"Temos uma carência grande de talentos"

Publicação: 2013-04-20 00:00:00 | Comentários: 1
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Por Anna Ruth Dantas

O impulso por abrir o próprio negócio confundido com empreendedorismo. A iniciativa de buscar ser dono para evitar a instabilidade de ser empregado. É por essas nuances do negócio que o publicitário Antonio Lino traz sua análise aguçada. O título do seu livro mais recente “Abri minha agência, e agora”, já demonstra a temática dos estudos do empresário, que é diretor da agência Talent.

“É necessário um pouco de cuidado porque a maioria que abre uma empresa inicialmente corre o risco de não conhecer bem o mercado, fazer uma escolha errada de sócios”, destaca. Para ele o momento também é de transição para as empresas que estão focando em retomar o perfil dos funcionários que encampam a bandeira do negócio. “Hoje eles (os jovens) com 19 anos já querem ser diretor. Eles querem trabalhar em empresa diferente, ter noção do papel deles dentro do negócio, com metas claras muito bem definidas. Então, há dez ou 15 quesitos que as empresas estão tentando enquadrar (para retomar o perfil do empregado que veste a camisa), mas não é tão fácil assim”, destacou.

Com a autoridade de quem dirige uma grande agência de propaganda e é autor de livros analisando os negócios das pequenas empresas, Antonio Lino traz suas análises e ponderações como nosso convidado de hoje do 3 por 4.
Júnior SantosAntônio Lino Pinto é sócio da Talent, diretor do Sinapro-SP, diretor da Fenapro e seu representante no Conselho Consultivo do CENP, e vice-presidente da ABAPAntônio Lino Pinto é sócio da Talent, diretor do Sinapro-SP, diretor da Fenapro e seu representante no Conselho Consultivo do CENP, e vice-presidente da ABAP

Muitos publicitários, recém-formados, têm logo o impulso de abrirem uma agência de propaganda. Onde está o limite entre o impulso e o empreendedorismo?
Isso foi o que tentei colocar no livro (lançado por ele “Abri minha agência, e agora”). Nem sempre a ideia de ter um negócio é uma coisa muito interessante. Hoje estamos passando, de uns anos para cá, esse tal de empreendedorismo. Todo mundo está abrindo empresa. Hoje, para você ter ideia, de cada quatro brasileiro, um é empreendedor, segundo dados do próprio mercado, do Sebrae. De 100 milhões de trabalhadores, tem 27 milhões são empreendedores, aí estão incluídas todos os tipos de atividade. O que coloquei no livro é que é necessário um pouco de cuidado porque a maioria que abre uma empresa inicialmente corre o risco de não conhecer bem o mercado, fazer uma escolha errada de sócios. Então, especificamente no nosso mercado estamos passando por transformações muito grandes e exigiria que essas pessoas tivessem um pouco mais de experiência, convivessem na agência, entendessem do mercado e aí no futuro poderia pensar se valeria a pena ter um negócio próprio. Até porque temos uma carência muito grande de talentos. As vezes você pode ganhar um dinheiro muito bom como um executivo em uma grande agência e evitar os transtornos de um pequeno negócio que não é fácil, tem a questão do capital de giro, por exemplo. Mas está sim tendo uma tendência muito grande de abrir negócio.

A que o senhor credita essa tendência de abrir negócio, essa vontade das pessoas se denominarem empreendedoras?

A dificuldade hoje de você trabalhar. As empresas hoje não tem mais um dono. Aqui no Brasil não existe mais. São poucas as empresas que no passado eram familiares. Hoje nem o presidente da empresa fica, ele permanece quatro ou cinco anos e vai embora. Então os funcionários estão perdendo um pouco a coisa do vestir a camisa, curtir o negócio, você não tem muita perspectiva de futuro. As empresas estão sempre em movimento, se comprando, se vendendo. Foi divulgada recentemente uma pesquisa mostrando que chega a 61% o grau de insatisfação dos empregados na empresa. Está difícil para as empresas entenderem o que exatamente quer esse jovem (empregado). Marcar cartão de ponto? Eles não querem mais isso. Então tem uma demanda que as empresas que vão se dar bem no futuro são aquelas que terão condição de entenderem que o negócio mudou. Tem empresa, por exemplo, proibindo Facebook dentro do escritório. Esquece isso. Não tem a mínima chance de você agradar um funcionário com esse tipo de proibição. Primeiro, inclusive, porque não funciona, o cara pega o celular, coloca na gaveta e fica vendo o Facebook do mesmo jeito escondido.

O retorno do funcionário para “vestir a camisa da empresa” passa pelo quê?

