Internacional
“Temos que fazer os haitianos andarem com as próprias pernas”
Publicado: 00:00:00 - 13/11/2011 Atualizado: 11:10:20 - 13/11/2011
Fred Carvalho
enviado a Porto Príncipe

A comunidade internacional terá de esperar mais alguns anos para deixar de enviar ajuda humanitária e aporte financeiro ao Haiti. Essa é a opinião do embaixador do Brasil no país, Igor Kipman. Ele concedeu entrevista exclusiva à TRIBUNA DO NORTE, sexta-feira passada, na sede da Embaixada, em Porto Príncipe. Entre outros assuntos, o embaixador reafirmou o compromisso do Governo brasileiro de auxiliar na construção de uma hidrelétrica para tentar restabelecer a autonomia no setor no Haiti.

Acompanhe a cobertura especial no Haiti aqui.
Embaixador do Brasil no país, Igor Kipman, falou à reportagem da TRIBUNA DO NORTE, em Porto Príncipe. Para ele, a comunidade internacional ainda vai demorar para deixar o país.
Qual o atual retrato do Haiti após o terremoto de janeiro do ano passado?

Só quem viveu aqueles dias é que pode dizer o que passamos por aqui. O país foi completamente devastado, tendo como saldo mais de dois milhões de mortos. Há grandes tragédias na história recente, como furacão em Nova Orleans e o tsunami no sul asiático. Mas nada se compara ao que houve aqui no Haiti porque o centro nervoso do país foi o principal local atingido.

O país já se recuperou do terremoto?

Não. E ainda estamos longe disso. Para se ter uma idéia, tivemos um saldo de 60 milhões de toneladas só em escombros. Um terço disso já foi retirado. Mas os outros 40 milhões de toneladas ainda nas ruas a espera de serem recolhidos.

O terremoto ainda deixa marcas no povo haitiano?

É uma coisa quase que natural: após uma grande crise, sempre vem uma outra grande crise. A que o Haiti passa agora é a crise da cólera, com quase 7 mil mortos. E essa crise surgiu, em grande parte, por causa do terremoto.

O que o Haiti está fazendo para se reerguer?

Isso é difícil, até mesmo porque cerca de 30% do funcionalismo público morreu no Haiti. O terremoto, na verdade, foi uma catástrofe de proporções bíblicas, um espetáculo dantesco. O prejuízo foi de mais de 120% do valor do PIB local. E isso não se recupera de um momento para o outro.

E qual a solução para isso?

Temos que fazer os haitianos andarem com as próprias pernas. A comunidade internacional ainda vai demorar para deixar esse país. Eles precisam de muita ajuda de todos os países.

E essa ajuda deveria ser dada até quando?

Isso é impossível de se responder. Não há como prever o tempo necessário para que a comunidade internacional deixe o Haiti.

O que o Brasil tem feito para ajudar o Haiti?

Nós fomos o primeiro país a depositar recursos no fundo de recuperação do Haiti. Prometemos uma ajuda de 40 milhões de dólares e isso já foi feito. Muitos países prometeram ajuda, mas na verdade apenas concederam anistia de dívidas passadas. Não deixa de ser uma ajuda, mas o Haiti precisa de mais.

Esse montante brasileiro já foi empregado?

Não. Ele continua no fundo de recuperação e será empregado na construção de uma hidrelétrica próximo à fronteira com a República Dominicana, uma promessa do Governo Lula. É uma obra que custará 192 milhões de dólares. O Bird já ajudou com outros 30 milhões de dólares. O Canadá e a Noruega se prontificaram em também auxiliar. No momento, estamos pedindo que o Bird libere mais verbas e que outros países também contribuam.

Quando essa hidrelétrica vai entrar em funcionamento?

Não tenho essa previsão, até mesmo porque ainda faltam recursos. Por isso é que venho propondo que a obra seja tocada em etapas. Já temos verba para licitar parte da obra, mas não da hidrelétrica toda.

