhos enterrados no chão para não criar essa separação física entre duas áreas. Também não é uma tecnologia de piso baixo, então são necessárias plataformas altas. A atual não é integrada ao ambiente urbano”, explica o especialista em trânsito.

De acordo com o professor, as plataformas altas favorecem a divisão de bairros e são um empecilho ao desenvolvimento igual nas duas regiões. “Colocar uma ferrovia elevada cria uma segregação urbana. Com o trilho enterrado você não cria isso. Uma tecnologia urbana chamada tramway segue esse modelo”, aponta Ramos. Os tramways são utilizados em cidades da Europa. São semelhantes aos bondes, pois funcionam ligados à rede elétrica e possuem trilhos enterrados ao chão. Podem frear e parar em sinais.
De acordo com o professor da UFRN, Ruben Ramos, o sistema de transporte ferroviário que hoje existe em Natal não respeita o perímetro urbano
De acordo com o professor, o sistema que hoje existe em Natal não respeita o perímetro urbano. Por isso é comum encontrar comunidades carentes no entorno das linhas. “Sistemas comuns de ferrovias degradam o seu entorno. Isso é causado por duas coisas: o elevado, que cria o obstáculo físico de atravessar os dois lados, mas por ser um trem pesado você precisa criar uma estrutura de barreira. O trem não respeita a população, ele atropela. O VLT será algo mais seguro, um avanço dos anos 1900 para os anos 1950.”

Um dos elaboradores do projeto do VLT de Natal, o professor Enilson Medeiros, engenheiro civil da UFRN, defende que a escolha foi causada pela ausência de recursos. O projeto começou a ser pensado em 2003, mas finalizado dez anos depois. “O que é modernização e o que deixa dizer é uma discussão qualitativa.

“Decidimos como primeira etapa implantar estações mais modernas. A gente precisava também de um veículo menos agressivo ao ambiente. É lógico que ultramordenização não é, não há recursos. Para reduzir os níveis de investimento, também optamos por deixar o trem baixo, pois do contrário teríamos que arrancar a via toda. Tínhamos que utilizar a estrutura existente ao máximo e com isso prover mais conforto para o usuário dentro do carro, dentro da estação e um ganho de frequência”, salienta Medeiros. Serão realizadas até 56 viagens/dia pelos VLTs, com intervalos de frequência de 15 minutos.

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Para Medeiros, Natal já está atrasada ao pensar somente agora no investimento em trens urbanos. No Brasil, esse movimento começou na década de 1980.  “O transporte ferroviário urbano só surge por demanda das grandes cidades, pois é mais massivo, mais seguro e a custo mais baixo.” Segundo o professor, a modernização da rede ferroviária também permitirá, futuramente, a implantação do metrô.

“Com a revisão desse plano no futuro, muitas linhas propostas atualmente podem virar soluções metroviárias, principalmente nas linhas interiores à cidade. Vai depender das condições de como a cidade evoluir. É importante ir passo a passo porque Natal não tem uma cultura ferroviária. As pessoas não conhecem o trem”, acrescenta.

Histórias


O sistema ferroviário potiguar começou em marcha lenta. A primeira linha férrea do Estado foi inaugurada em 1881, quase 15 anos após o início da construção. Ela fazia o percurso entre Natal e Nova Cruz. Desde então, a expansão da rede dentro do perímetro urbano, iniciada na década de 1980, também entrelaçou histórias de potiguares – tanto os que dependem do transporte, quanto aqueles que vivem às margens da linha. A TRIBUNA reuniu algumas dessas histórias. Veja abaixo:

Francisco das Chagas Martins
69 anos, servidor público


Desenhista topográfico e servidor do IBGE, Francisco “Chico” Martins é o riso mais conhecido do trem de Ceará-Mirim.  Passageiro do trem há quase 20 anos, encabeçou o manifesto popular que pediu a ativação da linha para a cidade na década de 1970. Hoje, se dedica à reunir histórias sobre a relação entre a cidade e o trem. “O trem é uma beleza, o preço não é significativo, o que permite muita gente trabalhar. Depois que a usina (de açúcar) fechou, ele deu condições de as pessoas procurarem emprego em Natal. Uma maneira de sobreviver. Não fosse o trem, a situação seria difícil. Ele faz parte da dinâmica de trabalho de Ceará-Mirim. Poderia melhorar. Quebra, eu sei que é normal, mas é uma necessidade para quem tem horário no trabalho”, aponta.

