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Rubens Lemos Filho
Tempo e lugar
Publicado: 00:01:00 - 15/06/2022 Atualizado: 22:24:16 - 14/06/2022
Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Assim que a bola, passeando em rosca,  buscou ninho no canto baixo do goleiro do Mirassol, duas canções tocaram em silêncio no meu coração. Ambas, apropriadas ao gol, ao ambiente, ao personagem e às circunstâncias    que o envolveram em desgastante novelo de intrigas, dias passados que não voltem mais. 

Wallyson corre quase da intermediária carregando a angústia da massa em catarse. Levando no peito a necessidade que nunca teve de mostrar o talento superior a todos os jogadores da Série C. Então, ele chutou. O veneno posto no petardo matou o bom goleiro Darley  e fez cantar em paz a Frasqueira ocupando seu caldeirão da Rota do Sol. 

Instintivamente, me peguei cantando versos de Benito Di Paulo, dos meus cinco sambistas prediletos. Tudo está no seu lugar, Graças a Deus, Graças a Deus. Quero ver o sorriso estampado bem na cara dessa gente. Quero ver quem vai, quem fica. Ou quem chega de repente.
É um sambão de raiz, de fundo de quintal, de mesa e de arquibancada. A pancada seca de Wallyson encheu de suingue a letra que cantarolei devagar e lembrando as noites de voz e violão na casa dos meus pais. 

O ABC é dos humildes e está para samba e não para jazz. O samba é o balanço corporal das batalhas de molejo, dos títulos conquistados, das glórias simbolizadas nas veias abertas por Wallyson agasalhadas pelos ventos frios de Ponta Negra sobre a cidadela em permanente prontidão do Estádio Maria Lamas Farache. 

Enquanto Wallyson era cercado pelos companheiros, como o Rei que voltava de expedições distantes para reassumir seu trono, tamborilava Benito Di Paula na mesinha da sala. Tudo está no seu lugar porque ABC é ABC para subir de divisão desde que nele esteja Wallyson. 

Tudo bem que o Mago tenha exagerado, feito piadas infames e soltado indiretas nas redes sociais, mas crédito ele tem de sobra. Essa história de que todos os jogadores são iguais num time vale tanto quanto uma nota de 3 reais. É mentira. O ABC tinha Alberi e tinha o pacato lateral Preta. Não precisa dizer para onde canalizava o duto dos privilégios. 

Wallyson é ser superior diante da normalidade técnica não só do ABC, mas de quase todos os times de cada uma das quatro divisões do Campeonato Brasileiro. Daí, com Wallyson, tudo está no seu lugar. 

Minutos depois, emoção fluindo nas veias, lembrei-me da Oração Ao Tempo, de Caetano Veloso. Tempo, tempo, tempo, tempo, és um senhor tão bonito, quanto a cara do meu filho, para mais adiante emocionar: compositor de destinos, tambor de todos os ritmos, tempo, tempo, tempo, tempo, peço-te o prazer legítimo e o movimento preciso, tempo, tempo, tempo, tempo. 

O poema de Caetano serve de background para o episódio bizarro em que tentaram manchar um ídolo indispensável pois nele há talento, carisma, estrela e empatia popular de massa. Aparentado do destino, o tempo tudo põe no canto certo. 

Ignorando o tempo, cabeças insanas de maus torcedores, de burrice ululante e esférica imbecilidade, que despejaram (errando o alvo) seu lixo mental no craque, no homem que há anos é herói de um povo quando chuta e faz florescer a vitória. Fez bem Marchiori pondo o Rei do Frasqueirão. É Wallyson, seja no tempo ou no lugar. 

Morno 
O América está em temperatura morna, nem quente o necessário nem frio o bastante. O time oscila porque falha no setor principal, o meio-campo, onde apenas Elvinho parece com algum talento. O América precisa de um condutor de jogadas. 

Reforço 
Contando com Zé Eduardo e Wallace Pernambucano no ataque, o América traz Iago, 26 anos, outro homem de frente, que não conseguiu permanecer no mediano time do Campinense, hoje em crise. Série D é o berro dos angustiados. 

Dodoca 
Morre Dodoca, craque de futsal do América na década de 1960 e, com ele, muito da alegria irreverente de Natal. Tristeza e Dodoca eram incompatíveis. 

Alecrim forte 
Quem te viu, quem te vê. O Alecrim joga suas fichas na Segundona querendo a volta à 1a divisão  do campeonato potiguar. Hoje é apenas uma vaga, a do campeão, mas o movimento por ora discreto, pleiteia a classificação também para o segundo colocado, carta de seguro do Verdão. 

Bem diferente 
O Alecrim só por milagre reviverá seus dias de glória como o 16 de junho de 1968, ano em que foi campeão invicto. Naquele domingo chuvoso e com 2.887 torcedores no Estádio Juvenal Lamartine, o Alecrim dominou o América mas cedeu o empate por 2x2. Elson e Burunga marcaram para o Alecrim, com Evaldo Pancinha e Lolô faturando os gols rubros. 

Qualidade 
Eram dois times de qualidade. O Alecrim do técnico Pedrinho Teixeira, o Pedrinho 40, jogou com Eliezer; Luizinho, Miro Cara de Jaca, Cândido e Anchieta; Pedrinho(Odisser) e Valdomiro; Zezé, Elson, Icário e Burunga. Treinado por Jorge Level, o América atuou com Odair; Biu, Lolô, Daniel e Pirangi; Arandir e Véscio(Creso); Assis(martinho), Gobat, Evaldo Pancinha e Lia. 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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