Há possibilidade de venda do excedente de energia produzida pela hidrelétrica para a vizinha República Dominicana?

Há a possibilidade sim. Mas isso tão cedo vai ocorrer, porque o déficit de energia no Haiti é muito grande. Primeiros temos que restabelecer a rede elétrica por aqui.

Essa é a maior contribuição do Governo brasileiro?

Por enquanto sim. Essa hidrelétrica não vai só gerar energia, o que por si só já seria muita coisa, uma vez que a maior parte de Porto Príncipe ficou sem rede elétrica após o terremoto. Também faz parte dela um projeto de irrigação nas proximidades do local onde será construída a represa. Estamos falando da geração de mais de 450 empregos diretos. Na situação do Haiti, qualquer ajuda é uma grande ajuda.

O Brasil contribui de mais alguma forma?

Muito. Além do Governo brasileiro, ongs e movimentos nossos ajudam bastante por aqui. É o caso da Viva Rio, que vem ajudando no desenvolvimento do esporte, e do MST, que vem capacitando mão-de-obra local para o emprego de novas técnicas no campo. Esses são apenas dois dos projetos que poso citar agora.

O Governo brasileiro não participa desses projetos?

Não diretamente. Mas auxilia como pode. Por exemplo: cem haitianos foram em voo da FAB pra o Brasil participar de uma capacitação lá; a Marinha do Brasil trouxe para cá sementes e cisternas doados. Ou seja, além da ajuda direta, também apoiamos indiretamente o progresso do Haiti.

Para se reerguer o Haiti, é preciso investimento maciço em educação. O que está sendo feito neste sentido?

A educação realmente é um ponto primordial para que o Haiti cresça e se desenvolva. Mais de 90% das escolas haitianos são privadas. Para piorar, a maioria das escolas públicas veio abaixo no terremoto. Diante disso, o Unicef e construiu escolas provisórias e entregou os prédios para o Governo do Haiti. Mas, infelizmente, por aqui as coisas provisórias acabam se tornando permanentes. A Unesco também ajuda bastante na educação. Mas o povo daqui precisa de mais.

Delmas: um bairro inteiro às escuras

Devido o terremoto de janeiro de 2010, grande parte da rede elétrica do Haiti foi destruída. Na maioria das cidades, mesmo passado um ano e mio da tragédia, ela não foi restabelecida.

Na noite de sexta-feira passada participei de uma patrulha noturna juntamente com militares brasileiros da Minustah pelo bairro de Delmas, que fica a Noroeste de Porto Príncipe. Em alguns locais, confesso que senti medo.

A escuridão é total. Os faróis das viaturas e as lanternas é que me possibilitou ver que havia casas na região.
Delmas é um dos bairros mais densamente povoados de Porto Príncipe. A maior parte da população vive – ou sobrevive – de escambo.

A ONU é quem estabelece qual contingente vai se responsabilizar por determina área. No caso de Delmas, é uma missão brasileira.

Além de manter a ordem no local, na sexta-feira passada as patrulhas brasileiras tiveram uma outra missão: entregar edredons e kit de higiene em um orfanato de Delmas.

“Esse orfanato, antes do terremoto, tinha sede própria e fica bem localizado aqui em Porto Príncipe. Infelizmente muitas crianças morreram na tragédia e para completar o prédio ficou completamente destruído. Os responsáveis pelo projeto foram relocados para essa espécie de favela. Mesmo assim não desanimaram e decidiram manter o orfanato. Hoje, eles cuidam de mais de 30 crianças”, falou o tenente Tiago de Andrade, que comandava a patrulha.

Fomos recebidos por um homem identificado apenas por “Júnior”. Falando uma mistura de inglês, francês e crioulo, ele agradeceu a doação. “Obrigado por continuarem nos ajudando. Esse material será bem aproveitado por nossas crianças”.

Após a doação, continuamos a patrulha pelas ruas escuras de Delmas.

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