Tempos de decisão

Publicação: 2018-01-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

A cultura popular é fonte inesgotável de sabedoria. Retrata a experiência humana em todas as dimensões. Davi, pastor de ovelhas, contemplando em noites a vastidão do universo, procurou desvendar o enigma desse infinito manto de luz tecido pelas estrelas. Fortaleceu sua fé e seu amor a Deus. No silencio dos campos e dos montes, à noite, aprimorou sua vocação e estilo poético. Durante o dia dedilhava sua harpa numa harmonia perfeita entre si e a natureza. Seus salmos revelam uma ternura em sua comunicação com o Criador. Antes de serem transcritos pelos codificadores do Velho Testamento, a literatura oral os transmitiu de geração em geração.  Ninguém melhor se comunicou com Deus em poesia do que Davi, São Francisco e Santa Teresa D'Ávila. Agripino Grieco, em "São Francisco de Assis e a poesia cristã", considera a poesia do "pobrezinho de Assis" a pedra angular de uma cultura poética estritamente cristã em valores, temática e estética. Assim dimensionou São Francisco: "Abismava-se em Deus, saciava-se de solidão, mas também vinha ao mundo lutar. Esse Orfeu batizado foi mesmo um dos maiores organizadores do seu tempo. Muito contente com a sua libré de estamenha, não a trocaria por uma veste de púrpura, achando preferível ser lacaio de Cristo a ser príncipe dos homens. Foi ele, no dizer de Dante, o segundo marido da Pobreza, viúva desde a morte do Pobre da Galiléia, que não tinha uma pedra onde pousar a cabeça". Elisabeth Reynaud, na introdução de "Teresa de Ávila ou o divino prazer", inseriu o viver da santa nesse contexto: "O santo é um homem ou uma mulher em cujo corpo reverberam tão violentamente os impulsos do amor, que sua alma se desliga do envoltório corpóreo para evadir-se pelas esferas tão cobiçadas da essência superior do ser. O santo é uma forma avançada da humanidade. Deu alguns saltos a mais nas metamorfoses do Homo Sapiens". A poesia de Santa Teresa transmite e transpira fé, amor, paz e misericórdia: "Que nada te perturbe/que nada te apavore/tudo passa/só Deus não muda/a paciência tudo alcança/quem tem a Deus/nada lhe falta/só Deus basta".

André Malraux, gênio da literatura e da cultura, em "As vozes do silêncio", obra prima sobre a evolução humana através das artes, reconhece que a ocidentalidade emergiu da cultura oral. Outros que o sucederam nesses estudos, reconhecem que o âmago da "Ilíada" e da "Odisseia", de Homero, tinha como fonte a cultura popular. Muito antes de sua conversão em texto. Heródoto, outro grego, o pai da História, disse que Homero, cego, vagava de cidade e cidade, declamando sua poesia épica e eterna. André Bonnard, em "A civilização grega", registra que os sofistas aprimoraram a retórica como meio de transmissão de saber. Mas algum tempo prevaleceu a versão equivocada de que a retórica foi mera forma linguística de convencimento. Na mesma vertente está "Dante Alighieri e a tradição popular no Brasil" do mestre Cascudo. Poemas da "Divina Comédia" revelam hábitos, costumes e até expressões que se incorporaram à maneira de ser do brasileiro. Manifestações do renascimento migraram para o Brasil e integram nossa alma coletiva. Enquanto Monteiro Lobato impregnou suas estórias e fantasias daquela simbiose de que falava Ronald de Carvalho: a esperteza do português, a docilidade do índio e a tristeza (banzo) do africano. Seu universo ficcional consagrou tais características.

As instituições políticas também devem ter identidade com a cultura popular. Com a alma do povo. Os modelos políticos se ajustam, nação a nação, às suas peculiaridades. Mas seu aprimoramento não é, apenas, exigência histórica. Imperativo dos ideais, sonhos e objetivos, que dão personalidade e vida a uma nação. As maquinações de detentores do poder, legitimados pelo voto popular, não podem deformar o que está consagrado na Constituição. As cláusulas pétreas somente podem ser alteradas ou revogadas por uma Assembleia Constituinte. O aperfeiçoamento institucional é imposição moral, ética, espiritual, cultural e política da nação. Os intérpretes da Constituição e das leis, nos diversos níveis do Judiciário, não podem, em hipótese alguma, extrapolar ao espírito do texto em exame. Tampouco não devem manifestar-se previamente de modo a indiciar ou antecipar suas futuras decisões. A isenção da Justiça, simbolizada pela vedação de sua "deusa" (Themis), adverte para o indeclinável dever de imparcialidade, insuspeição, sobriedade e retidão. Posturas inerentes à judicatura.  

Governantes parecem esquecer que as razões de suas eleições se vinculam a compromissos éticos e morais. Com efeito, sem objetivar individualizações de responsabilidades, o processo de globalização no Brasil elevou, substancialmente, o grau de relacionamento moralmente comprometedor entre setores públicos e privados. Uma das revelações mais estarrecedoras da operação "lava-jato" foi a promiscuidade entre empresas privadas (empreiteiras) e setores governamentais.  No âmbito interno e externo.  Operações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, com aportes bilionários, favoreceram imoralmente empresas brasileiras com atuação no exterior. Nem tudo foi plenamente apurado. Tampouco seus responsáveis amplamente identificados. Tanto pessoas físicas quanto jurídicas. A renúncia fiscal, principalmente no âmbito da União e dos Estados, em regra geral, é um escárnio a tantos quantos, individualmente, pagam uma das mais altas cargas tributárias no mundo. Mas sem retorno correspondente e justo, singularmente em educação, saúde, segurança e bem-estar social. Pesquisa mundial, fundada no "behaviorismo", revela que governantes são referidos na terceira pessoa ("eles"), significando que os entrevistados não os apoiam nem os convalidam. E, quando um governante se refere a si mesmo na primeira pessoa ("eu"), é autoritário; julga-se "dono do poder". Grande número desses gestores mente cinicamente. Considera os governados marionetes. Versão pífia do "Grande Irmão" de George Orwell. Será? 

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