Basicamente eles (os empregados) querem uma empresa ética, crescimento rápido e isso é muito próprio do jovem. Antes para você ser um gerente tinha que ter mais de 30 anos. Hoje eles (os jovens) com 19 anos já querem ser diretor. Então é um desejo deles, paciência. Eles querem trabalhar em empresa diferente, ter noção do papel deles dentro do negócio, com metas claras muito bem definidas. Então, dez ou 15 quesitos que as empresas estão tentando enquadrar, mas não é tão fácil assim. E tem também a questão salarial, mas esse é o quarto ou quinto item. Os jovens querem muita transparência. Ele (o jovem) tem uma cabeça um pouco diferente do que tive no passado.

Falando agora do seu negócio, a agência de propaganda, em que ela se distingue dos demais negócios? Onde está a peculiaridade dela para se fazer de uma pequena agência um grande negócio?

O segredo do negócio da propaganda, no caso das agências, é a criatividade. A agência tem um know how de vender, colocar para o anunciante, para o produto, o que a empresa (anunciante) não tem a capacidade de desenvolver. Então ela (a agência) tem um papel importantíssimo no mercado, tanto é que o mercado cresce tranquilamente a cada ano. É o único parceiro que consegue entender a necessidade e ajudar o anunciante no produto. A gente tem perdido um pouco o foco, tem tido um pouco varejo e tudo, mas ainda é uma importância muito grande. Por que a turma compra Nike e não outra marca? Por que cerveja tal vende mais?   Tudo isso é propaganda. Isso é o que a propaganda consegue fazer. O anunciante sozinho conseguiria ter a capacidade. As empresas sabem que precisam de uma equipe de fora, muita gente de talento, para fazer esse trabalho.

E como escolher um sócio para o negócio?
Essa é uma das dificuldades. Os jovens estão saindo da universidade, pegam os melhores amigos e ali decidem abrir um negócio. Aí depois descobre que o amigo que era o conquistador das meninas, eleito para ser o cara de vendas, ele (o amigo) não tem qualquer ideia como vende. O problema da sociedade é que é como casamento, só não tem sexo. Mas tem o desgaste natural. O que se recomenda é que você tenha, primeiro, definido quantos sócios, cada um precisa de uma especialização. No caso de agência, o ideal seria alguém na área de criação e atendimento, alguém com bons conhecimentos de administração e as regras precisam ser muito claras. Outra coisa que se faz em sociedade é dividir em partes iguais. Quando, na verdade, não há necessidade. Quem tem um potencial ou que vai agregar muito mais ele pode ter 70% da participação. Você não precisa ter três sócios e cada um com um terço. E o principal que ninguém faz são as regras da convivência. Você precisa estabelecer se o sócio sair quanto vai valer o negócio dele, como estabelecer o valor, deve definir também retenções de lucro para capital de giro. No caso de investimentos, estabelecer limites onde precisa ter consenso dos sócios. É necessário ter regras sobre qual o limite do endividamento. Se vai se associar com terceiros, novos sócios e quais seriam essas regras. Os cuidados com riscos tributários precisam ser definidos. E, principalmente, a ideia de que a empresa não pode ser considerada um bem dos sócios. Ela (a empresa) é um bem, uma personalidade jurídica. E as regras para conviver é que ninguém deve ter cartão de crédito da empresa e não  pode tirar qualquer valor sem que as regras sejam definidas. A distribuição do lucro precisa ser feita em regime de caixa, mas precisa estar no acordo de cotista. O ideal é definir acordo sobre em que situação será distribuído o lucro. A partir disso você vai eliminando os conflitos. Quando está indo tudo bem, a empresa está dando lucro, tudo vai muito bem. Mas basta começar a crise que os conflitos também iniciam.

Os jovens quando decidem abrir os negócios, na falta de capital, fazem uma sociedade onde os sócios são funcionários. É saudável esse modelo?
Isso é até muito produtivo porque, na empresa de serviços ou agência, o sócio ele tem papel fundamental junto ao anunciante. Não e´algo criar equipe e só ficar no escritório. O envolvimento de sócio no negócio é fundamental, temos o exemplo de Nizan Guanaes, Washington Olivetto. É positivo ter sócio com envolvimento no dia-dia. Mas só sócio não dá conta. É preciso uma equipe bem alinhada.

Qual o tipo de postura da agência que garante a rentabilidade do cliente?

Hoje tem dia se tenta buscar tecnicamente isso. Mas não há uma ferramente muito bem definida. O fato é o seguinte, você percebe o retorno do seu cliente pelo volume de vendas. Colocou no ar e na semana seguinte começa a tirar pedido, significa que a campanha funcionou. Esse é o melhor termômetro de avaliação.

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Comentários

  • lino

    Ana Ruth, ficou muito legal a entrevista. Obrigado pelo apoio.