‘Tem que haver alinhamento entre Governo e empresas’

Publicação: 2014-06-01 00:00:00
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Entrevista - Alexandre Pereira
Secretário de desenvolvimento econômico do Ceará

Aldemar Freire

Editor de Política

Empresário e secretário de Desenvolvimento Econômico do Ceará, Alexandre Pereira afirma que o Rio Grande do Norte poderá encontrar os rumos do desenvolvimento se houver um “alinhamento” entre o pensamento dos empresários e os projetos do governo estadual. Mas ele evita dar lições aos norte-rio-grandenses, apesar da experiência que os cearenses têm ao conquistar índices de crescimento acima da média da região e do país. Afirma que não fica à vontade para sugerir receitas aos potiguares. Mesmo assim, destaca que os investimentos em infraestrutura e um sistema de incentivos fiscais com segurança jurídica foram alguns dos diferenciais do Ceará.

Nos últimos 7 anos, foram R$ 7,6 bilhões em investimentos no Ceará. Balanço do Conselho Estadual de Desenvolvimento Econômico (Cede) registra 188 novas indústrias instaladas ou ampliadas no período, com uma média de uma a cada 14 dias, gerando mais de 32 mil empregos diretos. Esses números se referem apenas às indústrias incentivadas pelo governo. “O que diferencia o Estado é a infraestrutura e a forma dos benefícios fiscais”, destaca Alexandre  Pereira.

Ele reconhece que os estados com cidades que vão sediar a Copa do Mundo da Fifa poderiam ter aproveitado melhor a oportunidade, mas afirma que “ficará algum” legado. Quanto aos rumos da economia nacional, defende a “diminuição de custeio, o enxugamento da máquina e garantia de mais celeridade na administração”.

Qual a atual situação econômica do Ceará?
Crescemos, em 2013, acima da média nacional. O PIB brasileiro teve um crescimento de 0,9% e o do Ceará de 3,6%. E esse crescimento do PIB tem dois fatores importantes. Um envolve o arrojo dos empresários cearenses, que tem no seu DNA a vontade de desenvolvimento. O outro diz respeito ao governo do Estado como impulsionador, com as grandes obras de infraestrutura. O Porto de Pecém vai agora para sua quarta ampliação e cresce 35%, em média, nos últimos três anos em volume de carga e faturamento. Para se ter ideia, hoje temos um problema bom de resolver que é o de navios esperando em fila para descarregar, em função do maior investimento privado hoje do Brasil que é a Companhia Siderúrgica de Pecém (CSP).
 
O que representa, em termos econômicos, esses investimentos?
Essa siderurgia vai representar um investimento de mais de 5 bilhões de dólares na economia do Ceará. Aumentará nosso PIB industrial em mais de 46% quando estiver em pleno funcionamento. A estimativa de faturamento da CSP, já em 2017, está em 4 bilhões de dólares por ano. Então, isso vai movimentar muito a economia do Estado do Ceará e consolidar um polo siderúrgico e metal mecânico.

Mas foi só o porto? O Ceará não teria conquistado resultados melhores, se tivesse diversificado os investimentos?
O Estado do Ceará investiu forte nas estradas. Temos 184 municípios interligados por via asfálticas. Investimos muito em cabeamento digital. Em todo o Estado, temos municípios com cabeamento digital.
 
Além da infraestrutura, o Ceará conseguiu vencer a guerra fiscal?
O que diferencia o Estado é a infraestrutura e a forma dos benefícios fiscais. Mas estabelecemos contratos que dá segurança jurídica às empresas de pelo menos dez anos, com direitos a renovação por mais dez anos. Temos contratos firmados, que estarão em vigor independente do Governo no poder, dos secretários da Fazendo e de Desenvolvimento Econômico. A empresa tem, assim, segurança jurídica. Temos, com isso, atração de grandes empresas para o Ceará desde o início dos anos 90. E há empresas há mais 20 anos no Estado. O Polo de Calçados, por exemplo, está consolidado.  Tem também o polo de energia renovável, como o Rio Grande do Norte. Outros setores estão em desenvolvimento, como o de cimentos.
 
