Telemedicina encurta distâncias entre médicos e pacientes

Publicação: 2020-07-12 00:00:00
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Tádzio França
Repórter      

O distanciamento social está criando uma nova relação entre médicos e pacientes. Desde o início da pandemia tem aumentado a procura pela chamada telemedicina, as consultas à distância pela internet, através de computador ou celular. Uma prática até então informal, que foi temporariamente autorizada pelo Ministério da Saúde por ocasião do coronavírus. O atendimento remoto se tornou uma alternativa para evitar a disseminação da doença, e tudo indica que será incorporado ao dia-a-dia após a “nova normalidade”.

Créditos: CedidaGutemberg Gurgel já usava eventualmente ferramentas como Whatsapp para ter acesso a pacientesGutemberg Gurgel já usava eventualmente ferramentas como Whatsapp para ter acesso a pacientes
 
A telemedicina é um recurso moderno que, no entanto, está ajudando a retomar uma prática antiga: a do médico que atende em casa – mesmo que agora, via internet. O cirurgião vascular e presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV/RN), Gutemberg Gurgel conta que já usava eventualmente ferramentas como o Whatsapp para ter acesso a pacientes em situação remota, mas com toda a parametrização realizada atualmente pelo CFM, a prática está mais  organizada e segura para paciente e médico. Condutas mais profissionais também foram implementadas para garantir o sigilo da consulta.  

Encurtando distâncias
As consultas remotas de Gutemberg são agendadas pela secretária da clínica e com hora marcada. “Fazemos em um horário normal de consultório, pois a nossa estrutura é em consultório. O tempo é de 20 a 30 minutos e em alguns casos mais complexos, dividimos a consulta em duas etapas, quando precisamos receber material fotográfico, importante para documentação”, explica.

O médico acredita que a grande vantagem desse tipo de consulta é poder atender ao paciente que esteja em situação de dificuldade em comparecer a um atendimento presencial. Ele conta ter pacientes que vivem em cidades a de 400 km de distância de Natal. “Antes da pandemia realizávamos um consulta presencial e a segunda de retorno já era feita via chamada de vídeo, para avaliar se o tratamento foi eficaz”, diz. Há também o caso do paciente que viaja para morar em outra cidade (ou país), mas deseja manter a consulta com seu médico de confiança. Com a telemedicina, esse processo será normalizado.

O atendimento remoto pode ser prático, seguro e encurtar distâncias, mas ainda não é considerado plenamente satisfatório por médicos habituados ao contato direto. “A primeira desvantagem é a falta de contado direto que perdemos com o paciente, o exame clínico. Em muitos casos é algo importante para poder definir conduta. Casos de urgência podem ser orientados, mas nunca definidores de conduta sem um exame mais direto”, afirma cirurgião.

Uma desvantagem relativa, segundo o cirurgião, é para quem tem plano de saúde, a interferência causada pela falta de normatização pelos planos. “Hoje só realizamos a telemedicina em caráter particular. O médico para realizar esse tipo de atendimento tem que adaptar a sua estrutura ao procedimento. E ainda tem o investimento, que dependendo da proposta pode ser bastante oneroso”, explica.

Apesar de algumas limitações, Gutemberg Gurgel tem sentido no geral uma boa recepção por parte dos pacientes. “As reações são positivas, pois todos se beneficiam com um acesso que não teriam se não fosse a telemedicina. Em relação a pandemia, o medo de contagio, supera em muito, qualquer falta de contato direto com o médico”, diz. Em casos possíveis, ele sempre fala na necessidade da consulta de retorno ser presencial, quando falta algo para ser mais esclarecido.  
        
 Gutemberg ressalta que a telemedicina é uma realidade antiga em vários estados do Brasil, com maior ênfase no Amazonas. “Há cidades com mais de 1.200 km de distância da capital Manaus sem acesso a médicos clínicos gerais ou especialistas, o torna a telemedicina essencial”, conta ele, que já foi professor convidado na universidade estadual de lá e viu os bons resultados. Baseado nisso, ele acredita que a prática será facilmente incorporada pelos colegas num futuro próximo.