Maria Leite de Oliveira
62 anos, aposentada

Há 25 anos Maria vive às margens do trem. Primeiro em Cidade Nova, hoje no Planalto. Para ela, o trem não é nada mais que um regulador do passar do tempo.

“Tem acidente porque as pessoas facilitam. O trem mesmo não sai da linha. O culpado não é o trem, mas o pessoal que não está nem aí.” Para ela, o barulho e os tremores que a passagem do trem causa já são costume. “Agora tem um trem novo, né? Esse que é bonito, passando para lá e para cá”, disse a aposentada, que deseja andar de VLT.

Francisco de Assis Figueiredo Alves
59 anos, pedreiro


Já o pedreiro Francisco é morador do bairro Quintas, em um perímetro onde as casas estão a pouco mais de 200 metros de distância da linha. Quando chegou, a região tinha umas poucas casas de taipa, e os trilhos eram de madeira.

“Peguei muito morcego no trem, levei muito carão da minha mãe. Corria, me agarrava no trem e dava “Tchau, mainha!”. Mas quando chegava o couro comia. Pegar morcego era bom demais. Hoje em dia ninguém pode pegar mais não”, conta o morador. “Era a Maria Fumaça que passava. A gente achava muito bom, corria e se agarrava no trem.”

Neuma Fonseca de Morais
48 anos, dona de casa


A casa de Neuma Fonseca coleciona rachaduras e a poeira permanente, levantada quando o trem passa. Mas para ela, o pior de morar no entorno é o perigo. Quase perdeu o sogro e uma filha para o trem. “Faz uns dois anos. Ele criava um cachorro e vinha para casa quando o cachorro ia atravessando a linha. Ele salvou, mas o trem ainda bateu nas costas deles”, conta. Outra vez foi a filha Milena. “Ela vinha passando na linha quando a sandália engalhou no trilho. Ela ia caindo, faltou nada, ficou todo mundo gritando”, relembra. A dona de casa se dispõe a sair do entorno, mas afirma que não tem condições. Para ela, o “abuso” do novo trem incomoda. “Esse trem novo tem o apito é abusado, né? ”

Michael Wagner Soares de Souza
13 anos, estudante

“Eu não gosto do trem, gosto de soltar pipa quando ele passa, dá mais animação. É só levantar a pipa ou ir para o outro lado”, diz o estudante Michael. Do outro lado da linha há um barranco que não assusta os vários garotos que transitam pela linha do trem, nas Quintas. Michael solta pipa desde os quatro anos, gosta das competições. No trem, só vê de ruim o apito. “Sábado de manhã, menino, é ruim de mais”, completa o menino. Quando morou em Nova Natal, também vivia próximo à linha. Para ele não há perigo. “É só prestar atenção”, diz.

Heliodoro Rocha
48 anos, maquinista


Tornar-se maquinista era um sonho acalentado por Heliodoro desde a infância.  “Quando o trem chegava era uma festa, era atração da cidade. Aquilo foi me despertando o interesse em ser maquinista”, conta. O primeiro teste que fez, dois anos após de ser aprovado no concurso da CBTU, em 1987, foi só nervosismo. Hoje, Heliodoro é um dos coordenadores da companhia e se tornou um dos primeiros a receber qualificação para manusear o veículo leve sobre trilhos. “O interessante é aquela responsabilidade, saber que transportamos vidas. Saber que um acidente ferroviário, por pequeno que seja, causa uma grande proporção.  “Hoje meu filho acha bonito, quer ser maquinista também. E agora com esse VLT”, ri.

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