Mas a guerra fiscal não é prejudicial aos demais Estados da região? Esse tipo de alternativa para atrair empresas não é inadequado para o país?
Eu não gosto deste nome “guerra fiscal”. Os estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste precisam conceder incentivos fiscais. Se mais de 65% do  consumo brasileiros está no Sudeste, as empresas que se instalam no Rio Grande do Norte, no Ceará ou em Pernambuco, precisam do incentivo para compensar a logística que será necessária para levar o produto ao mercado consumidor. O Brasil, que tem dimensão continental, não pode tratar de forma igual regiões desiguais. O Confaz (Conselho Nacional de Política Fazendária) só aprovar uma mudança tributária brasileira por unanimidade é um absurdo. Tinha que ser por maioria absoluta. Essa mudança se está tentando no Senado.
 
Pelo que o senhor conheceu do Rio Grande do Norte, como o Estado pode conquistar índices melhores de desenvolvimento e até semelhantes ao do Ceará?
Não fico tão à vontade para opinar sobre os estados dos outros. O Rio Grande do Norte tem relações com o Ceará. Vim aqui para conversar sobre o que imagino que podemos fazer, estrategicamente, juntos. Mas tem que existir um pensamento alinhado entre o empresariado e o Governo do Estado.

O senhor notou um distanciamento entre o setor público e o privado?
O que aconteceu no Ceará — desde o início, quando Tasso Jereissati assumiu o governo, e continua atualmente com o governador Cid Gomes, e também houve nas administrações de Lúcio Alcântara e Ciro Gomes — foi que tivemos gestões com muito respeito ao pensamento empresarial. A própria ida do Tasso ao governo e também de Cid Gomes, para citar dois gestores, significou governos sempre alinhados com o pensamento empresarial.

 Com se deu essa aproximação?
No Estado do Ceará temos as Câmaras setoriais que funcionam dentro da Secretaria de Desenvolvimento Econômico que são ambientes nos quais os empresários e técnicos do governo discutem, permanentemente, todo mês, para que a administração pública tenha a influência do pensamento empresarial. Se no Rio Grande do Norte houvesse algo semelhante, ajudaria.
 
Os grupos, que nos últimos anos, estiveram unidos no Ceará, serão adversários nas eleições de 2014, com Tasso Jereissati, de um lado, e Ciro e Cid Gomes em alianças diferentes. O projeto estará ameaçado?
É bom para a democracia essa discussão. Unanimidade  sempre não é bom. Foram dois grandes momentos. Cid Gomes, no atual governo, executou grandes obras estruturantes e pensou muito na próxima geração, investiu em educação, fez 101 escolas profissionalizantes, com padrão de escola particular.
 
O senhor acha que os Estados do Nordeste aproveitaram bem a oportunidade criada com a Copa?
Eu prefiro esperar passar a Copa para uma avaliação melhor. Mas se a legado da Copa for os equipamentos e as arenas, é muito pouco. O aeroporto de Natal ficará um espetáculo. Em Fortaleza, não ficará pronto. Bem, o saldo acabará sendo positivo. O custo foi muito alto.
 
Houve uma frustração em relação à expectativa que foi criada?
Se você imaginar que tudo isso teria sido feito em função dos recursos que viria do futebol, da Fifa, enfim, mas, não, foram nossos impostos que fizeram essa infraestrutura... Mesmo assim ficará um legado de mobilidade urbana e aeroportos.
 
Como o senhor observa a conjuntura e as perspectivas econômicas atuais do país?
Temos, enquanto gestores públicos, nos próximos governos, alguns deveres de casas, no que se refere à diminuição de custeio, ao enxugamento da máquina e à garantia de mais celeridade na administração. O mundo está muito rápido. E o Brasil segue muito lento nas suas decisões. Temos sérios problemas hoje na indústria. Há uma desindustrialização no país. Se for nos pólos de confecção e têxteis, veremos que estão sendo ameaçados pela China. Se não tivermos cuidado, o sucateamento da indústria brasileira virá. Isso é uma preocupação da CNI. E o Brasil precisa de algumas reformulações. Não dá para aceitar 39 ministérios. Digo isso como cidadão, não é uma opinião enquanto secretário de Desenvolvimento.