Experiência nova
A oncologista Danielli Matias está atendendo online pela Liga Contra o Câncer ou em clínica. Ela acessa a plataforma de telemedicina do local e obtém o prontuário eletrônico do paciente, repassando suas informações ao prontuário da clínica. “Nós enviamos um termo de consentimento antes da consulta para que o paciente leia quais são as orientações e se está de acordo com elas. Ele assina o termo e o envia para que seja colocado em seu prontuário eletrônico”, explica. Ao assinar o termo o paciente declara que entende as limitações da consulta e aceita ser atendido dessa forma.

Danielli conta que nunca tinha experimentado esse formato antes, e está atendendo assim desde o final de abril. Uma experiência nova para ela e também para seus pacientes. A médica também vê vantagem na redução dos riscos de exposição aos ambientes hospitalares e clínicas, assim como no encurtamento de distâncias. “Tenho pacientes de Mossoró e de Macau, que são regiões bem distantes no qual eu posso fazer a consulta sem que eles precisem se deslocar a tantos quilômetros para estar presencialmente comigo”, diz.

No entanto, a impossibilidade do contato físico na consulta online causa limitações em alguns casos, especificamente, no da oncologia. “Dentro das particularidades da oncologia, não uso a telemedicina para consultas de primeira vez, e também para pacientes que estejam em tratamento com quimioterapia é um pouco mais difícil o uso desse recurso”, afirma. Por isso a telemedicina fica mais na intenção das revisões e controles, chamadas de “rastreamento”. Danielli também lamenta a falta de acesso à tecnologia de alguns pacientes.

A oncologistaa também acredita que a telemedicina vai se manter forte após a pandemia. “Acho que a telemedicina seria o intermediário entre aquelas orientações informais que o médico acaba dando em aplicativos de celular como o Whatsapp, e a consulta presencial”, diz. Um passo seguinte seria a organização, em que o médico conseguirá dar o suporte ao paciente e deixar tudo registrado em prontuário.

O estudante de medicina André Aaron Moreira, tem considerado suas experiências com a consulta online bastante satisfatórias. “Com ajuda de recursos multimídia, o cirurgião pôde me explicar detalhadamente cada passo do procedimento e responder as minhas dúvidas. Realmente, é uma ferramenta que veio para acrescentar à prática médica de maneira irreversível, melhorando a comunicação entre o profissional e o paciente”, relata. Ele ressalta a importância de procurar um bom profissional para ajudar nesse processo.

Conexão mundial
“A telemedicina é uma tendência mundial sem volta”, afirma Jean Marc Nieto, diretor geral no Brasil da Teladoc, empresa pioneira em cuidados virtuais de saúde, que acabou de lançar seu aplicativo no país. A expectativa do grupo é atender, até 2021, cerca de 10 milhões de pessoas no Brasil. “Acreditamos que a telemedicina será conhecida no futuro apenas pelo que ela realmente é, ou seja, medicina. Seja presencial ou à distância. No Brasil, apenas 25% da população têm plano de saúde e o SUS sofre com a má gestão e falta de investimentos”, ressalta.

Jean Marc reconhece que a telemedicina não substitui uma consulta presencial, mas pode abordar de frente alguns problemas de acesso à saúde que os brasileiros enfrentam, como prontos socorros superlotados, falta de médicos e longos tempos de espera. “Mesmo antes da pandemia, a previsão da consultoria Forrester Research era de que o número de consultas médicas realizadas a distância iria superar o de atendimentos presenciais nos Estados Unidos em 2020”, diz.

O aplicativo torna mais fácil o acesso das pessoas a consultas sobre acidentes leves, crises alérgicas e dúvidas de pais com crianças pequenas. “Quando utilizado em um sistema seguro, o acesso é rápido ao prontuário do paciente, sempre mantendo o sigilo médico. Segundo uma pesquisa com clientes do serviço nos Estados Unidos, o índice de resolução de problemas é de 92%”, explica. A empresa planeja atender mais de 10 milhões de brasileiros com o novo app até 2021.